Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O comunista Monteiro Lobato pergunta: vão censurar o pirlimpimpim?

Na imagem (retirada do Pablog do Sítio), Pedrinho foge dos monstros graças ao pó de pirlimpimpim, um presente de Peter Pan à Turma do Sítio.

=> É com muita honra que reproduzo aqui o texto abaixo, da Profª. Dra. Luci Ruas Pereira, publicado originalmente no site da UFRJ. Além de ter sido sua aluna na disciplina de Literatura Comparada, fui também sua orientanda em projeto de pesquisa sobre a obra de Eça de Queiroz. Gabarito ela tem de sobra e o texto está simplesmente magistral.
Ana Helena Tavares

Já vi Lobato ser acusado de tudo: de comunismo, de divulgar a droga, com o pó de pirlimpimpim.

Por Luci Ruas

Sempre li Monteiro Lobato desta forma: como escritor e homem combativo e visionário, polêmico e, muitas vezes, contraditório. Assim era e continua a ser, para mim, o seu Sítio do Pica-pau Amarelo: um lugar de aventura, de busca do conhecimento, de trocas e disputas, de discussão e de democráticas decisões (veja-se – ou melhor, leia-se nos livros quantas decisões foram tomadas a partir de plebiscitos). Essas características nunca me impediram de ler Monteiro Lobato, como nunca me impediram de ler nada. Fui compreendendo melhor o largo horizonte da obra de Lobato à medida que fui também amadurecendo e adquirindo novos conhecimentos. Não li Lobato pelas versões que a TV nos apresentou e agora mais uma vez nos apresenta. Por isso, é como leitora, e não como telespectadora, que posso me pronunciar.

Não estou de acordo com a decisão do Conselho Nacional de Educação – a meu ver equivocada – que acolhe por unanimidade o parecer da Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes, ratificando a denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende Caçadas de Pedrinho como ‘manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas’; e aponta ‘menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura’. Espanta-me que desqualifique o professor na sua capacidade de refletir e de construir a leitura como objeto de reflexão e o leitor como sujeito crítico, capaz de refletir, subestimando, assim, o aluno, ao mesmo tempo em que o transforma em sujeito incapaz de se posicionar frente à realidade.

Monteiro Lobato foi um homem do seu tempo e, como tal, sujeito às contradições da sua época. Se, em Caçadas de Pedrinho, observam-se referências estereotipadas contra os negros, como quer confirmar o parecer, com o qual já disse que não concordo, é possível, em O Saci, ver com que respeito é tratado o Tio Barnabé, tanto por Dona Benta, quanto pelas crianças. Em A reforma da natureza, logo ao primeiro capítulo, quando o narrador diz que a guerra estava acabada e a Europa precisava discutir a paz, um dos reis ali presentes afirma que é preciso “convidar para a conferência alguns representantes da humanidade”. Esse mesmo rei afirma, depois de conversar com o General De Gaulle: “- Só conheço – disse ele – duas criaturas em condições de representar a humanidade, porque são as mais humanas do mundo e também são grandes estadistas.” E o Duque de Windsor aprova o convite, apontando a ‘sabedoria’ de Dona Benta e o ‘bom senso’ de Tia Anastácia. Para além desses episódios, é preciso considerar que as personagens mais instigantes e mais questionadoras do Pica-pau Amarelo são a Emília e o Visconde, ambos criações de Tia Anastácia. Em Memórias da Emília, a boneca atrevida e espevitada reafirma o seu carinho por Tia Anastácia, aquela que lhe muda os olhos todas as vezes em que cansa de ver as coisas da mesma forma. Se há razões para afirmar algum racismo em Lobato, sobretudo nas expressões que dizem estereotipadas, por outro lado, ao contradizer esses estereótipos, Lobato os esvazia.

É empobrecedora qualquer leitura que cerceie o direito de o leitor escolher o caminho que mais lhe interessa para sua leitura. Não é essa a postura que, como educadores, pretendemos do leitor crítico que desejamos formar. Será que vamos reeditar o Index Librorum Prohibitorum? Que triste ensaio!!! Vetar sem permitir discussão é o mesmo que censurar. E aditar notas explicativas ao texto é direcionar, sim, a leitura.

Não aceito policiamento de leitores. Como poderão fazer suas escolhas, se desde cedo virem sua privacidade invadida pelo pensamento alheio? E como debater e defender ideias, se suas ideias forem, desde sempre, conduzidas pela pobreza da leitura única? Nós sabemos que um mesmo objeto pode ser lido e compreendido de modos diversos em épocas também distintas. Que seria da ciência se tivesse fincado os pés na ideia de que a Terra era plana e que a Terra era o centro do universo? Que seria da ciência se não tivesse descoberto que a verdade é mutável? Que será da Literatura sem a possibilidade de denunciar e de criar? E que será dessa Literatura, sem um leitor para dar à letra fria a vida necessária ao texto? E que será dos leitores, se não tiverem a possibilidade de escolher, de imaginar, de comparar, de analisar, de tirar suas próprias conclusões? Se ela é perigosa, é tão perigosa como viver (já o disse Guimarães Rosa).

Já vi Lobato ser acusado de tudo: de comunismo, de divulgar a droga, com o pó de pirlimpimpim. Sei que seus livros, como outras bibliotecas pelo mundo, foram queimados. Já li críticas de toda ordem. Mas não soube que os livros de Lobato tenham sido censurados. E não se perderam. Que não se perca mais uma vez a oportunidade de discutir abertamente os textos de Monteiro Lobato. E, sobretudo, não se subestime nem a inteligência da criança, nem a sensibilidade do educador.

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