Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Jornal do Brasil: o declínio de um gigante

Ilustração: João Rezende
Por Vivian Langer, no "Olhar Virtual"

Com 119 anos de história, a edição impressa do Jornal do Brasil (JB) deixará de circular no dia 1o de setembro, e seu conteúdo estará disponível apenas no formato digital. Segundo o comunicado publicado no periódico, no último dia 14, a medida faz parte de uma estratégia “sustentável e inovadora”, elaborada após pesquisas de mercado.

De acordo com Nilo Sérgio Gomes, jornalista, pesquisador e professor da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ,“o Jornal do Brasil vinha de uma crise financeira que provinha de má administração e de falhas na gestão operacional, que foram intensificadas com Nelson Tanure. A opção pela internet está longe de representar uma escolha estratégica. O final que levou o jornal é lamentável, mas esperado”.

O empresário Nelson Tanure, que se notabilizou por comprar empresas em dificuldades financeiras, arrendou a marca JB em 2001. Em 2002, comprou os direitos de publicação da revista Forbes, no Brasil. Um ano depois, a Forbes rompeu o contrato. Em 2003, arrendou a Gazeta Mercantil, um dos mais tradicionais jornais da economia brasileira, que, como o JB, vinha de uma crise financeira. O periódico deixou de circular no ano passado também por problemas financeiros. Em 2007, o empresário lançou a TVJB, que durou seis meses. Ainda arrendou a Editora Peixes, que também voltou para os antigos donos.

Ao assumir o Jornal do Brasil, em 2001, o empresário intensificou o processo de fragmentação do Grupo JB, não conseguindo manter um projeto editorial de êxito. A empresa foi se descapitalizando e saiu do histórico prédio na Avenida Brasil, 500 (futura sede do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), para uma sala na Avenida Rio Branco.

Na última quarta-feira (21/07), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) organizou uma manifestação em frente ao atual prédio do Jornal do Brasil, na Avenida Paulo de Frontin, no Rio Comprido, para tentar evitar o encerramento da versão impressa do jornal.

Nilo Sérgio Gomes começou no JB em 1972. Além do jornal impresso, onde chegou a ocupar o cargo de editor de Economia, teve passagens por outros veículos do grupo, como a Rádio JB, a Agência JB e o JB online. “Passar o jornal para a mão dos trabalhadores exige financiamento. O custo gráfico da produção industrial impressa e a logística para rodar e distribuir um jornal têm custos muito altos”.

Os reflexos no mercado jornalístico

Segundo Nilo Sérgio Gomes, “o JB já não oferece concorrência de leitura e deixou de ser uma ameaça há muitos anos para jornais como O Globo. Eles já não rivalizavam ideologicamente desde a década de 90. De qualquer maneira, os reflexos do fechamento quanto à concentração de opinião pública deixam O Globo como único jornal voltado para um determinado segmento, o que é grave”.

Além da defasagem salarial, a precariedade nas relações de trabalho no JB é preocupante. A contratação de um grande número de jornalistas como pessoas jurídicas (PJ) é, segundo ele, uma das irregularidades praticadas na empresa. “Enquanto pessoa jurídica, o jornalista é um prestador de serviços. Isso significa ausência completa de direitos trabalhistas, o que vai ser um problema para os profissionais que não serão aproveitados na versão online”, lamenta Nilo Gomes. O jornalista, que deixou o Jornal do Brasil em 2002, contou que o processo para que os empregados se transformassem em PJ já estava em andamento: “era uma alternativa de trabalho apesar das condições precárias”.

O docente acredita que a tendência do jornal é fechar, inclusive no formato digital. “Não vejo como o JB possa se manter, mesmo cobrando para ler as matérias. São inúmeros portais de notícias gratuitos com informações e reportagens com qualidade”, observa o professor, referindo-se à cobrança de R$ 9,90 mensais para o acesso às notícias online, segundo o comunicado publicado no dia 14/07.

O pesquisador lembrou ainda o caso do jornal O Dia, adquirido pelo grupo português Empresa Jornal Econômico (Ejesa). Segundo o jornalista, “a chance de o JB sobreviver hoje é um grupo empresarial e/ou político assumir o jornal. No momento, são os capitais internacionais que têm cacife para isso”.

Importância histórica

Desde sua fundação, em 9 de abril de 1891, o Jornal do Brasil teve importância no contexto do país. No governo de Floriano Peixoto (1891 - 1894), o jornal foi censurado. Na virada para o século XX, o JB já podia ser considerado um exemplo de empresa capitalista no ramo jornalístico, adotando as convenções do chamado “discurso jornalístico”.

De acordo com Nilo Sérgio Gomes, “os jornais que existiam até então, a chamada imprensa daquela época, era uma imprensa artesanal, com um discurso literato e uma forma de gestão extremamente individualista, não-empresarial”. A dupla transição da imprensa artesanal para uma empresa jornalística, e de um discurso literário para o que hoje é identificado como discurso jornalístico, foi objeto de pesquisa do mestrado do jornalista, que lançou recentemente o livro “Em busca da notícia - Memórias do Jornal do Brasil, 1901” (Editora Multifoco, 2010).

O pesquisador também comentou a importância do JB nas décadas de 1960, 1970 e 1980. “Nos anos 1960, houve um questionamento quanto ao jornal ser vendido à ditadura. Mas nos anos 1970, o JB se tornou trincheira da luta pela democratização do país e várias coberturas deixam isso evidente”, comenta. O jornalista lembrou a célebre edição de setembro de 1973, quando o periódico noticiou na capa, em página inteira, o golpe militar no Chile contra o governo do presidente Salvador Allende.

No dia seguinte ao AI-5, em 14/12/1968, o jornal também inovou com a utilização de metáforas aos tempos sombrios em que entrava o país. A previsão meteorológica na primeira página era uma alusão à crise política e um prenúncio dos anos seguintes; e do outro lado da página, uma homenagem ao “dia dos cegos”. “A qualidade dos profissionais que ali trabalhavam nos anos 60, 70 e 80 tornava o JB uma referência de bom jornalismo, que trazia questões da intelectualidade e lutava pela redemocratização”, observa Gomes.

Além disso, no início dos anos 60, o Jornal do Brasil concluiu sua reforma gráfica, iniciada na década anterior. “Foi uma verdadeira revolução que influenciou as mudanças gráficas nos grandes jornais brasileiros”, declara o jornalista. Até o fim dos anos 80, o matutino foi também um dos maiores vencedores do Prêmio Esso de Jornalismo, o mais tradicional concurso de reconhecimento ao trabalho dos profissionais de imprensa no Brasil.

O impresso

De acordo com Nilo Gomes, existem duas discussões que merecem destaque. “A situação do Jornal do Brasil é específica e exclusiva do Jornal do Brasil, decorrente de um problema de gestão que se arrasta há décadas. Primeiro, de gestão familiar: a família Nascimento Brito, que sucedeu a Condessa Maurina Pereira Carneiro,não soube manter a credibilidade do jornal. A família praticamente desorganizou e desestruturou administrativa e financeiramente o JB enquanto empresa e grupo empresarial. Depois Nelson Tanure assume o jornal”, relata.

O jornalista também comenta o futuro do jornalismo impresso diante das novas tecnologias. “Existe um hábito cultural, que, no Brasil, completou dois séculos em 2008, com a Gazeta do Rio de Janeiro. No mundo, a tradição do papel-jornal tem cerca de quatro séculos, quando rodaram o primeiro jornal na Alemanha, em 1609. Acredito que esse hábito vai perdurar ainda por bastante tempo, mas é possível que o impresso acabe. Tudo tem um fim, inclusive hábitos culturais, que se adaptam”, conclui.

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