Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

“É blitz, papai?”, perguntou o menino

Por Paulo Cezar Guimarães

Essas blitzen contra tudo que as autoridades fazem constantemente pelas ruas do Rio me lembram uma história contada por um amigo atento. Disse-me ele que, outro dia, estava no meio de um engarrafamento próximo ao Maracanã, no Rio, quando João Gabriel, seu filho de 7 anos, perguntou:

– É blitz, papai?

Meu amigo ficou sem entender direito e perguntou:

– Como você sabe, meu filho?

– Sempre tem. Você não sabia? Mamãe não gosta de passar por aqui, pois diz que perde muito tempo.

E meu amigo passou a perceber o que todo cidadão vê nas grandes cidades: as chamadas blitzen, com local e hora marcada. As “oficiais” e as “não oficiais”. Algumas até anunciam no rádio. Geralmente só “pegam” motoristas de carros velhos, kombis e vans, e motoqueiros entregadores de pizzas.

Eu também já tive a minha vez. Fui pego numa dessas “blitzes”. Uma daquelas da Lagoa, na Zona Sul. Em um dia de semana, por volta de 14h30, eu passava com a minha filha na garupa da moto quando vi os policiais de longe. Quem não vê? Mas, como achei que nada devia, resolvi continuar. Um soldado mandou eu parar. Claro que não gostei.

Estava acostumado a passar nessas blitzen, como a que fazem quase todas as tardes na estrada Grajaú-Jacarepaguá, na Zona Norte, e nunca tinha sido parado. Pedi a minha filha para descer da garupa, e quando ela se preparava para colocar os pés no chão, o soldado tentou “apalpar” a minha cintura. Claro que reagi. Elevei a voz:

– Você não vai fazer isso comigo no meio da rua!.

Um outro PM, mais gentil, quis saber o que estava acontecendo. Eu disse que não iria permitir que colocassem as mãos em mim. Perguntei:

– Se passa uma pessoa conhecida e me vê naquela situação? O que vai pensar de mim?

O outro PM pediu meus documentos. Vi que um outro motociclista, na minha faixa de idade, mais ou menos 40 e poucos anos, também estava “detido” naquela “operação”. Fui saber depois que ele não tinha feito a vistoria da moto. Ruim para ele? Pior para mim: os policiais descobriram que minha carteira de habilitação estava vencida havia 38 dias. Tinha passado oito dias do prazo para eu solicitar uma nova. Eu não sabia. Não costumo conferir o prazo da minha carteira de habilitação. O cabo, que comandava a blitz, me disse:

– Já que o senhor cobrou de nós, nós vamos cobrar também. O documento está retido. Como a moto está em dia, só pode sair daqui conduzida por uma pessoa habilitada.

Fazer o quê? O cabo estava certo. Eu havia cometido o chamado “pequeno delito”. E “pequeno delito” não se pode cometer no Brasil; só os grandes.

Confesso que dancei.

Um parente, habilitado para dirigir moto, só chegaria em casa, também na Zona Norte, distante uns 20 km, aproximadamente, por volta de 17h30. Eram ainda 15h45. Os policiais militares mandaram que dois soldados ficassem “tomando conta” de mim, enquanto eles iriam escoltar o outro motociclista que não fez a vistoria, da Lagoa até um depósito no Centro. Um comboio seguiu com o cidadão. Ficamos eu e dois soldados.

Quase uma hora depois, um motociclista, esbaforido, parou junto ao carro da patrulha que me “vigiava”, e disse que um motorista num carro preto tinha puxado um revólver para ele. Os policiais ficaram, a princípio, sem saber o que fazer: deixavam-me a sós com minha moto ou tentavam prender o cidadão armado? Peguei a chave da moto e ofereci ao soldado, dizendo que, sem a chave, não teria como “fugir do local do crime”.

O motoqueiro esbaforido desconfiou que o carro preto e suspeito tinha passado por nós e estava estacionado adiante, a poucos metros de onde estávamos. O soldado da minha escolta particular resolveu confiar em mim. Mais ou menos. Pois andou com a patrulha até onde estava o carro suspeito, mas ficou me controlando através do espelho retrovisor.

Eram quase 17h30 quando o comboio voltou. Armaram novamente a blitz. O soldado que no início tinha sido mais simpático comigo, estranhou o fato de eu ainda estar ali. O cabo que comandava a blitz também. Passei a acompanhar a operação. A princípio de longe; depois de perto. Observei motociclistas fazerem caras feias ao serem revistados; outros já chegavam levantando as mãos. “Seguraram” alguns motociclistas com algum problema na documentação. Pensei:

– Será que eles vão fazer o mesmo que fizeram com aquele motociclista e escoltar essa gente toda até o Centro?

De longe, eu e os policiais vimos um rapaz em uma moto velha dar uma meia volta, estacionar o, digamos, “veículo” na calçada e “consertar” algum defeito. Não deve ter conseguido, pois saiu empurrando a moto pela calçada na direção contrária à blitz. Eu ri; o PM também. Um casal também parou a poucos metros. A moça na garupa estava sem capacete.

Foi então que um dos PMs pediu para que eu me retirasse das proximidades da blitz, pois eu estava “correndo perigo”.

Durante o tempo que ali fiquei, não vi eles pegarem bandido nenhum. Mas confesso que achei o pessoal legal. Assim que pegar minha nova carteira, vou ver se passo pela Lagoa para bater um papo com eles. Aliás, acho que vou passar a frequentar blitzen. Conheço quase todos os lugares e horários onde fazem blitz no Rio de Janeiro e me diverti muito.

Paulo Cezar Guimarães é jornalista e professor da FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso) no Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente hoje, 24 de Setembro de 2009, no "Jornal do Brasil".

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