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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Traço de mestre

Foto: Agência EFE

Foto: Luciana Sarmento
Nos limites de Obama

Os recentes posicionamentos do governo norte-americano em Honduras, apoiando eleições que legitimam o golpe, demonstram a força dinâmica interna da direita estadunidense e sua capacidade para recuperar e restabelecer a agenda hegemônica imperial.

Por Gilson Caroni Filho

No início de 2009, quando Barack Obama assumiu a Casa Branca, vários analistas afirmavam que estávamos começando um novo período histórico, que marcava o fim do unilateralismo do governo anterior, dando ensejo à efetivação de um sistema global multipolar. Os argumentos eram muito convincentes. O mais poderoso Império de todos os tempos deixava para trás a doutrina Bush, abandonando a roupagem absolutista usada para negar os mais antigos direitos fundamentais do homem: os direitos civis e políticos consagrados pelo Direito Internacional.

Na América Latina, Bolívia, Venezuela, Equador, Chile, Brasil e Uruguai, entre outros, deixaram de ser portos seguros para os desígnios do capital estadunidense, graças ao avanço das forças progressistas na região. Redefinia-se um velho roteiro onde a direção do impulso político no continente parava de ser orientada no sentido de consolidação dos regimes que colaboravam com as grandes corporações, dando lugar a governos que privilegiam os interesses de seus povos, redefinindo prioridades na elaboração de suas políticas externas.

No primeiro discurso após as eleições, Obama resumia o significado simbólico de sua chegada à presidência: "se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta."

Os recentes posicionamentos do governo norte-americano em Honduras, apoiando eleições que legitimam o golpe, sob o pretexto de que "a maneira como a eleição será conduzida vai inevitavelmente afetar condições para superar divisões políticas do país", demonstram que juízos históricos sobre inflexões desejadas têm-se baseado em análises conjunturais que subestimam a força dinâmica interna da direita estadunidense e sua capacidade para recuperar e reestabelecer a agenda hegemônica imperial.

Há uma questão central que não pode ser relegada a segundo plano. Na ausência de qualquer forma de desafio organizado das classes trabalhadoras no interior dos Estados Unidos, a margem de manobra dos segmentos dominantes do imperialismo para recuperar-se de crises econômicas sem pagar nenhum dos custos políticos e sociais que todos os seus competidores têm que enfrentar é uma vantagem comparativa colossal.

Além disso, como nos lembra James Petras, o Império, devido ao seu alcance no exterior, continua numa posição que lhe permite aproveitar os principais benefícios de outros países, “através de seus contatos políticos-militares, mantendo assim, sua vantagem sobre a Europa e Ásia em escala crescente”. É preciso uma leitura muito apressada para falar em crise de hegemonia.

O recuo quanto ao prazo de fechamento da prisão militar na Baía de Guantánamo, a instalação de bases militares na Colômbia, a escalada bélica, com aumento de 10 a 15 mil soldados para ”terminar o trabalho" no Afeganistão, os discursos ambíguos sobre o Iraque, além da falta de propostas concretas para a Conferência do Clima, em Copenhague, não ferem apenas esperanças e ilusões. Soam como um sinal que não pode ser desconsiderado por quem deseja uma nova ordem internacional.

Não serão discursos protocolares, repletos de petições bem- intencionadas, que deterão o que os Estados Unidos julgam ser sua “missão civilizadora". Em uma América Latina que grita e se revolta, a vitória golpista em Honduras se apresenta como uma oportunidade histórica para a esquerda não sectária. Atualizando conceitos e categorias, é hora de elaborar um programa que se apresente como inconfundível estratégia contra-hegemônica.

Obama jamais desconsiderou a correlação de forças internas que limitam as possibilidades de uma reversão da política externa norte-americana. No mesmo discurso inaugural, o presidente foi bem enfático ao afirmar que “estamos preparados para liderar novamente". Interpretar essa afirmação como lapso ou arroubo de um líder inexperiente é perigoso demais para quem não quer que se confirme o velho axioma segundo o qual a América Latina roda e roda sem sair do lugar. É preciso muita atenção ao que dizem “os eleitos do mundo". Uma coisa é certa: o humor, por excessivo mau gosto, deve ser descartado de saída.

Colaboração enviada por Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Este artigo foi publicado originalmente no "Debate Aberto" do site da Carta Maior.

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