Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 26 de julho de 2009

E ele simplesmente observou uma sombra... Salve, salve!

Foto: Ana Helena Tavares
CRESCE A SOMBRA NO TERRAÇO

Por Affonso Romano de Sant'Anna

Atravesso o meu terraço e percebo que a sombra cobre metade das flores e canteiros. O inverno chegou e essa sombra irá se alongando aos poucos e haverá um momento, quando o Sol deixará de iluminar meu espaço.

Dou-me conta da passagem do tempo por este detalhe. Todos os anos percebo que a sombra avança. E a sombra avança sobre o terraço e sobre a vida dizendo simplesmente que o tempo existe. A sombra me dá notícias do tempo, como a noite me dá notícia da morte.

A descoberta do tempo é tarefa para gente grande. Descobri o tempo há algum tempo. Essa sombra apenas me manda um novo recado.

As pessoas descobrem o tempo em tempos diversos. Algumas não o descobrem jamais. Vivem sempre no espaço. E viver apenas no espaço é diverso de viver no tempo.

Explico-me, porque essas coisas são simplesmente complicadíssimas. O espaço seria uma linha horizontal, o tempo uma vertical. O espaço pressupõe uma atividade física, um deslocamento, é coisa palpável, visível, pode-se medir. Já tempo...

Há muita gente que vive apenas na dimensão do espaço. Desenvolve a vida como se ela fosse uma interminável peripécia física. Vive daqui para ali, de cidade em cidade, de corpo em corpo, acionando máquinas e negócios e ocupando lugares como se isto fosse forma de agarrar o tempo.

O jovem vive sobretudo na dimensão do espaço. E lá pelos 30 anos, ao notar uma nesga de sombra no terraço da vida, começa a se habilitar para o tempo. Claro que cada um tem um certo relógio interno, além daquele que martela lá fora. Alguns, como os marinheiros e agricultores, regulam seus quadrantes e estações pela natureza.

Às vezes, no entanto, a descoberta do tempo se dá de sopetão. A pessoa vem distraída na vida, jogando, dançando, exibindo-se ludicamente e um simples incidente joga-a na realidade interna-externa que a deixa abismada. Bom seria que acontecesse naturalmente, mas algumas pessoas jamais descobririam o tempo se não fossem lançadas abruptamente nele.

Uma vez li uma frase que dizia assim: "Tempo é espaço interior, espaço é tempo exterior". Acho que era de Novalis. Quando li essa frase, pensei: entendi tudo, essa frase agora vai me alimentar por mil anos.

E alimentou.

Quando a pessoa cai no tempo, o que ocorre é que seu espaço aumenta, ela cresce interiormente, e ao crescer interiormente vê o mundo com sutilezas mais enriquecedoras.

Por outro lado, se espaço é tempo exterior, então a vida é realmente uma viagem, viagem para dentro e para fora. O tempo é viagem para dentro.

A descoberta do tempo tem algo de parto. É quando o indivíduo nasce outra vez. Isto pode parecer estranho, mas quem já nasceu outra vez, sabe do que estou falando.

Agora, vejam vocês aonde fomos parar nessa conversa. Não era de altas e baixas metafísicas que julgava falar quando atravessei nesta manhã o meu terraço para lhes escrever. Simplesmente observei uma sombra. Uma sombra das telhas sobre os canteiros e flores.

Ainda agora, tiro os olhos desta escrita e confiro-a com o que ocorre lá fora. A sombra cresceu alguns centímetros.

Olho o espaço de luz que me resta e saio para viver.

Affonso Romano de Sant'Anna é poeta e jornalista.

Texto reproduzido do blog do autor e publicado originalmente nos jornais "Estado de Minas" e "Correio Braziliense" do dia 19 de Julho de 2009.

3 comentários:

Diana disse...

Ana Helena, o poeta Affonso é um luxo! É o meu poeta preferido e pessoinha doce e gentil. Amo tudo o que ele escreve. Bjos.

Ana Helena Tavares disse...

Obrigada pela visita e comentário, Diana! Seja sempre bem-vinda! Tive a honra de fazer uma entrevista exclusiva com o Affonso Romano e posso tranqüilamente confirmar suas palavras. Além de um escritor luxuoso, ele é a gentileza e a docilidade em pessoa.

Anônimo disse...

oi ana helena. Eu tenho essa entrevista aqui no meu pc , achei o máximo e tenho tb até uma foto com vcs dois. Abraços. Diana
PS: se quiser que eu envie a foto, mande seu email.

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