Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Traço de mestre

Foto: Luciana Sarmento

Prática fascista mostra nosso retrato

Gilson Caroni Filho


Quando, no início do ano, o ministro da Educação, Fernando Haddad, alertando para o recrudescimento de trotes violentos nas universidades, enfatizou que “era preciso instalar inquéritos policiais para coibir tais práticas”, houve quem visse exagero na avaliação.

Afinal, apesar dos inúmeros casos que terminaram em tragédia, há no senso comum da classe média a benevolência com o que julgam uma forma divertida de integração.

Fatos deploráveis, como os que ocorreram na Universidade Federal Fluminense (UFF) na semana passada, obrigam a sociedade a discutir os rumos que ela toma, o papel de cada um nesse processo e como se reproduzem os valores vigentes que fazem de um rito de passagem uma prática fascista. Quando alunos veteranos se sentem autorizados a exigir das “calouras bonitas” a prática de sexo oral em troca da dispensa de arrecadação de dinheiro não es estamos diante, apenas, de um excesso a ser punido exemplarmente. Mas de nosso retrato sem retoques.

A violência surge como negação do direito do outro, como expressão clara de que noções elementares de cidadania não foram assimiladas por um grupo de jovens que, ironicamente, escolheu o campo jurídico como opção acadêmica. Um setor que, em tese, deveria promover o resgate e o aprofundamento da consciência cidadã. Anomia ou reiteração de um padrão autoritário que não conhece limite? A humilhação de gênero evidencia uma percepção de poder oriunda de uma cultura sexista. Essa foi a “aula magna dada às futuras bacharelas”. A liberação dos costumes na sociedade brasileira está longe de impedir que as mulheres, independente da classe social a que pertençam, deixem de ser alvo preferencial da violência nas suas mais diversas faces: moral, física, psicológica, sexual ou simbólica. É como se a elas fosse dito que a onipotência do agressor é a demarcação do lugar que lhes é reservado na universidade.

Sua condição no mundo acadêmico deve, como em outros círculos sociais, ser marcada pela subordinação aos caprichos dos machos.

Aqueles que mandam na divisão sexual do trabalho e na vida cotidiana.

Se, de fato, advogados, juízes e promotores desempenham um papel fundamental em sociedades que buscam assegurar os direitos pessoais dos indivíduos; destes em relação à coletividade em que vivem, sem falar nas liberdades e direitos públicos, a tarefa da comissão de sindicância aberta pela direção da faculdade vai bem além de investigar os fatos e punir os responsáveis.

Analisando o ocorrido, deve atentar para a existência de direitos que devem ser não apenas fundamentados de forma expositiva em sala de aula, mas protegidos politicamente da crise de valores de uma parcela da classe média que faz da impunidade seu metro desejável.

Um estrato que tem como traço ideológico mais funesto a incapacidade de distinguir o público do privado. Defensora intransigente da propriedade, menospreza a cidadania, burla e ignora a lei, apoiando toda aquele que lhe acenar com a promessa de privilégios e o abandono da coisa pública. Foi nesse desvão, onde prevalece o conservadorismo colorido de modernidade, que começou o planejamento do trote.

Há cerca de 30 anos, a filósofa Marilena Chauí interrogava-se sobre o sentido político-filosófico da democracia, entendida como criação, reconhecimento e consolidação de direitos, exposição dos conflitos aos poderes constituídos e instituição capaz de questionar-se a si mesma, abrindo-se para a história.

Os veteranos da UFF mostraram que essa investigação deve ser intensificada.

Seria de bom tom alertar que “brincadeirinhas” que injuriam pessoas, ofendendo a dignidade ou decoro se constituem em crimes previstos no artigo 140 do Código Penal. Mesmo que rendam excelentes vídeos no YouTube ou qualquer coisa assemelhada.


Gilson Caroni Filho
é sociólogo, professor titular da FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso), no Rio de Janeiro.


Artigo publicado orginalmente hoje, 25 de Agosto de 2009, no "Jornal do Brasil".

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