Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sábado, 25 de julho de 2009

A UNE e a memória

Foto: Marcello Casal Jr. / Agência Brasil
Augusto Chagas, presidente eleito da UNE: militante do PCdoB na mira da imprensa

"Ninguém me contou... Eu vi"...

Por Vitor Hugo Soares,
De Salvador (BA)


Peço licença a Sebastião Nery para começar estas linhas sobre a União Nacional dos Estudantes - e toda polêmica levantada em relação ao recente 51º congresso da entidade, em Brasília - com as mesmas palavras do jornalista baiano na apresentação do livro "Rompendo o Cerco", a coletânea de discursos mais importantes e frases políticas marcantes do deputado Ulysses Guimarães, de saudosa memória. Mais ainda, nesses tempos de vergonha (ou falta de) no parlamento do país.

Peço desculpas também por não ir direto ao ponto, como recomendam os manuais de jornalismo. Ora bolas! Isso também parece perdeu o sentido, depois da célebre sessão do Supremo Tribunal Federal na qual foi jogado na lata do lixo o diploma profissional de nível superior, comparado a uma habilitação de cozinheiro pelo presidente do Supremo. Mendes, por sinal, nesses dias de nuvens pesadas sobre o céu de Brasília, andava pela Rússia, que, como se sabe, é modelo mundial de liberdade política, jurídica e de imprensa.

Assim, lembro antes a imagem comovida de Nery no cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, debruçado sobre o caixão do ex-deputado Mario Lima, pioneiro do sindicalismo brasileiro na área do petróleo (fundador do SINDIPETRO). Parceiro também do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, na prisão militar da ilha de Fernando de Noronha em 64 -; resistente e competente aliado a quem Ulysses confiaria, anos mais tarde, comissões cruciais na feitura da Constituição de 88, na parte que trata do trabalho e do trabalhador. Até o presidente Lula mandou mensagem à família do morto: "Mário Lima destacou-se pela combatividade durante toda a vida, tanto na trincheira do sindicalismo quanto na do Parlamento", realçou o presidente.

Os grandes jornais, no entanto, a exemplo do que já acontecera dois anos antes, na morte do ex-deputado e ex-prefeito cassado de Feira de Santana Chico Pinto - símbolo do parlamento de seu tempo - passou ao largo ou virou as costas, descartando até mesmo, em alguns casos, o simples registro factual em suas colunas de Falecimento. "Que país é esse?", poderia perguntar algum leitor mais curioso e interessado em motivos. A resposta, além da falta de memória congênita, pode ser encontrada também na letra contundente da famosa música da banda Legião Urbana: "Nas favelas, no Senado/ Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a Constituição/ Mas todos acreditam no futuro da Nação/ Que país é esse?/ Que país é esse? ...E chegamos à UNE, finalmente.

Do mais recente congresso da entidade o que sei é de leitura ou de ouvir dizer. E não são coisas agradáveis nem edificantes: tanto do lado dos defensores quanto dos críticos da UNE e de suas atuais lideranças. Com ideologias e emoção em demasia, fatos e argumentações sólidas de menos, o resultado é um registro factual nebuloso e análises meio mancas, que o tempo, senhor da razão, haverá de filtrar, até deixar escorrer a água límpida e verdadeira dos fatos e seus signos.

Quero falar mesmo é de quando tudo isso começou. Nos dias 29 e 30 de maio de 1979, no 31º Congresso da UNE, em Salvador, no "Congresso da Reconstrução" da entidade despedaçada pela ditadura e jogada na ilegalidade durante 13 anos. No Centro de Convenções da Bahia, ainda em obras, cedido pelo governador Antonio Carlos Magalhães em meio a grande polêmica nacional, 10 mil estudantes presentes. 3.304 deles delegados eleitos "nas bases". Juntos no mesmo espaço, esquerdistas, direitistas, comunistas, anarquistas, "estudantes profissionais e inocentes úteis", como alguns jornais definiam na época.

Na mesa, entre muitos outros destacados líderes estudantis de então, o atual governador de São Paulo, José Serra (PSDB) e o hoje deputado petista José Genoino. Como esquecer a grande faixa dos anarquistas "Inimigos do Rei", aberta de repente?, e o alvoroço da platéia surpreendida? E a hora em que faltou energia, em plena cerimônia de encerramento do Congresso, quando, ato contínuo, o baiano Ruy César Costa e Silva, o primeiro presidente da UNE reconstruída, pediu a todos que acendessem velas ou isqueiros, enquanto ele lia a mensagem de encerramento. Sem alto falante, cada palavra do estudante de Comunicação da UFBA (que mais tarde se transformaria em ator e educador), era reproduzida pelo coro de mais de 10 mil vozes na noite escura da Bahia. Indescritível!

Repórter da sucursal do Jornal do Brasil em Salvador, na época, ninguém me contou... Eu vi. Difícil aceitar que algo tão bonito e significativo, possa ter-se transformado, 30 anos depois, em algo tão feio - maligno até - como a histórica entidade estudantil e seus dirigentes aparecem em alguns retratos do evento da semana passada, em Brasília. Depois do que vi na Bahia, porém, creio que a UNE resistirá mais uma vez.

Vida longa à histórica entidade dos estudantes brasileiros. E curta aos maus dirigentes, da UNE ou de qualquer outra instituição do País.


Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog "Bahia em Pauta" (http://bahiaempauta.com.br/).


Texto publicado originalmente hoje, 25 de Julho de 2009, no site "Terra Megazine".

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