Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O legado de Lévi-Strauss


Por Taysa Coelho, do "Olhar Virtual"

No último dia 31 de outubro, o mundo perdeu um de seus maiores e mais importantes pensadores contemporâneos, o antropólogo e filósofo Claude Lévi-Strauss. Às vésperas de completar 101 anos, o pensador belga, de ascendência francesa, deixa um legado fundamental para o estudo das sociedades contemporâneas.

Formado inicialmente em Filosofia, o pensador aceitou, em 1934, o convite para lecionar na recém-criada Universidade de São Paulo (USP) motivado pela proximidade de tribos indígenas. Durante a estadia, Lévi-Strauss realizou algumas expedições pela parte central do país e por outras áreas da América do Sul, onde analisou e estudou o comportamento dos chamados “primitivos” e descobriu sua paixão pela Antropologia.

Alguns anos mais tarde, radicado nos Estados Unidos, escreveu um livro-relato sobre as viagens realizadas abaixo da Linha do Equador, “Tristes Trópicos”, em que conta suas experiências com os índios, juntamente com o livre exercício de narração dos fatos que estavam guardados em sua memória.

Ainda na América do Norte, o antropólogo desenvolve uma tese que incorpora elementos da Linguística de Saussure – que passa a estudar a língua como um sistema em que todos os elementos estão interligados – e acaba por desenvolver um de seus trabalhos mais importantes: a antropologia estrutural. Utilizando-se de princípios das ciências, desenvolveu um pensamento objetivo capaz de desvendar elementos universais e atemporais do espírito humano.

Entretanto, o trabalho de Claude Lévi-Strauss não se resume apenas ao Estruturalismo, abrangendo uma linha de pesquisa bastante vasta e de suma importância para os estudos e pesquisas, não apenas da Antropologia, mas das Ciências Humanas.

Para conhecer melhor os feitos desse pensador, o Olhar Virtual conversou com o professor Gilberto Velho, titular do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ.

Olhar Virtual: Como o Estruturalismo de Lévi-Strauss afetou as demais ciências?

Gilberto Velho: O Estruturalismo é um método, uma visão de trabalho antropológico que tem repercussão em outras áreas, e a obra de Lévi-Strauss tem significado por si mesma. Antes de tudo, devemos ressaltar que ele é um autor que possui sua origem em Filosofia e se interessa por outras áreas. Quando vem ao Brasil, leciona e realiza um trabalho de campo - inicial e básico em sua vida - na área central do país, em que, evidentemente, estuda sobre índios e desenvolve seu gosto pela Antropologia.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o pensador ruma aos Estados Unidos. Por lá, entra em contato com a Antropologia anglo-saxã e com a Linguística, sendo muito influenciado pela obra de Roman Jakobson, linguista de origem russa fixado na América do Norte. Esta é uma interferência importante para o desenvolvimento de seu Estruturalismo.

Sua tese chama-se “Estruturas Elementares do Parentesco” - o livro básico sobre a discussão do que é o Estruturalismo -, que desenvolve através de pesquisas bibliográficas e de seu contato com as sociedades indígenas brasileiras. É um método de análise do parentesco em geral (há a discussão muito importante sobre aliança e descendência, as relações entre natureza e cultura e a questão-chave do incesto). Ele busca organizar certas estruturas universais do pensamento humano. Portanto, a partir desse ponto e das publicações que escreve, sua obra influencia muitas áreas de conhecimento, e não apenas a Antropologia - que estuda os grupos indígenas -, tendo implicações para todas as áreas das Ciências Humanas, além de estabelecer um diálogo com outras disciplinas, como a Matemática.

Olhar Virtual: Como a sociedade da época (meados do século XX) reagiu quando o antropólogo sugeriu que a mente dos chamados “primitivos” (por ele chamados de “não-letrados”) devia funcionar da mesma forma que a dos membros de sociedades tidas como mais evoluídas?

Gilberto Velho: A sociedade como um todo não ficou ciente desta tese, apenas um setor muito restrito tomou conhecimento. No mundo intelectual, foi recebida como uma contribuição importante. Entretanto, a originalidade de Lévi-Strauss não se encontra apenas aí. Ele está, na realidade, sendo um antropólogo que retoma toda uma linha de reflexão. A Antropologia, desde Franz Boas - antropólogo alemão radicado nos Estados Unidos –, tocava no ponto do relativismo cultural, da necessidade de compreender cada sociedade sob seus próprios instintos, que todas eram, em termos humanos, legítimas, básicas e importantes, negando qualquer ideia de inferioridade e superioridade raciais. Portanto, na realidade, Lévi-Strauss seguiu esse caminho, mas mudou de patamar: combateu o Evolucionismo ortodoxo linear, inclusive as teorias racistas - que foram muito combatidas pelo próprio Franz Boas e seus alunos -, com a ideia de que os seres humanos podem ser diferentes ao se organizarem socialmente, mas são formas de vida igualmente significativas. Ele estava muito preocupado em agir contra a homogeneização, contra a imposição de padrões.

Olhar Virtual: Após seu falecimento, diversas publicações apresentaram os trabalhos “A Teoria das Estruturas Elementares do Parentesco”, “Os Processos Mentais do Conhecimento Humano” e “A Estrutura dos Mitos” como seus principais. O senhor concorda com a escolha?

Gilberto Velho: A obra dele deve ser julgada como um todo. O livro “Tristes Trópicos” é importantíssimo, uma viagem filosófica; a tese “Estruturas Elementares do Parentesco” é fundamental; a publicação “Antropologia Estrutural” e sua continuação tiveram grande repercussão; “Pensamento Selvagem”, “Totemismo Hoje”, a série “Mitológicas” e diversos outros trabalhos são igualmente importantes. Enfim, é uma série, é impossível destacar seus trabalhos por ordem de importância.

Olhar Virtual: Há algum livro que o senhor considere como leitura fundamental para profissionais e estudantes de qualquer área?

Gilberto Velho: “Tristes Trópicos” é o mais acessível, apresentando uma dimensão literária muito grande. Lévi-Strauss escreve muito bem. Este é o livro básico e para os brasileiros é especial, por grande parte ter a ver com o nosso país.

Entretanto, vale ressaltar que “As Estruturas Elementares do Parentesco” é um livro-chave para poder entender a reflexão desse pensador.

Olhar Virtual: Claude Lévi-Strauss apresentava uma relação muito forte com a natureza. O senhor pode fazer um breve resumo sobre ela?

Gilberto Velho: Ele realizou uma distinção entre Natureza e Cultura para entender propriamente como a sociedade humana se desenvolve, se organiza, se reproduz. Porém, há outro lado da visão de mundo do pensador que se dá através da preocupação - que hoje nós chamamos de ecológica - com a destruição, com todos esses efeitos da sociedade industrial, globalizada e homogeneizante, que destrói a variedade da natureza e das culturas.

Ele possuía essa preocupação e a manifestava de diversas maneiras, citando eventos históricos de destruição de natureza, sociedades e culturas, fosse diretamente pelo conflito violento, fosse pelas doenças trazidas por ele. Ele comentava, por exemplo, a viagem do navegador espanhol Francisco Orellana, que possui relatos sobre verdadeiras cidades que teria visto e que eram considerados imaginosos, fantasiosos. Entretanto, a Arqueologia contemporânea, associada à Antropologia, descobriu que, de fato, existiam essas grandes aldeias com milhares de habitantes, com estradas, praças, e que foram destruídas devido à expansão europeia na América.

Olhar Virtual: Por fim, o que seria da Antropologia sem os trabalhos de Lévi-Strauss?

Gilberto Velho: Os estudos de Lévi-Strauss foram revolucionários, permitindo um salto muito importante que atinge não apenas o campo da Antropologia, mas das Ciências Humanas em geral. O impacto de seu projeto é principalmente sobre o sistema de estudos etnológicos, os estudos das sociedades tribais e indígenas. Porém, temos conhecimento de que a ciência não se constitui apenas com indivíduos isolados, e este não é o caso: faz parte de uma tradição, de uma linhagem, fazendo resumos, coletas, lendo obras de outras pessoas.

3 comentários:

Henrique Rodrigues Soares disse...

Ana, boa noite, peço licença para colocar parte da reportagem no meu blog de História.
Sds.

Henrique Rodrigues Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Helena Tavares disse...

Fique à vontade, Henrique! Essas informações têm mais é que ser difundidas!
Abs.

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