Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

CARTA ABERTA

Aos estudantes de Jornalismo

Por Apóllo Natali

Estudantes de Jornalismo, o diploma continua obrigatório, sim, para os vossos corações!

Tragam um curso de Jornalismo para as vossas vidas!

Esforçai-vos por fazer bons cursos. Não falteis às aulas, anotai tudo em classe, fazei todos os trabalhos com amor, não canseis os professores com barulho, interrupções, desrespeito.

Apaixonados por jornalismo, apenas olhai e passai pelos que dizem: para ser jornalista basta saber contar histórias. Perdoai-os! Não sabem o que falam! Seus olhos jamais contemplaram essa luz, nem seus ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em seus corações o fogo dessa paixão.

Este eterno enamorado do jornalismo que vos fala está com 73 anos e depois de quase quatro décadas atuando na imprensa escrita, concluiu a Faculdade em 2007, sem faltar um dia sequer, durante os quatro anos. Sempre é tempo de transitar pelas matérias fascinantes do curso de Comunicação, usufruir de seus clarões, ver o mundo com nitidez. Vale qualquer sacrifício: nos quatro anos de curso, entre idas e vindas, de casa às salas de aula, subi e desci, de dois em dois, duas vezes o total de 190.880 degraus, no metrô e no prédio da faculdade, lá sem usar elevador. Levantei às 5 horas da manhã 720 vezes durante os 4 anos. Caminhei mais de 5 quilômetros por dia, ou 3.600 quilômetros ao todo, o mesmo que ir a pé ao Rio de Janeiro oito vezes.

Justiceira da humanidade

Abraçai, pois, com felicidade, a profissão bendita, campo, sim, para as grandes batalhas de espírito e inteligência, e sem deixar de vos conscientizar das manipulações das consciências e das transações de domínio sobre as pessoas perpetradas pelos poderosos.

Espelhai-vos no maior jornalista que o Brasil já teve, o baiano Cypriano Jozé Barata de Almeida, que combateu como nenhum outro pela liberdade do Brasil no final do período colonial, Primeiro Império e Regência. Fez mais pela liberdade de nossa gente do que os heróis oficiais com seus festejados bustos em praças públicas.

Explico: Cypriano fez da imprensa, e vós também podereis fazer, a grande justiceira da humanidade, a deusa tutelar da espécie humana. Os poderosos que escrevem a História deram-lhe apenas a esmola de uma rua com o seu nome no bairro do museu do Ipiranga, em São Paulo, uma em Salvador, onde nasceu, outra em Natal, onde morreu. Não importa, foi o maior jornalista!

Ao ostentardes o diploma, obrigatório para qualquer humano, as sábias velhinhas vos dirão, emocionadas, nos pontos de ônibus, metrô, filas de bancos, supermercados: vós fizestes Jornalismo, meu filho, minha filha querida, fizestes? Que lindo!


Apóllo Natali é jornalista.


Texto publicado originalmente em 14 de Julho de 2009 pelo Observatório da Imprensa.

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