Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Traço de mestre




Foto: Luciana Sarmento

Rigoberta e Darcy Ribeiro: um encontro em Tegucigalpa

Como flashes suspensos que iluminam de forma intermitente a cena latina, as palavras de Darcy Ribeiro, 38 anos depois de escritas, o levam a Bolívar e José Marti, dando relevância explanatória à luta de Rigoberta Menchú e seus aliados.

Por Gilson Caroni Filho, hoje na "Carta Maior"

Quando esteve em Honduras, à frente de uma delegação composta por membros de organizações de direitos humanos da Guatemala, Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz, se somou à rejeição internacional ao golpe perpetrado contra Manuel Zelaya. Foi categórica ao declarar que "a paz não foi firme e duradoura porque não havia um consentimento de legitimar as instituições democráticas. Havia boa vontade e muitos dos dirigentes tinham a pressão dos tempos - sentiam novos tempos. Esse período serviu, lamentavelmente, para que os setores oligárquicos se reacomodassem e o resultado é o que vemos hoje".

Mais que uma constatação, suas palavras descrevem uma viagem no tempo. Zelaya, abrigado na embaixada brasileira, não era apenas a visão do retrocesso institucional, mas um transe que não obedece a estruturas lineares, ordenadas e lógicas. Para apreender a realidade centro-americana não bastam as categorias e conceitos da Ciência Política. Eles são de pouca serventia se não se inserem na tessitura cruel do realismo mágico. Naquilo que emoldura o golpismo eterno dos oligarcas.

Michelleti reavivou, na memória da líder indígena, o governo presidido pelo general Efraín Rios Montt, acusado de genocídio, crimes contra a humanidade, delitos de guerra e discriminação racial pelo Tribunal Permanente dos Povos, que reconheceu o direito à insurreição armada do povo guatemalteco nos anos 1980. Em poucos casos foi tão clara a violação permanente e sistemática de todos os direitos individuais. Da guerra civil que durou 35 anos, o governo de Montt foi o que mais se esmerou no terrorismo de Estado.

Zelaya reacendeu lembranças igualmente dolorosas. Em 31 de janeiro de 1980, trinta e sete indígenas ocuparam pacificamente a embaixada da Espanha para protestar contra os desmandos do exército. A polícia incendiou a sede diplomática com fósforo branco, queimando vivos todos os seus ocupantes. Entre as vítimas do massacre estava o catequista indígena Vicente Menchú, pai de Rigoberta. Dois anos depois seria ela, movida por sua militância católica, dirigente de uma organização política de esquerda, a líder de uma nova ocupação: a da embaixada brasileira. Dessa vez, os oposicionistas não puderam ser desalojados pela força, pois tinham tomado medidas de segurança e obtido avanços em seus métodos organizativos.

Com a redemocratização, concorreu à presidência da República em 2007. Tal como Evo Morales, um aymara que desafiou a institucionalidade da elite boliviana, a candidatura de Menchú representou os setores alijados da sociedade guatemalteca: os maias, que totalizam 40% da população, em uma política monopolizada pelos descendentes dos colonizadores, responsáveis históricos por uma sociedade fracionada. A derrota nas urnas não desautorizou o diagnóstico que atemoriza as oligarquias reacionárias: por toda a América Latina, surgem novos sujeitos de direito dispostos a interpelar o cenário político e as várias democracias pactuais existentes.

Para Rigoberta, forjada na luta pela Teologia da Libertação, pouco importa a extração social de Zelaya, Correa, Ortega ou Lugo. O que a norteia, como intelectual orgânica, é o chamamento aos movimentos sociais para se unirem na luta. Depois de quatrocentos anos de exploração, as diferenças no campo progressista são secundárias quando o fósforo branco ameaça a todos

A subversão do tempo cronológico, só possível nos labirintos de Macondo, promove o encontro da índia guatemalteca com o pensamento rico de um antropólogo brasileiro.

Em um livro escrito em 1971, O Dilema da América Latina, o vigor do pensamento de Darcy Ribeiro anunciava que “a oposição entre a América Rica e a América Pobre vai adquirindo, como se vê, uma nova dimensão, ao obrigá-las a viver dramaticamente seus papéis no âmbito de um processo civilizatório que ativa em todo o mundo tanto os povos subdesenvolvidos quanto as minorias oprimidas das nações prósperas (...)”. No bojo deste novo processo civilizatório, a América Latina volta a tempos bolivarianos.

Novamente são chamadas à cena as tensões estruturais antioligárquicas e anticoloniais que espocaram tantas vezes em guerras de emancipação e em sublevações milenaristas de escravos, de índios e de camponeses. Agora, porém, não para serem desencadeadas e logo coactadas por ação de seus próprios aliciadores (...) porque a tarefa das forças revolucionária foi afinal definida: é a da conquista do poder político por vanguardas socialistas capazes de reestruturar toda a ordem social ( pp 246/247).

Como flashes suspensos que iluminam de forma intermitente a cena latina, as palavras de Darcy Ribeiro, 38 anos depois de escritas, o levam a Bolívar e José Marti, dando relevância explanatória à luta de Rigoberta e seus aliados. O descortinar de um visionário é uma aula de dialética imperdível.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

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