Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Traço de mestre

Foto: Luciana Sarmento
Lula: sobre paz e imperialismo

Segundo o Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a Paz, o armamento das cinco potências é suficiente para destruir o mundo várias vezes. Uma ordem mundial estável pode ser construída sobre padrões destinados a perpetuar o poderio de poucos e a impotência de muitos?

Por Gilson Caroni Filho

As idéias de Lula sobre política externa, ao contrário do que tentam propagar notórios embaixadores e articulistas da grande imprensa, não apontam para a “partidarização petista" da cúpula do Itamaraty. Pelo contrário, partindo da complexidade do cenário internacional, o governo formula uma agenda que reafirma a soberania da diplomacia brasileira, sem contemporizar com hegemonismos de qualquer ordem.

É nesse contexto que devem ser entendidas as palavras do presidente em sua recente viagem à Alemanha. Salientando que é preciso " muita paciência com o Irã", Lula lembrou que, para pedir a um país que não desenvolva arma atômica, Estados Unidos e Rússia deveriam desativar as suas. Quem interpretar tal observação como petição bizantina, destinada apenas a agradar aos setores de esquerda de sua base de governo, estará gastando munição barata para analisar o que não consegue entender.

Se a questão fundamental da atualidade é a da guerra e da paz, devemos fazer algumas indagações sobre o discurso hegemônico que paira sobre ela. Pode haver garantia efetiva contra o uso ou ameaça de emprego de armas nucleares se as cinco potências que comandam o Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, França e Inglaterra) continuam presas à noção de que tais armas devem ser sua exclusiva e perpétua propriedade, em detrimento da segurança de outros países?

Como destacou o ex-embaixador Celso de Souza e Silva, em artigo escrito para o Jornal do Brasil, em outubro de 1983, "nenhuma declaração unilateral, especialmente quando colocada em termos gerais e imprecisos, pode contrabalançar a real ameaça à segurança dos países não possuidores de armas nucleares, representada pela existência desses artefatos nas mãos de um seleto clube mortífero."

Com efeito, é importante lembrar que o direito de autodeterminação, certamente, não é monopólio das potências nucleares existentes. Se elas não reconhecem limites ao direito de garantir a própria segurança, ao custo da posse de 26 mil ogivas nucleares, não podem esperar que outros países se abstenham durante muito tempo do exercício dessa mesma opção. Segundo o Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo (SIPRI), o armamento concentrado pelas cinco potências seria o suficiente para destruir o mundo várias vezes. Diante disso, indaga-se se uma estável ordem mundial pode ser construída sobre duplos padrões destinados a perpetuar o poderio de poucos e a impotência de muitos?

Em abril, o presidente Barack Obama, perante milhares de pessoas, em Praga, disse acreditar em "um mundo sem armas". Como as raízes do militarismo estão na natureza econômica e de classe do imperialismo, que jamais desistirá da força militar como instrumento de sua política, resta saber até onde vai a disposição do líder estadunidense. Como afrontará os invernos planejados pelo Pentágono? A intensiva preparação para novas guerras é parte constitutiva do processo de acumulação capitalista. Se pairar alguma dúvida sobre esse ponto, basta observar o quanto o orçamento norte-americano destina ao complexo industrial-militar. Sem contar, é obvio, a generosa concessão de fundos e verbas ao Ministério da Defesa.

O que propõe Obama em médio prazo? Uma reconversão da economia norte-americana? Talvez, em Berlim, Lula o tenha alertado para o perigo de platitudes que arrebatam platéias, mas não movem a história

P.S: sobre César Benjamim, não há muito que acrescentar. Endosso os textos de Washington Araújo, Gilberto Maringoni e José Arbex Jr. O ex-militante de esquerda, munido de ressentimento e dor narcísica, se mudou de mala e cuia para o que há de mais reacionário na direita. Quem leu seu último artigo (“Por que agora?” - Folha de S. Paulo, 2/12), pôde constatar que as críticas contra o governo praticamente reproduzem as do editorial do jornal paulista ("Lula, o filme"), publicado em 28 de setembro. Para melhor exercer o papel de lugar-tenente da família Frias, César matou Cesinha.

Colaboração enviada por Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Este artigo foi publicado originalmente no "Debate Aberto" do site da Carta Maior.

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