Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Entrevista com Urariano Mota

Reproduzo abaixo entrevista feita pelo blog "Literário" com o meu amigo e companheiro de luta política, o jornalista pernambucano Urariano Mota, colaborador do blog que edito/administro, o "Quem tem medo do Lula?", e que bate um bolão na literatura. Deliciem-se.
Ana Helena Tavares
















“Sou, acima de tudo, amante de Literatura, para mim arte e atividade suprema”

Nosso personagem de hoje que, com justiça, inaugura esta nova seção do Literário, é, ao lado do editor deste espaço, um dos dois remanescentes do grupo original dos pioneiros que participaram da criação deste empreendimento. É, sem dúvida, um dos preferidos dos nossos leitores. Dotado de um estilo atrativo, com uma cultura (sobretudo literária) ímpar, este escritor e jornalista é colaborador de diversos importantes sites da internet, como é o caso dos prestigiosos Observatório da Imprensa e Portal do Luís Nassif.
É membro da redação de La Insígnia, da Espanha, tendo, portanto, caráter internacional. Certamente o leitor já identificou de quem estamos falando. Trata-se, claro, de Urariano Mota, que em meados do ano passado lançou o livro “Soledad no Recife”, obra que não reluto em recomendar aos apreciadores de boa literatura.
Antes, já havia publicado o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, sátira ao ensino em colégios brasileiros, do qual brindou nossos leitores com alguns episódios. Querem saber um pouco mais sobre Urariano Mota? Pois acompanhem a entrevista abaixo que o mestre nos concedeu em fins do ano passado. ..

Literário – Trace um perfil resumido seu, destacando onde e quando nasceu, o que faz (além de literatura) e destaque as obras que já publicou (se já o fez, claro).

Urariano: Sou escritor, jornalista, suburbano. Natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife, desde 1950. Publiquei contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e demais periódicos de oposição à ditadura.
Tenho contos, crônicas e artigos publicados em lugares que vão da Europa ao Brasil. Sou colunista do Direto da Redação, www.diretodaredacao.com, e colaborador do Observatório da Imprensa. Em revistas brasileiras, tenho publicado na Carta Capital, na Fórum e na Continente.
Meu primeiro livro, Os Corações Futuristas, um romance de formação, recebeu críticas entusiasmadas na Alemanha, Itália e Brasil. Tanto nos Corações Futuristas quanto em Soledad no Recife a paisagem humana é a ditadura Médici.
Mas reconheço que falar sobre a ditadura não é minha especialidade. Apenas ali como aqui, antes como agora, escrevi e escrevo sobre o mundo da repressão que vi, percebi e testemunhei.

L - Você tem algum livro novo com perspectivas de publicação? Se a resposta for afirmativa, qual? Há alguma previsão para seu lançamento? Se a resposta for negativa, explique a razão de ainda não ter produzido um livro.

U - Tenho pelo menos três – um, reunião de crônicas, outro, uma experiência com literatura policial, um terceiro sobre o amor na adolescência e na velhice. Para esses, nenhuma perspectiva de publicação, por enquanto.

L – Há quanto tempo você é colunista do Literário? Está satisfeito com este espaço? O que você entende que deva melhorar? Por que?

U - Estou no Literário desde o seu nascimento. Estou e não estou satisfeito até aqui. Estou, por sua radical defesa do texto literário. Não estou, por sentir nele falta de um chute nos culhões (grafia não aceita pelos dicionários) de nossa realidade. Parece que estamos muito comportados, como bons meninos. Mas nisso a culpa é de todos, editor, colunistas, leitores. Como sair dessa, não sei.

L – Trace um breve perfil das suas preferências, como, por exemplo, qual o gênero musical que gosta, que livros já leu, quais ainda pretende ler (dos que se lembra), qual seu filme preferido, enfim, do que você gosta (e do que detesta, claro) em termos de artes.

U - Sou melômano. Mas, acima de tudo, amante da literatura, para mim arte e atividade suprema. Depois, “depois”, se me entendem, vêm a filosofia, o cinema, a pintura, e amar as pessoas acima de todas as coisas. Já fui católico a ponto de querer virar frade (frade, jamais padre, porque os padres teriam uma vida muito “mundana”). Nessa fase pensava que tinha amor a Deus acima de todas as coisas. Quando nele deixei de crer, percebi que Deus há muito eram algumas pessoas, que generalizava como sendo todo o mundo.
Tantos livros lidos, muitos mal lidos, que exigem uma releitura. O maior deles é o Dom Quixote, e seu escritor, Cervantes, o maior para mim que já houve. Gosto que me enrosco de Cervantes. É um gozo para o espírito permanente. Sou tarado pela literatura clássica. Mas é uma tara pra lá de compreensível. Os clássicos reúnem a experiência humana acumulada, falam de nós mesmos hoje, agora, neste exato instante, ainda que tenham falado para outros há muito tempo. Como desperdiçar tal tesouro?
Sou leitor de poesia, leitor de poesia, de poesia. A gente, que é glutão, tem que se alimentar muito de poesia.
Filme preferido: “Hiroshima, mon amour”. “E momentos de Vertigo” (Kim Novak foi meu primeiro êxtase e semente), e momentos (muitos, por maior prazo e tempo) de Buñuel, e, creiam, não é paradoxo: os números musicais das comédias da Atlântida. É uma experiência quase mística algumas canções nesses filmes. Quando aparece Ângela Maria cantando “Fósforo queimado” (cito de memória), não me procurem na sala, porque estou longe e ausente – lá em Água Fria em 1959.

L – Você gosta de teatro? Por quê?

U - Gosto, e já quis ser autor de teatro. Fracassei (perdoem a redundância). Quis ser ator de teatro (não fracassei, porque não tentei pra valer, esperto). Desculpem a blasfêmia, mas não troco um espetáculo de Molière pro Shakespeare.

L – Você já esteve no exterior? Onde? Se não esteve, para onde gostaria de viajar e por que?

U - O lugar mais exterior em que estive foi São Paulo. Fora do Brasil, se não houvesse o avião, gostaria muito de conhecer o México, Portugal e Espanha.

L – Você tem predileção por algum gênero literário? Qual? Por que?

U - Pergunta muito difícil. É uma escolha de Sofia. Na força, vamos, prosa. Mas uma prosa de quem conhece muito e se nutre de poesia. Literatura sem poesia é relato jornalístico.

L – Qual dos seus amigos vive mais longe? Onde?

U - Manter amizades é algo muito difícil. Talvez mais difícil que começar uma. Continuo a ter amigos que vêm da infância e da adolescência, mas com alguns abalos e diferenças. Por isso o que vive mais longe é o Gordo, o cidadão e homem do mundo Antonio Luís, que faleceu há algum tempo. Só de sacanagem.

L – Qual é, no seu entender, o pior sentimento do mundo? Por que? E qual é o melhor? Por que?

U - É páreo difícil escolher o pior entre deslealdade, inveja, egoísmo, vingança, mesquinhez, arrogância, insensibilidade, grosseria... Mas escolho egoísmo, bem mencionado por Monsueto na frase de um samba: “o teu egoísmo me libertou”. Se for olhar bem, um indivíduo egoísta é um mal para toda a humanidade. Todo o resto de maldade vem daí, dessa incapacidade de sair da própria pele e interesse.
O melhor sentimento também é difícil escolher entre simplicidade, generosidade, vontade, alegria, paixão, felicidade, olhos de criança, admiração por Lima Barreto e Kant. Mas vou no lugar-comum mesmo: amor. E lembro Cartola: “semente de amor sei que sou desde nascença”. Esse é um sentimento que vai além da cama, transcende carnes e sexo. O amor que um homem tem por seu trabalho, por exemplo, como Leite Loes cujo laboratório de física, para ele, era uma praia, o amor de Van Gogh por sua pintura, o amor de Cervantes, escravo na Argélia, ou preso na Espanha, pela literatura, que coisa mais alta pode haver? O amor das mães que passeiam com seus filhos grandes, crescidos, marmanjões, elas já velhíssimas, empurrando a cadeira de rodas pelo calçadão na praia, que mais belo há? O amor de um casal de velhinhos que vi no avião, que se apertavam as mãos na subida e pouso no aeroporto... a lista é grande e nos mata de vergonha pelo pequeno que somos ante tais pessoas.

L. - Se pudesse eleger um único escritor estrangeiro como o melhor de todos os tempos, quem você escolheria? E o brasileiro?

U - Estrangeiro, fácil, Cervantes. Brasileiro, difícil, por que só um? Lima Barreto e Machado de Assis.

L. O que você está produzindo atualmente?

U - Estou jiboiando. E quando parar de digerir, não posso falar, porque vem um azar grande.

L - Qual livro, ou quais livros, está lendo no momento?

U - Relendo “O Som e a Fúria”, lendo “El amor en los tiempos de cólera”.

L – Fale de alguma pessoa que você considere exemplar. Por que?

U - Lima Barreto. Eu não tenho qualquer ou nenhum distanciamento pra falar desse herói brasileiro. Dele guardo uma frase: “pela literatura queimei meus navios”. E, claro, Soledad Barrett Viedma, guerreira de quatro povos, como a chamou Mario Benedetti.

L. Em quais localidades do País você já esteve e gostaria de voltar? Por que?

U - Estive em João Pessoa. Eu passeio ali e ando e reencontro a cidade da minha infância. É um povo hospitaleiro e pernambucano como antigamente. Alimento o sonho de ter uma casa em João Pessoa, de modo e maneira que não fique muito longe de Olinda e do Recife.

L – Qual a sua maior decepção literária? E a maior alegria?

U - A maior decepção foi um texto humorístico que escrevi para a professora de Artes do Colégio Alfredo Freyre. O nome dela era Rosa, e cometi todo tipo de trocadilho para maior comicidade. Quando acabei a leitura, houve o maior silêncio da turma: a professora Rosa estava chorando.
A maior alegria: o livro “Soledad no Recife”.

L. O que você acha que deveria ser feito para estimular a leitura no País?

U - Reeducar os professores da rede pública de ensino. Alfabetizar os professores.

L - Você tem algum apelido? Qual? Fica irritado quando o chamam assim?

U - Muitos. O mais razoável é Urá, que alguns mudam pra Ura. Não fico irritado, mas me deixa muito chateado. Do perigoso Urariano me transformo em ursinho de madame, Urá.

L - Fale um pouco dos seus planos imediatos. E quais são os de longo prazo?

U - Dá azar. Os planos vão aparecer quando realizados.

L. Há alguma pergunta que não foi feita e que você gostaria que houvesse sido? Qual?

U - Por que você se chama Urariano? De onde retiraram tamanho absurdo?

L - Por favor, faça suas considerações finais, enviando sua mensagem pessoal aos participantes do Literário.

U - Uma das melhores coisas do Literário é a pessoa de Pedro Bondaczuk. E uma das piores é o puxassaquismo de certo colunista.
Mas falando sério, desejo aos amigos e companheiros um 2010 fecundo, de muito trabalho. O mais virá depois: amores, saúde, dinheiro, glória, banquetes e fama. E se não vierem, que coisa melhor há do que trabalhar naquilo que a gente ama?

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