Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

20 anos depois, outros muros precisam ser derrubados

Para o Prof. José Paulo Neto, o socialismo ainda é uma alternativa viável ao capitalismo

Por Aline Durães, no "Olhar Virtual"

Cento e cinquenta e cinco quilômetros de tijolos, cimento e blocos de concreto. Assim era o muro que, por 28 anos, separou a cidade de Berlim entre a socialista República Democrática da Alemanha e a capitalista República Federal da Alemanha. O muro, construído em 1961, foi derrubado em novembro de 1989, devido à queda do regime soviético, promovendo, assim, a reunificação da Alemanha.

Para José Paulo Netto, um dos mais influentes marxistas brasileiros e professor da Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ, a derrubada do muro assinalou o fim de um ciclo histórico. O intelectual, que esteve reunido com outros pesquisadores, no último dia 12, para discutir os 20 anos da derrubada do muro de Berlim, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs), enfatizou, entretanto, que o ato não simbolizou o fim do socialismo. Na opinião do docente, a teoria marxista continua viva e o mundo ainda pode experimentar um modelo de produção mais justo e igualitário que fuja à lógica do lucro. Confira adiante as opiniões do professor na íntegra.

Por José Paulo Netto
Professor da Escola de Serviço Social

“Eu assisti ao erguimento do muro em 1961 e acompanhei a saga até 1989, quando ele foi derrubado. O muro caiu sobre mim. Ele era o emblema de uma ordem social que precisava desse horroroso sinal para se reerguer.


Não basta justificar o muro, mas devemos entendê-lo. Ele é o resultado de um processo. Em 1945, com o fim da Segunda Guerra, os exércitos soviéticos avançaram rumo à Alemanha vindos do Leste. O país ficou ocupado por quatro exércitos distintos (União Soviética, Estados Unidos, Inglaterra e França). Em 1949, os soviéticos tomam uma decisão que quase gera uma terceira guerra mundial: fecham a região sob o seu controle aos demais ocupantes. No mesmo ano, é criada a República Federal da Alemanha e começa a se articular a República Democrática da Alemanha.

A hostilidade entre o setor oriental e os demais setores era evidente. Existia o projeto de tornar Berlim Ocidental a vitrine do capitalismo. Em Berlim Oriental, porção que sofreu mais com a guerra, explode a rebeldia operária, sempre normalizada com extrema violência.

Na entrada dos anos 60, a economia da República Democrática da Alemanha se reerguia, mas na área oriental do país o que se verificava era um barril de pólvora prestes a explodir. A maneira que o governo do Leste encontrou para deter isso foi através da concessão de subsídios de alimentação e de bens de consumo não-duráveis aos cidadãos. Acontece que os habitantes da porção Oeste do país iam para a Berlim Leste fazer compras, se alimentar. A solução encontrada para resolver esse trânsito indesejado foi a construção do muro. Ele não foi um simples ato de arbítrio ditatorial.

A queda assinala o esgotamento de um ciclo histórico chamado socialismo. Em 1917, ano da Revolução Russa, abriu-se a possibilidade de transição da ordem do capital para a ordem do trabalho. Sabemos que Marx acreditava que a revolução proletária se daria com um proletariado com significativa liberdade partidária, de imprensa e sindical. A Revolução Russa foi um momento inicial de um processo mundial que só se manteria se avançasse no Ocidente. A partir de 1923, isso se mostra menos factível, porque, no Oriente, a Revolução passa a não avançar e, no Ocidente, ela aborta.

Para que a transição ocorresse, deveria haver a socialização da economia e do poder político, que se dá através de instâncias em que se manifeste a opinião de todos. E não existiu. Desta forma, podemos dizer que a crise do socialismo não foi resultado de pressões externas. Foi, na verdade, uma implosão que aconteceu porque o modelo foi incapaz de promover novos valores sociais cooperativos, foi incapaz de generalizar tolerância política e liberdades civis.

As experiências do socialismo real devem ser estudadas a fundo, para que possamos compreender por que, como e em que condições se realizaram. Elas nos deixam três lições principais: 1ª) Foram positivas para a humanidade. As conquistas sociais do pós-guerra ocorreram também por causa do pavor que o comunismo provocava nos governos capitalistas. 2ª) Não podemos tratar a política sob o viés do fanatismo e da religiosidade. 3ª) A crise do socialismo não tem nada a ver com uma crise da Teoria Marxista. O mundo de 2009 confirma a teoria de Marx, pois prova que o capitalismo é composto de crises, que ele é um sistema produtor de riqueza exponencial, mas reprodutor de pauperismo, e que ele consiste em concentração e centralização de poder político e econômico — prova disso é que nunca 6 bilhões de habitantes foram controlados por tão poucas mãos.

A derrota do muro é provisória. O fim do muro não foi o fim do mundo e muito menos o fim do socialismo. A única alternativa teórica ainda é o arsenal crítico da teoria do pensamento marxista.

Eu gostaria de estar aqui discutindo a queda do muro invisível do conjunto de barreiras formais para trabalhadores ingressarem na Europa, o fim do muro que separa a Zona Sul do Rio de Janeiro dos morros da cidade. A queda do muro de Berlim foi visível, mas há outros muros a serem derrubados.”

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