Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 20 de junho de 2010

Quem disse que futebol, política e religião não se discutem?

Futebol e a dimensão política do esporte

Ilustração: Caio Monteiro
Por Rodrigo Batista, no "Olhar Virtual"


I Simpósio Internacional Esporte, Colonialismo e Pós-colonialismo nos países africanos de língua oficial debate relação entre futebol e lutas pela independência na África

Futebol é sinônimo de entretenimento. O esporte mais praticado no mundo — são 208 países filiados à Federação Internacional de Futebol — tem como ápice a realização da Copa do Mundo de quatro em quatro anos. A edição 2010 ocorre pela primeira vez no continente africano, mais precisamente na África do Sul. A relação entre futebol e a construção de identidades nacionais, a exemplo do que ocorre em outras partes do mundo, pode ser plenamente identificada nos países africanos de língua oficial portuguesa, tema central do I Simpósio Internacional Esporte, Colonialismo e Pós-colonialismo nos países africanos de língua oficial portuguesa realizado, no início deste mês. O evento, que aconteceu no Fórum de Ciência e Cultura (FCC) da UFRJ foi organizado graças a associação entre o Programa de Pós-graduação em História Comparada do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), a Escola de Educação Física e Desportos (EEFD) e o Ministério dos Esportes que procuraram expliciatar a dimensão política do esporte. Durante o século XX, o futebol foi usado em colônias africanas por países europeus como instrumento civilizacional. 

“O futebol foi considerado uma ferramenta civilizada, moderna, que podia, na visão européia, marcar as diferenças entre os ´bárbaros locais` e os ´civilizados europeus´, além de configurar-se como uma forma de disciplinar os africanos que deveriam ocupar alguns postos da administração colonial, afirmou Victor Melo, organizar do evento e coordenador do Laboratório de História do Esporte e do Lazer (Sport), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em História Comparada/IFCS/UFRJ.

Se por um lado o futebol era usado como ferramenta de controle; por outro, funcionava como mecanismo para a libertação colonial. De acordo com pesquisador, esse movimento contrário emergiu em diversos países africanos. “O futebol serviu como uma forma de aglomeração, de juntar pessoas. Elas debatiam os problemas da ocupação européia, o que desencadeou as lutas anti-coloniais. Boa parte das lutas anti-coloniais angolanas emergiram de clubes de futebol, como o Clube dos Negros, formado por aqueles que não podiam frequentar as agremiações dos brancos portugueses”, explicou. 

Outro exemplo foi a experiência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Em ambos surgiu, a partir de um clube de futebol, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), grupo político com fins revolucionários para libertar as duas nações. 

Futebol e identidade

Victor Melo destaca também o uso do futebol como elemento  importante no processo de construção dos países recém-libertos  tanto como mecanismo de projeção internacional como de construção de uma identidade própria. “O surpreendente é que depois de instauradas e encerradas as guerras coloniais, os países tinham a necessidade de constuir o estado-nação”, explica. Ainda de acordo com Melo, os primeiros heróis desses países, depois dos que participaram da luta revolucionaria, foram jogadores de futebol: “Talvez por esse motivo, alguns países recém-libertos se preocuparam em filiar-se primeiro à Fifa e só depois na ONU”, observou.

No Brasil,  o futebol também consolidou a identidade nacional, mas, como explica Victor Melo, diferentemente do contexto africano, o estado já estava em um processo de formação há pelomenos 100 anos. “O esporte foi um dos principais instrumentos usados na construção de uma identidade nacional. Não mais no desejo de ser europeu, mas no desejo de reafirmar a mestiçagem. Especialmente a partir da década de 1930, no Governo de Getúlio Vargas e no diálogo com as ideias de Gilberto Freyre, fomentou-se a noção de que o Brasil é um país mestiço e por isso temos formas específicas de fazer determinadas coisas como, por exemplo, um jeito próprio de jogar”, ressaltou.
 
A ambiência política acabou apreendendo esse objeto por seus interesses de difusão da imagem da nação e da configuração de um sentimento de nacionalidade e pertencimento ao país. “Isso é potencializado pelo fato de os esportes, em especial o futebol, serem o maior espaço mundial de performance pública de nação, que é quando as pessoas cantam o hino, a bandeira nacional vai pras ruas; independente se isso é patriotismo ou não, naquele momento específico, as pessoas criam mecanismos de identidade com os símbolos nacionais”, finalizou Victor Melo.

Religião e política: limites e desafios

Ilustração: Caio Monteiro
 Por Mario Castilho, no "Olhar Virtual"

 As próximas eleições de outubro, quando os brasileiros escolherão os representantes para ocupar os cargos de presidente, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, colocam em debate a participação de grupos religiosos na política. As origens, as esferas de poder onde se concentram as lideranças e a análise da atuação desses segmentos na política são objeto de estudo do Núcleo de Pesquisa Religião, Gênero, Ação Social e Política da Escola de Serviço Social (ESS-UFRJ). Para a professora Maria das Dores Campos Machado, coordenadora do núcleo, a participação de integrantes de diferentes religiões, incluindo católicos, evangélicos e grupos afro-brasileiros, dentre outros, são uma “expressão do alargamento da democracia”.

Segundo a pesquisadora, que publicou o livro Política e religião: a participação dos evangélicos nas eleições (FGV, 2006), o fenômeno de lideranças evangélicas ocupando cargos em diferentes instâncias do poder mostra uma “pluralização” do campo religioso na política. “Sempre tivemos uma participação quase naturalizada da Igreja Católica em várias instituições, incluindo a política. O surgimento dos evangélicos tem um componente de democratização, expressa a entrada de outros segmentos na política, que não estavam presentes”, avalia Maria das Dores.

A coordenadora do núcleo observa que a religião exerce historicamente um papel importante na cena política. Instituições como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) costumam ser consultadas pelo Estado na formulação de políticas públicas, como o combate a Aids. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) convocou diferentes representantes da sociedade civil para audiências tratando de questões controversas no campo ético, como o uso de células-tronco embrionárias e a prática do aborto nos casos de confirmação de anencefalia dos fetos.

Maria das Dores ressalta, contudo, a importância de a sociedade estabelecer certos limites ou constrangimentos para a participação de grupos religiosos na política. “A sociedade tem que ficar atenta quando a religião começa a desenvolver estratégias e passa a atuar em paralelo com a lógica partidária, levando a campanha para dentro das igrejas e dos templos. Isso proporciona uma diferença em relação aos outros segmentos. Os limites devem ser estabelecidos para que essa participação não se transforme em algo que ameace a democracia ou passa favorecer grupos em detrimento de outros”, salienta a professora da ESS-UFRJ.

Uma das conseqüências desse tipo de relação é a prática do clientelismo religioso ou troca de favores para conquista de votos nas eleições. A pesquisadora afirma, no entanto, que esse risco pode existir em qualquer modelo clientelista, não se restringindo, portanto, a grupos religiosos. “O uso político da religião parece algo extremamente novo e ameaçador, mas quando isso ocorre, os grupos acabam reproduzindo vícios da cultura política brasileira”, assinala Maria das Dores.

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