Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Jornalismo é uma profissão; apresentar anúncios, outra

Dines folheando o Jornal Laboratório da FACHA,
no dia em eu o entrevistei. Foto: Camila Camacho
Por Alberto Dines, jornalista, no "Observatório da Imprensa"

Primazia indiscutível, oportuna, simbólica: a Folha de S.Paulo foi o primeiro jornalão a questionar abertamente a contratação da celebrada atriz/garota-propaganda Marília Gabriela para apresentar o novo formato do programa jornalístico Roda Viva, na TV Cultura. Na nobilíssima Página Dois de segunda-feira (30/8), o colunista Fernando de Barros e Silva condenou a perigosa superposição de telejornalismo com jingles através da contratação de uma apresentadora de anúncios televisivos no comando de um histórico programa de debates e entrevistas (ver "Cultura de salão", reproduzido neste OI). O colunista não faz juízos de valor, elegantemente passa ao largo de performances, quer discutir princípios. Bem-vindo, pois, a este Observatório da Imprensa.

Convém reparar, porém, que a Folha cometeu o mesmo pecado duas vezes e tem ajudado com o seu indiscutível poder de fogo a apagar os contornos de uma profissão que ela – e suas parceiras na mídia – deveriam ser as primeiras a consagrar e proteger.

A recente reforma gráfica e editorial da Folha foi promovida na TV em comerciais divinamente interpretados pela atriz Fernanda Torres. E, em seguida, a atriz foi contratada para escrever sobre política na Folha. Como atriz e apresentadora de comerciais é perfeita – ostenta no DNA a grandeza de Fernando Torres e a humanidade de Fernanda Montenegro. Como colunista (na Vejinha Rio) foi uma agradabilíssima surpresa. Se estamos falando de princípios rigorosos, sua contratação como articulista na editoria "Poder" da Folha seguiu um raciocínio dúbio. Tudo bem: é possível admitir que o colaborador de um jornal possa aparecer em mensagens institucionais do veículo onde trabalha. Neste caso, não pode ser remunerado.

Falta cancha
Há alguns anos, quando o jornalista e produtor cultural Nelson Motta, então colunista da mesma Página Dois da Folha, protagonizou uma série de comerciais de TV para uma grande organização bancária, foi explicado que não havia conflito de interesses porque o jornalista não se ocupava de economia e finanças, sempre focado em música popular, sua incontestada especialidade.

Seguindo essa tortuosa argumentação, se Marília Gabriela no Roda Viva abdicar de discutir telefonia, automóveis e softwares (produtos que recentemente vendeu como garota-propaganda), estaria liberada para prosseguir sem qualquer objeção sua carreira de telejornalista.

Convém lembrar que antes, em dezembro de 2003, criou-se um caso público quando o veterano analista de economia Joelmir Beting foi afastado abruptamente do Globo e do Estado de S.Paulo porque apareceu em comerciais de TV de um banco (sobre o caso, ver, neste Observatório, "Conflitos de interesses devem acabar. Todos", "Em casa de enforcado...", "Joelmir sim, picaretas não", "Normas de conduta impedem propaganda" e "Posso falar?"). Este observador lembrou então que o jornalista fora iludido por uma separação cada vez menos nítida entre jornalismo e publicidade diante da profusão de "cadernos especiais", publi-editoriais e outros produtos igualmente difusos então em voga.

Nas entrevistas publicadas no domingo (29/8) no Estadão e na Folha, Marília Gabriela tentou enveredar pela mesma linha; faltou-lhe cancha, não é do ramo: deveria ter permanecido de bico calado ou convidado a dupla de colaboradores, os veteranos jornalistas Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite, para falar em seu nome.

Crise de identidade
Com muita propriedade, Fernando de Barros e Silva propôs a discussão de princípios. Princípios jornalísticos, por suposto. Novamente: "Bem-vindo ao Observatório da Imprensa". E anote: a profissão de jornalista não existe, foi sumariamente extinta, declarada nula pela lamentável ligeireza do sumo-magistrado Gilmar Mendes.

No relatório sobre o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, Gilmar Mendes escreveu que a profissão de jornalista é semelhante à de cozinheiro, e qualquer um pode cozinhar bem.

A Folha, seus parceiros e as corporações de mídia, vibraram com a apocalíptica ignorância em matéria de história do então presidente do Supremo Tribunal Federal.

Se a profissão não existe, para que perder tempo com seus princípios deontológicos e éticos?
Às favas com escrúpulos, viva a confusão entre jornalismo e publicidade!

Viva o jornalismo sem jornalistas – porque é disto que se trata. Esta é a fantasia de uma indústria que já foi instituição e hoje vive profundas crises de identidade toda vez que Steve Jobs inventa novo gadget.

Marília Gabriela veio para ficar – é a musa da miscelânea midiática, mídia medley. Liguem o celular.

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