Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

"Quem é que vai pagar por isso?"

Deus lhe pague!

Por Paulo Cezar Guimarães

Quem é que vai pagar por isso? (Lobão) No livro O culto do amador, o especialista em mídia Andrew Keen, que colabora em publicações como Independent, Wall Street Journal, Guardian e Forbes, lembra uma charge publicada na revista The New Yorker, em 1993, em que dois cachorros estão ao lado de um computador.

Um está com a pata no teclado; o outro olha para ele, intrigado.

“Na internet”, diz o cachorro que usa o teclado, tranquilizando seu amigo canino, “ninguém sabe que você é um cachorro”.

Poucos anos depois, o dono de uma das maiores agências de assessoria de imprensa do Rio de Janeiro desabafou com alguns amigos contra um cliente que acabara de encerrar um contrato após anos de parceria.

“O cara me disse: ´Nós vamos parar de trabalhar com a sua agência, mas a minha empresa vai continuar precisando sair na imprensa. Você pode me passar os telefones dos jornalistas com quem você tem contato?´”.

Que se danem os anos de experiência, que se dane a credibilidade, que se dane o respeito pelo trabalho. Hoje, a cultura do “grátis”, também conhecida popularmente como “0800”, instalou-se não apenas na internet como também nos meios profissionais.

Essa prática não acontece apenas na mídia mas é esta a área na qual todo mundo acha que sabe e que trabalha como se fosse um profissional qualificado.

Nos dias de hoje todo mundo escreve, todo mundo fotografa, todo mundo é “webdesigner”. Há alguns dias um blogueiro perguntou a um experiente colunista de esportes como ele fazia para escrever em um jornal. Tesoureiro de uma multinacional, também queria escrever, “colaborar como colunista”.

O livro Free: grátis, o futuro dos preços, de Chris Anderson, editor da revista Wired, que está saindo esta semana no Brasil, promete botar ainda mais lenha nessa “fogueira das vaidades”.

Anderson é autor de outra publicação polêmica, A cauda longa, em que também trata da transformação da mídia e das relações comerciais com o advento da internet. O escritor costuma dizer que “sempre pode haver quem ofereça de graça algo pelo qual alguém costumava pagar”. Anderson, porém, cobra caro pelas palestras que realiza, e seus livros, no Brasil, custam na faixa de R$ 50 e R$ 60.

As pessoas e as empresas lucram com software grátis, música grátis, notícias grátis, celulares grátis, passagens aéreas grátis e até educação grátis. Google, Wikipédia, sites e blogs também prestam serviços sem ganhar dinheiro em troca.

Os críticos de Chris Anderson costumam dizer “que não existe almoço grátis”. Nem couvert, nem sobremesa. Mesmo em restaurantes populares de prato feito a “1 real” nas esquinas das grandes cidades.

Há alguns anos, um repórter jorpolítico quase bateu num deputado estadual que achou que o preço de uma reportagem era um almoço grátis.

“Encontrei o sujeito por acaso, numa lanchonete. Conversamos, paguei a conta e, na hora em que eu estava indo embora, surgiu um assunto que achei que poderia virar pauta para o meu jornal. O deputado abriu um sorriso e teve a cara de pau de perguntar se eu queria que ele reembolsasse o almoço que eu tinha acabado de pagar em troca da publicação da matéria”.

A cultura do grátis também cobra um preço alto para quem já passou dos 40 ou 50 anos e ainda tem energia, muita história e capacidade para contar.

Outro dia, um experiente jorpolítico nalista foi chamado para conversar com o dono de uma grande agência de comunicação.

Pensou que seria uma oferta de emprego ou, pelo menos, de um trabalho de fre elance. Fez a barba, botou o seu melhor terno e armou o seu melhor sorriso. Foi recebido em alto estilo na sala de reuniões pelo próprio dono da empresa e por dois dos seus principais executivos, e ouviu muitos elogios pela sua capacidade e experiência. A proposta? Um “0800” para escrever no site da agência que “lhe daria grande visibilidade”.

“O grátis tem um preço alto”, como costuma dizer Andrew Keen, autor do livro O culto ao amador, que também garante que “chegou a hora do amador, e agora é a plateia quem está dirigindo o espetáculo”.

“Quem é que vai pagar por isso?”.

“Deus lhe pague!”.


Paulo Cezar Guimarães é jornalista e professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), no Rio de Janeiro.


Artigo publicado originalmente hoje, 13 de Agosto de 2009, no Jornal do Brasil.

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