Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 23 de agosto de 2009

Manifestação de vida não é desordem

Foto: Jornal Zero Hora
Por Amir Haddad

RIO - O teatro é uma arte pública; não nasceu necessariamente na rua, mas é uma arte de espaços abertos. Levar o teatro para as ruas significa devolvê-lo ao seu lugar de origem, recuperando sua natureza de atividade pública que se realiza nos espaços abertos das cidades. Centro e periferia. Recupera o conceito mesmo de espaços públicos para o encontro da população. Assim a idéia de espaço publico fica muito maior do que a idéia de rua, conforme a concebemos hoje nas cidades modernas.

Quando vamos às ruas para fazer algum trabalho, por menor que ele seja, sabemos muito bem que estamos retrocedendo na história para avançarmos em direção a um novo tempo e a uma maneira muito nova, embora evidentemente muito antiga, de ocupação dos espaços públicos urbanos e de diálogo com seus cidadãos, sem nenhuma espécie de discriminação, a começar pelo custo do ingresso, absolutamente inexistente dada a natureza pública do evento. Pensamos uma outra cidade e portanto um outro futuro. Mas encontramos grandes dificuldades para implantação destas pequenas utopias. As políticas publicas oficiais são extremamente privatizantes e excludentes, e as praças e ruas cada vez mais perdem suas características de lugares públicos para o convívio urbano indiscriminado e se transformam em espaços fechados onde o cidadão não encontra abrigo.

Desde sempre, as manifestações de vida têm sido confundidas com desordem. O que mobiliza imediatamente uma reação contrária, a favor da ordem. Nesta “reação” as cidades e suas ruas vão sendo limpas e saneadas e neste “arrastão” da ordem vai de entulhada tudo o que as ruas ou as cidades poderiam estar produzindo de novo ou surpreendente.

Sonho com uma cidade luminosa, onde a criatividade humana possa se manifestar livremente sem estar submetida aos controles ideológicos, artísticos, morais e administrativos a que hoje estas manifestações estão sujeitas. Santa Catarina tirou os malabaristas dos sinais luminosos; o Ademir Leão, que toca sax nas ruas do Rio, foi proibido de tocar, voltou por exigência popular. Por força de meu ofício, foi grande meu contato com o “povo de rua”, de toda espécie. Como diria Galileu Galilei, não foi pouco o que eu aprendi com essa gente. Porém, pelo andar da carruagem, não será esta a cidade que iremos desenvolver, e sim outra “perfeitamente” asseada e saneada, onde qualquer homem branco dominante possa andar sem perigo de ser ameaçado. Conseguiremos essa “perfeição” étnica, política, racial, como queria Hitler?

Se tivéssemos tantos artistas nas ruas como temos desempregados, marginais e polícia, nossa cidade seria melhor. Ou será que achamos que vivemos no melhor dos mundos e que basta limpá-lo para mantê-lo em “ordem”?


Amir Haddad é diretor teatral.


Texto publicado originalmente hoje, 23 de Agosto de 2009, no Jornal do Brasil.

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