Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A imortalização de heróis e o Brasil

Hércules pós-modernos

Por Rachel Dimetre*

O poema épico de Pêisandro de Rodes, com data estimada de 600 a.C., teria sido o fundador do mito de Hércules. O herói grego recebeu a incumbência de realizar 12 trabalhos para o rei Eristeu, em penitência pela morte de sua esposa e seus três filhos, após um surto de loucura. Para receber o perdão dos deuses, Hércules enfrentou monstros terríveis, como o Leão de Neméia, a Hidra de Lerna, o gigante Gerion e o dragão de cem cabeças do Jardim das Hespérides. Assim, foi perpetuado o mito do Herói, indivíduo capaz de feitos extraordinários, dignos dos deuses.

Na atualidade, a imprensa constantemente reproduz o mito do herói em personagens do mundo esportivo. Exemplos como Pelé, Zico, Ayrton Senna, Guga e Ronaldo são alguns dentro da realidade brasileira. Depois de um período de vácuo no posto de “herói nacional”, eis que a revista semanal Veja, da Editora Abril, publica na capa da edição da primeira semana de agosto o título “Enfim, um herói”. Tratava-se do nadador César Cielo, campeão olímpico em 2008 e vencedor de duas medalhas de ouro no mundial da modalidade, realizado recentemente em Roma.

“Sempre que existe algo da ordem do orgulho nacional – principalmente em um país como o nosso, que o tem em poucas ocasiões –, aqueles que de alguma maneira fazem algo de grande para o país acabam sendo exemplo”, analisa Paulo Vaz, professor da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO). Segundo o docente, o país apresenta um imenso complexo de inferioridade, o que contribui para dar importância ainda maior para as vitórias. “As conquistas da seleção, a valorização do futebol, tudo isso é uma maneira de valorizar o orgulho nacional. Se eles conseguiram, nós também podemos conseguir”, explica.

Esporte e orgulho nacional
A relação esporte–nação é antiga. Segundo o docente, não é por acaso que a maior parte das modalidades de esportes coletivos, como as conhecemos hoje, surgiu durante o imperialismo, no século XIX. Isso também vale para recordes individuais. Mesmo quando aparentemente é só uma pessoa lutando por uma medalha, ela ainda assim está vinculada a uma nação.

É interessante observar que a ideia do esportista como herói nacional é também uma característica muito forte da nossa sociedade. Cada vez menos os modelos são artistas ou intelectuais. “O atleta é um exemplo de heroísmo muito arcaico. Ele faz sacrifícios, tem total domínio do corpo e da mente; e busca pela força da vontade e do pensamento alcançar alguma coisa. Ganha de imediato uma colocação moral”, destaca o professor.

No entanto, Vaz lembra que casos de dopping e flagrantes de atletas em situações ditas imorais são algumas faltas graves, que decepcionam todos os fãs. Casos recentes como o do nadador estadunidense Micheal Phelps, fotografado fumando um cigarro de maconha, e do futebolista brasileiro Ronaldo, envolvido em um escândalo policial com travestis, são exemplos disso. “Da mesma forma que são fabricados, eles podem ser transformados em monstros. Espera-se dos grandes vencedores que eles sejam um exemplo de ética e conduta. Por isso os escândalos quando algum atleta trapaceia. É como se ele não estivesse agindo como deveria”, conclui.


*Do "Olhar Virtual", uma publicação da Coordenadoria de Comunicação da UFRJ.

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