Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Alcino Correia: O homem do “Coração em Desalinho”

Foto: Ígor Lopes

Com centenas de músicas gravadas e cerca de 600 por gravar, Alcino Correia é um dos maiores compositores de samba do Brasil. Português de nascença, natural de uma aldeia em Armamar, Ratinho, como é conhecido, tem hoje um sotaque completamente brasileiro ou, para ser mais preciso, carioca. O compositor conta com dezenas de prémios, um deles um Estandarte de Ouro, uma espécie de Óscar da música mais característica do Brasil. “Coração em Desalinho” e “Vai Vadiar” foram as músicas que levaram o letrista ao topo da tradição do samba, tendo conquistado o respeito de todos os bambas brasileiros. Todo esse passado pode render-lhe agora, aos 61 anos de idade, uma homenagem da Câmara Municipal de Armamar.

Reportagem: Ígor Lopes

Alcino Correia Ferreira recebeu a nossa reportagem na sua casa no bairro de Todos os Santos, na zona Norte do Rio de Janeiro. O compositor mora numa vivenda simples, agradável e acolhedora. No quintal, tem um espaço reservado para levar a cabo a arte do samba, onde se encontra com amigos, sambistas, num acto de valorização do samba de raiz. Veste-se de uma forma despojada, corriqueira, sem grandes preocupações com a imagem. O rosto fica meio escondido pela barba crescida, que serve quase como a sua assinatura.

A vida corre-lhe bem. É honesto e, por vezes, pacato, só estremecido pelos ares dos clubes onde actua, à noite, exibindo as rimas que fizeram dele uma referência no samba nacional. No seu estilo arrebatador, confessa que cantar não é o seu forte, embora seja muito respeitado na categoria dos compositores de samba, um dom que descobriu quando tinha 14 anos.

“Sou muito respeitado, pois todas as músicas que faço, por sorte minha, são sempre qualificadas como boas. Assim, o respeito cresce. Se você faz uma música que todos ouvem e cantam, você vai ser respeitado. Eu sou português, mas canto e faço samba como os brasileiros. Se eu estivesse em Portugal, faria música portuguesa”, enfatiza.

Sem papas na língua, diz o que lhe vem a cabeça. Não guarda rancor, mas odeia ser traído. É amigo dos seus amigos e ajuda a todos quando é preciso. O dinheiro é escasso, mas leva a vida como vai dando. Sem muito luxo, mas com muita alegria. Entre uma composição e outra, surgem novas ideias. E a gaveta vai ficando cheia de pedaços de papel com anotações de rimas e estrofes, à espera que alguém se lembre de dar voz às letras mais recentes. Em casa, tem uma relação amistosa com a sua esposa, Denize, que é brasileira, e com a sua filha mais nova, Priscila. O filho mais velho, Paulo Afonso, vive em São Paulo e, sempre que dá, conta com a visita do pai coruja. Os dois filhos nasceram no Brasil.

Na alma, leva a dinâmica não só de um grande compositor, mas também de poeta. Ratinho tem já pronto um livro. “Duas Faces – Fases” vai mostrar poemas, pensamentos, sonetos e crónicas do nosso entrevistado. A data do lançamento ainda não foi definida. Enquanto isso, também trabalha na sua autobiografia e em dois livros de crónicas intitulados "Quintais do meu subúrbio" e “Causos do Samba”.

Basta uma ideia e um pequeno gravador que sempre leva consigo quando sai à rua. Surgem assim, verdadeiras obras de arte da música brasileira, através da inspiração deste compositor. O carinho pela música é uma marca característica de Alcino Correia.

Antes de se dedicar a tempo inteiro à composição, Ratinho trabalhou como estafeta de banco e vendedor. Exerceu profissão também numa óptica e numa empresa de autocarros. Mas foi no samba que encontrou a sua vocação. Mesmo assim, garante: “A música nunca me deu o suficiente para viver”.

A chegada ao Brasil

No dia 5 de Março de 1948, nascia Alcino Correia, em Portugal. Ainda pequeno, corria livre, leve e solto pela aldeia de Lumiares, no concelho de Armamar, distrito de Viseu, na famosa região do Douro. Sendo o mais novo dos filhos de Afonso e Maria dos Santos, Alcino tem poucas recordações de Portugal.

“Lembro-me muito pouco de Portugal. Tenho algumas imagens de algumas coisas da minha infância. Uma das recordações é que as vezes íamos pegar castanhas e machucávamos o pé no ouriço. Uma vez me recordo da minha irmã Odete que me levava pela mão e eu vi uns bois soltos pela aldeia. Eles vieram na nossa direcção. Ela se escondeu atrás de um poste e eu caí e machuquei os dentes. Sei que devo ter bastantes parentes em Portugal, pois a minha família era muito grande”, recorda com um ar de nostalgia.

Pouco tempo depois, o seu destino estaria ligado ao Brasil e à cultura popular daquele país. Em 1953, ainda aos quatro anos de idade, Alcino chegava ao Brasil com os seus pais e mais quatro irmãos. A ida para as terras de Vera Cruz prendeu-se com a necessidade da família Ferreira encontrar uma vida melhor. A viagem de Portugal para o Rio de Janeiro foi feita ainda de navio e “foi muito enjoada”.

Desde então, Ratinho ainda não teve a oportunidade de voltar a Portugal. “Estou ansioso para que isso aconteça. Alguns dos meus irmãos voltaram e os meus pais foram lá muitas vezes”. Do regresso das férias dos pais, que já faleceram, Ratinho recorda, com água na boca, as guloseimas que eles traziam.

“Tenho boas recordações dos meus pais. Os nossos almoços eram todos baseados na culinária portuguesa, com muito bacalhau, além do famoso cozido. Lembro-me que sempre que os meus pais iam a Portugal, eles traziam azeite e enchidos deliciosos”, recorda.

Com os irmãos, mantém pouco contacto, por imposição da rotina da grande cidade. A história da sua família é um eterno vai e vem entre os dois países irmãos.

“O meu pai veio para o Brasil com um ano de idade, com os meus avós. Aos 19 anos, o meu pai voltou para Portugal, devido a uma doença pulmonar. Em terras lusas, conheceu a minha mãe, que era prima dele. Casaram-se. Mais tarde, viemos para o Brasil”, remata.

No Brasil conheceu as batucadas e a alegria do samba. Seguiu carreira. Mesmo assim, e por querer entender a lei de direitos autorais, licenciou-se em Direito, mas não pretende exercer essa profissão.

Agora, conta com 36 anos de carreira. Continua compondo e faz muito sucesso no mundo do samba. Tem cerca de 300 músicas gravadas e um historial de 600 canções ainda por gravar. “Nunca me preocupei em gravar. Nem tudo conseguimos gravar. As coisas vão acontecendo. As vezes, temos trabalhos mais importantes dos que os que foram gravados”, observa. Durante todos estes anos, nunca recebeu nenhum apoio por parte das autoridades portuguesas no Rio de Janeiro. Acabou por se naturalizar brasileiro.

Alcino não foi o único português de sucesso no samba no Brasil. A história dá conta também de Carlos Teixeira Martins (ou Carlinhos Maracanã) e Alfredo Lourenço. Mas as letras de Ratinho entraram para a história. Com uma sensibilidade ímpar, Alcino cativou os corações de uma camada considerável de brasileiros e não só. As suas músicas transmitem muita alegria e atitude, sem que ninguém se deixe ficar indiferente ao seu ritmo.

Criado no bairro de Pilares, também na zona Norte do Rio, cedo ganhou a alcunha de Ratinho. O nome surgiu quando tinha nove anos. O menino costumava mexer nas frutas da quitanda vizinha ao bar do seu pai. Sempre que era flagrado, gritavam: “Sai daí, Ratinho”. Surgiu, assim, o Ratinho de Pilares.

Actualmente, tem o coração dividido entre as escolas de samba Mangueira, Salgueiro, Portela e a equipa de futebol do Clube de Regatas do Flamengo. “Na Portela sou muito bem recebido. Mas sinto um impulso muito forte pela Mangueira”, confessa.

Profundo conhecedor do passado do samba, Ratinho insiste em explicar que o estilo veio do “batuque africano, mas teve influência do português em termos de instrumentos. O ritmo começou na Bahia. Mais tarde, veio para o Rio de Janeiro e tomou outra roupagem”.

Autor de várias músicas de sucesso, Ratinho ainda hoje é ovacionado quando apresenta as suas canções nas casas de espectáculo da cidade do Rio. Tal foi o sucesso de uma das suas letras, que o compositor baptizou a sua quinta, no município de Magé, como “Coração em Desalinho”. Mas, por motivos financeiros, a quinta, que tinha piscina, área dedicada à agricultura, campo de futebol e muito cómodos, acabou por ter de ser vendida para suprir as necessidades da sua família.

Talvez por essa razão, Ratinho esteja desencantado com o mundo do samba. Mesmo assim, mantém o rumo das composições. Ratinho reconhece que o compositor quase sempre vive à margem da sua criação, sem ter direito ao valor merecido pelas suas letras. Os méritos ficam com o cantor ou com o intérprete.

“O samba tem o lado bom e o lado ruim. Não é uma coisa valorizada. Ele chega a ser descartado da cultura popular. Vivemos da felicidade de compor e não de ganhar dinheiro. Ser compositor é difícil. Quase não se fala do compositor, mas sim do cantor. Muita gente que sabe cantar não tem gravadora ou não tem divulgação. O mercado é fechado. Ninguém vive de samba. As coisas acontecem como amador. Até hoje, não sei se posso ser considerado profissional. Por vezes, o samba é muito mais valorizado fora do Brasil”, garante.

A estreia no samba

Quando tinha cinco anos de idade, já escutava samba. Tinha um tio que fazia parte de um bloco que parava constantemente na Rua Djalma Dutra, em Pilares, zona Norte do Rio de Janeiro. Nessa casa, Ratinho vivia com a sua avó. Assim, escutava a batucada. Aquilo começou a soar bem no seu ouvido. Quando se mudou daquela casa, aos nove anos de idade, começou a ir para a escola de samba Caprichosos de Pilares que fazia os seus ensaios num clube na Rua Soares Meirelles, onde estava a viver. Ainda muito jovem, Ratinho contou com a ajuda de alguns amigos do pai para ter o aval para frequentar os ensaios

“Alguns amigos que frequentavam o bar do meu pai pediram-lhe para me deixar ir com eles. Mesmo contra a sua vontade, o meu pai deixou. Assim comecei a gostar de samba e a sambar”, relata. Mais tarde, a música tornava-se numa constante na vida deste compositor.

“Com 14 anos comecei a fazer umas rimas. Mostrava para os meus colegas e eles gostavam dos sambas que eu fazia. Quando completei 16 anos, fugi de casa. Fui para o morro do Salgueiro, onde o samba fervilhava com mais intensidade. A escola de samba do Salgueiro era grande. Dessa forma, comecei a viver no meio dos grandes nomes do samba”, explica.

Os parceiros musicais

Ratinho teve muitos parceiros ao longo da sua carreira. Compôs com Zeca Pagodinho, Mauro Diniz, Arlindo Cruz, Wilson Moreira, Walter Rosa, Guilherme de Brito, Cláudionor Santana, entre outros, além de uma parceria póstuma com Nelson Cavaquinho. Hoje em dia, o rei das letras de samba faz nascer canções com outros parceiros, entre eles Aldir Blanc e Rico Dorilêo, que viveu em Lisboa por dez anos, sempre a compor.

Mas foi com Monarco que encontrou o tom certo para o sucesso. Ao todo, durante essa parceira, foram criadas 180 músicas, tendo sido gravadas 60. A história do encontro desses dois sambistas é longa. Em 1967, Ratinho conheceu Monarco, na Portela. Dois anos mais tarde, Monarco gostou de um samba feito por Ratinho e acabou por completar a canção. “Assim começámos a nossa parceria. E deu certo”, lembra.

Muitas das suas canções, num total de 19, ganharam a voz de Zeca Pagodinho, um dos intérpretes de samba mais aclamados do Brasil, com uma extensa discografia e com milhares de cópias vendidas. “O intérprete dá mais ênfase ao que se está contando na música. O cantor geralmente tem uma voz bonita, melódica”, elucida Ratinho.

As letras de Alcino também foram interpretadas por Emílio Santiago, Leila Pinheiro, Beth Carvalho, Alcione, Ivete Sangalo, Jorge Aragão e o grupo Fundo de Quintal.

Por motivos pessoais, Ratinho está afastado dos seus dois principais parceiros: Zeca Pagodinho e Monarco. A nossa reportagem tentou contactar os dois, mas a agenda dos profissionais não possibilitou o nosso encontro.

O segredo de uma boa parceria

Com a experiência e depois de muitas músicas compostas, Ratinho descobriu o segredo para uma parceria dar certo.

“A música é um casamento. As vezes me chamam para fazer uma letra e eu digo o seguinte: primeiro, temos que namorar. Depois, noivar e casar. As vezes querem de qualquer maneira fazer parceria comigo, mas assim não funciona. Se a parceria não tiver um elo, pode até sair uma música bonita, mas depois cada um vai para o seu lado, não sobra mais a convivência e o lado gostoso do samba. Um parceiro é um amigo que queremos ter do nosso lado, mesmo sem ser para fazer samba. Ser parceiro não é só fazer música, é conviver no dia a dia, é conversar”, relata.

O compositor admite que fazer música é um dom e que, geralmente, não há intenções comerciais na criação de uma obra-prima.

“Não faço música para ninguém gravar. Faço música sem intenções, pois sinto vontade de compor. Sinto no meu coração e tenho uma inspiração. Por eu ter o nome que tenho hoje, é que muitos cantores se interessam por gravar as minhas músicas. Os intérpretes gostam das letras e decidem gravá-las. O público nem sempre conhece o compositor, mas nós existimos e criamos as canções”, explica.

Mesmo a crise mundial não lhe retira inspiração, nem nos piores momentos. Mas, segundo Ratinho, a Internet é a grande vilã no cenário musical.

“O mercado de discos está falindo no mundo inteiro, isso está acontecendo depois que a Internet surgiu, acabando com as vendas de disco em lojas. Os compositores estão sentindo muita dificuldade para sobreviver”, adianta.

A saudade aumenta quando fazemos o compositor recordar a interpretação da sua música que mais lhe agradou. Entretanto, aceita a renovação e os novos nomes que dão sucesso ao seu samba.

“Temos grandes cantores no Brasil. Mas tenho saudades de um que já faleceu e que cantava muito bem o samba. Ele se chamava Roberto Ribeiro. Na voz feminina temos a Alcione, que é uma excelente cantora. Mas, certamente, o mais famoso hoje em dia é o Zeca Pagodinho, pela forma como ele canta o samba. Gosto muito quando ele grava as minhas letras”, diz.

A carreira

No final de 1972, Ratinho gravou o seu primeiro samba enredo, que falava da coroação de Dom Pedro, para a escola de samba Caprichosos de Pilares. Na mesma escola foi campeão por sete vezes consecutivas. Em 1983, fez a última música para a Caprichosos. “Frequentei a escola nos anos 60 e 70. São sambas que se fazem para concorrer na avenida, na altura do Carnaval, de acordo com o tema que a escola apresenta. Um dos sambas que fiz foi campeão na avenida do samba, no Rio de Janeiro. Chamava-se “Lili” ou “Samba da Feira”. Com esse samba enredo de 1982, que se tornou num clássico, Ratinho foi homenageado pelos feirantes da cidade. Este foi eleito um dos melhores sambas daquele ano e um dos mais lembrados até hoje. Na época, a composição foi uma novidade, já que a canção contava com três refrães seguidos.

Em 1978, foi vencedor do Estandarte de Ouro, do jornal “O Globo”, em relação ao um samba que falava sobre a festa da uva no Rio Grande do Sul. “Com os prémios, o astral se revitaliza. O compositor vive da emoção que passam para ele”, sustenta.

Foi três vezes campeão de samba de enredo dos blocos “Embalo do Morro do Urubu”, “Difícil é o Nome” e “Boémios de Inhaúma”.

Em 2005, foi o vencedor do samba de terreiro na escola de samba Portela, com a canção “Voltei para Portela”.

Com Noca da Portela divide a autoria do samba “Não me venha com indiretas”, que foi utilizado com hino na época em que o Brasil lutava pelo voto directo.

Segundo Alcino, não foi difícil conquistar o seu espaço no samba, mesmo sendo português.

“Sinto-me totalmente integrado no Brasil. Pode até acontecer de um dia eu voltar a Portugal e querer por lá permanecer. Isso seria muito bonito, pois foi a terra onde eu nasci. O meu pai me levou para o Brasil, onde aprendi os costumes, a música e me tornei num compositor de samba. Se eu estivesse em Portugal, talvez fosse um fadista ou cantasse desgarrada”, salienta.

Sobre a música portuguesa, Ratinho mostra que o fado e o folclore são os estilos que mais admira.

“Conheço muito pouco a música portuguesa. As vezes, recebia uma cassete vinda de Portugal, com cantares bem regionais. Um marco para mim foi os fados que ouvi pela voz de Amália Rodrigues. Gosto também de folclore”, menciona Alcino, que sublinha ainda que “se não fosse no Brasil, em qualquer lugar do mundo estaria fazendo músicas”.

Os maiores sucessos

Entre 1986 e 1987, Monarco mostrou uma melodia para Ratinho. Nascia assim, a canção “Coração em Desalinho”, uma das mais emblemáticas da dupla de compositores.

“Ele (Monarco) fez a primeira parte da canção e eu fiz a segunda. O samba foi um sucesso em 1987. O Zeca Pagodinho teria vendido 700 mil cópias sem tocar no rádio, só na promoção boca a boca. Em todo os shows do Zeca, ele é obrigado a cantá-la”, explica.

A segunda parte de Ratinho tem poucas rimas, mas a melodia envolve-nos. Na mesma linha, está “Vai Vadiar”. A letra foi finalizada em 1999, após 17 anos esquecida.

“Eu cantava, o pessoal ria e gostava. O Zeca adorava. Mas ninguém gravava. Fui então incentivado por um amigo a terminar o samba. Um dia, na rua, nasceu a parte final do “Vai Vadiar”. Nessa música, o Monarco botou o verso do meio”, menciona. A canção “Vai Vadiar” foi eleita um dos 12 melhores sambas de todos os tempos, numa votação da Rede Globo.

Outros sucessos que ficaram na boca do povo foram “Parabéns para você”, eternizada na voz do grupo Fundo de Quintal, “A vaca”, “Meiguice Descarada”, “Termina Aqui”, “Água Benta”, “O dia se Zangou”, “A Feira”, “Loucuras de Uma Paixão”, “Tempo de Amar” e “Sua Presença”. “São sambas que eu canto e todo mundo sabe a letra”, diz orgulhoso.

Recentemente, gravou o seu primeiro Cd, com músicas inéditas. “Quis gravar umas músicas para dar para o Zeca, mas o trabalho estava tão bom que fui incentivado a fazer o meu próprio Cd”, conta.

“O Rato Sai da Toca” conta com 16 músicas inéditas, sendo dez de Ratinho com Zeca Pagodinho. “As vozes foram consertadas digitalmente. Não é preciso hoje em dia ter grande voz para cantar”, ironiza.

A “Toca do Rato”

Nos fundos da casa número 101, na Rua Conselheiro Agostinho, onde vive Ratinho, muitos cantores e compositores se reúnem para dar vida ao samba de raiz. Para ter acesso ao local, é preciso passar pela garagem, onde está um porteiro que cobra 10 Reais (pouco mais de 3 Euros) por pessoa. Logo na entrada, há um quadro com recortes de jornais que falam sobre o compositor. Mais a frente, numa pequena prateleira, estão algumas dezenas de troféus ganhos por Ratinho durante a sua carreira.

Uma rampa dá acesso à chamada Toca do Rato. Os dois primeiros domingos de cada mês são destinados ao encontro de amigos, sendo eles artistas ou apenas amantes desse género brasileiro. O local conta com algumas mesas e cadeiras de ferro. Há um pequeno bar que serve bebidas frescas e aperitivos. A cerveja é a mais consumida. Praticamente em frente ao bar estão expostos alguns quadros na galeria “Bartolomeu Júnior”, onde estão pintados rostos conhecidos do meio do samba. Também na parede podem-se ver várias fotografias coladas a uma moldura de cortiça de momentos e encontros importantes na vida de Alcino Correia.

Mais adiante, está uma mesa, com cerca de dois metros de comprimento, onde se posicionam os músicos. No centro da mesa está sempre uma imagem de São Jorge, um dos santos mais populares no Brasil. No microfone apresenta-se a estrela maior. Aquele compositor que não teve a oportunidade de estar nos programas de televisão, sendo ovacionado e valorizado tal qual os intérpretes das suas músicas. A Toca do Rato é considerada uma das principais rodas de samba do Rio de Janeiro.

“O objectivo é mostrar o lado cultural do samba. Quero mostrar ao povo a forma de fazer samba, a forma de cantar samba e, geralmente, falar de quem faz o samba. Pretendo dar a conhecer quem faz as letras e não quem canta. Estamos sempre ao lado do compositor, de quem criou aquela obra”, acentua.

A Toca do Rato está a funcionar há seis anos. Por vezes “fecha” e por vezes “abre”. “Os vizinhos reclamam. Eles dizem que o nosso encontro faz muito barulho”. A música começa às 16 horas e termina às 20h30. Na Toca, canta-se “um samba que não é barulhento, um samba feito com coração, autêntico”.

O samba em Portugal

O trabalho de portugueses como Roberto Leal, Carmem Miranda, Maria Alcina, Amália Rodrigues e Carlos do Carmo fez sucesso no cenário musical no Brasil. “Vejo isso com importância. Muitos portugueses vieram para cá e fizeram sucesso”, afirma.

Em relação ao samba em terras lusitanas, Ratinho é impiedoso: “Acho que poderia haver mais representação do samba em Portugal. O samba é um batuque, mas a harmonia é portuguesa. Deveria haver uma harmonia melhor entre música portuguesa e brasileira. Espero que isso mude num futuro bem próximo”, desabafa.

O possível regresso

Alcino não esconde a alegria de ter a oportunidade de um dia poder pisar de novo o chão da terra onde nasceu. Essa oportunidade pode surgir com a homenagem que a Câmara de Armamar quer lhe prestar.

“Hoje em dia eu amo o Brasil, pois é a terra onde vivo há 57 anos. Gostaria de poder conhecer mais a história e a realidade do Portugal contemporâneo. O que me ligava a Portugal era os meus pais. Sou mais brasileiro do que português. Mesmo assim, tenho vontade de voltar a Portugal, até por que foi lá onde eu nasci. O valor emotivo nessas horas é muito grande. Voltando a Portugal, gostaria de ter uma boa acolhida e de dar um pouco de mim para o povo de lá. Eu também faço parte de Lumiares”, alega.

A família e os amigos

Procurámos vestígios da família de Ratinho em Lumiares. Encontrámos Floripes Amélia Santos, de 59 anos. Ela é prima em terceiro grau de Ratinho. O seu pai é padrinho de um dos irmãos do compositor. Floripes não se recorda muito do familiar, mas conhece o seu trabalho.

“Sei que ele tem vários prémios no ramo da música. Em Lumiares, as pessoas conhecem pouco ou quase nada do seu trabalho. Por isso, seria muito bom poder trazê-lo cá e fazer-lhe uma homenagem”, sugere.

Quando era criança, Floripes costumava brincar com os irmãos mais velhos do seu conterrâneo. “Ele ainda era muito novo, mas os irmãos dele viviam em minha casa”, admite.

Falamos também com Aldir Blanc, um dos mais novos parceiros de Ratinho. Apesar de ser formado em medicina, Aldir actua como compositor e escritor, sendo um dos mais conceituados e reconhecidos do Brasil. Em relação ao novo companheiro de samba, Aldir é irredutível.

“Acho que o Ratinho representa um fenómeno único na música popular brasileira. Ele é inteiramente intuitivo. Ele é quase cem por cento inspiração. Usa um pequeno gravador nos transportes públicos, onde grava as suas impressões. E agora me trás para eu colocar a letra, já que sou um dos seus mais novos parceiros”, conta. Aldir reconhece o talento de Ratinho e a qualidade das suas letras.

“Ele ainda compõe sem a utilização de instrumentos. Mesmo eu, como letrista, toco um pouco de violão enquanto componho. Ninguém sabe como nascem coisas tão bonitas e tão ricas. Me impressiona muito essa tendência que é antiga no Rio de Janeiro e que o Ratinho talvez seja um dos últimos seguidores”, adianta Aldir, que alega que “trabalhar com o Ratinho é muito fácil”, já que ele “se adapta rapidamente à letra que você entrega, assim como é capaz de receber a letra que você escreveu para a música dele, ajeitá-la e fica mais bonita”.

O compositor brasileiro garante que é “raríssimo encontrar um parceiro dessa qualidade e dessa simplicidade”. Aldir complementa dizendo que Ratinho mudou algumas coisas no samba brasileiro. “Ele trouxe para o samba uma qualidade nova. Ele trouxe a intuição, trouxe a inspiração, trouxe uma forma nova de compor, onde o coração do compositor se sobrepõe a qualquer outra coisa. Eu não conheço ninguém na música popular brasileira de hoje que faça os sambas da forma, pureza e alegria como ele faz”, sublinha.

Actualmente, Ratinho e Aldir contam com seis músicas prontas. São sambas de meio de ano, que são gravados entre um carnaval e outro. “Muito me alegra encontrar um parceiro muito semelhante ao que sinto no íntimo. Acho que vamos fazer músicas que vão alegrar brasileiros e portugueses”, finaliza.

Ircéa Gomes é irmã de Zeca Pagodinho. Fã de Ratinho, já gravou uma das suas músicas, que se chama “Coração Criança”. Há muitos anos conhece e admira o trabalho desse letrista.

“Conheço o Ratinho há muitos anos no meio do samba. É um compositor conceituado. Faz um samba sério, de raiz. Quem sabe valorizar o samba genuíno está na Toca do Rato”, comenta Ircéa.

Para a cantora, a forma de compor de Ratinho serve de modelo. “O trabalho do Ratinho como compositor é excelente. É uma linguagem bem aberta. Ele é romântico. As letras são inteligentes e não corriqueiras. Ele continua no bom caminho das composições”, completa.

Lan é um caricaturista italiano famoso. Trabalha há mais de 60 anos na imprensa uruguaia, argentina e brasileira e é amigo pessoal de Ratinho. Através do samba, conheceu a identidade do povo brasileiro. Foi assim que teve contacto com Alcino Correia. Uma das suas novas funções é fazer a ilustração do livro de Ratinho.

“Tive a sorte de conhecer os maiores nomes do samba do Brasil. Considero o Ratinho um fenómeno excepcional no campo da cultura popular. Além de sambista é poeta. Eu admiro muito o Ratinho. O samba é a grande expressão nacional e marca o Brasil. Antes de mais nada, ele é um poeta que conhece a cidade como poucas pessoas”, assinala Lan.

André Freire é crítico e amigo de Ratinho. Este responsável, luso-brasileiro, conhece de perto a cultura do Brasil e garante que Ratinho faz parte dela como ninguém.

“O Ratinho significa a valorização da cultura brasileira. Ele é um nome importante no samba do Rio de Janeiro e do Brasil”, destaca.

Já a esposa Denize prefere lembrar as dificuldades que rondam a carreira de Ratinho.

“O Ratinho tem uma carreira que foi muito sofrida, com muitas dificuldades, mas o resultado é muito bonito e gratificante. As pessoas cantam as músicas dele com muito carinho. Em termos de finanças ele não é valorizado como deveria. Ele tem muitos sucessos e luta com dificuldade. A ideia da Toca foi mais minha do que dele. Foi a forma que encontrei de demonstrar o meu amor pelo seu trabalho”, argumenta. O casamento com o compositor dura já 29 anos.

Priscila é a filha mais nova do compositor. Estuda publicidade e tem 21 anos. Quando houve falar no talento do seu pai, o seu rosto esboça um sorriso sem fim.

“A música faz parte da nossa vida. Gosto muito das canções dele. Não só ele, mas a maioria dos compositores não tem o valor que deveria ter. Gosto de várias músicas dele, mas a minha preferida é “Vai Vadiar”. Fico toda boba quando alguém descobre que o meu pai é compositor de uma música de sucesso”, afirma.

Priscila recorda que quando era pequena também gostava de escrever músicas e gravava para mostrar ao pai. Mas hoje deixou a composição de lado. Sobre Alcino, acredita que ele tem muita música bonita guardada. “Ele só gravou um Cd, deveria gravar mais”, lamenta.

Já o seu irmão, Paulo Afonso, sargento do exército brasileiro, vive numa luta constante para tentar perceber por que o pai não tem o reconhecimento merecido para além da fama.

“A valorização da nossa arte se perdeu. Há uma inversão de valores. Qualquer música, qualquer rima, faz sucesso. Quando vejo uma música que o meu pai compôs há 20 anos fazendo sucesso, é sinal de que é um trabalho bom que vem durando décadas. Pode ser que a obra se torne imortal. Ele tem uma capacidade artística e criativa muito boa. Ele está dando a sua contribuição para que não se perca o bom samba de raiz, o bom pagode”, considera.

Paulo mostra-se orgulhoso do pai e sublinha que uma das coisas que mais admira é a capacidade criativa de Ratinho. “No meio de uma conversa, pode acontecer dele assobiar uma melodia, fazer uma rima e daí brotar um grande sucesso”, revela.

A nossa reportagem ouviu ainda Sérgio da Silva, presidente da Junta de Freguesia de São Martinho das Chãs, a qual pertence Lumiares.

Este responsável diz que já ouviu falar no trabalho de Ratinho no Brasil, mas não o conhece. “Gostaria de o conhecer. Não sei se ele ainda tem familiares vivos aqui em Lumiares, mas vou procurar”, adianta Sérgio, que diz-se contente em saber que há um filho da terra a fazer sucesso. “Queria vê-lo em Portugal, fazer-lhe uma homenagem e mostrar-lhe a sua terra natal”, termina.

Por seu turno, o presidente da Câmara Municipal de Armamar, Hernâni Almeida, justifica que o mínimo que o concelho pode fazer em relação ao compositor é trazê-lo a Portugal para rever Lumiares.

“Conheço mais a história do Ratinho agora. Sei que é um compositor famoso ligado à música tradicional brasileira. Sei que já ganhou alguns prémios nessa área. E continua a desenvolver o seu trabalho com bastante qualidade”, realça.

O autarca destaca ainda que “gostaria de trazer o Ratinho a Armamar para que o povo do concelho pudesse conhecer o seu trabalho e a sua pessoa e que nos pudesse mostrar o que ele tem feito pela música brasileira, o que é um grande orgulho para o nosso concelho”.

O edil diz que ter um português, ainda por cima de Lumiares, que tem valorizado a cultura e a língua portuguesa é uma alegria.

“Penso que ele pode levar a imagem do concelho, os nossos usos e costumes, para o Rio de Janeiro. Seria interessante fazer um protocolo de colaboração com a Casa de Viseu da cidade do Rio. Era fundamental apoiá-lo. Ele poderia nos transmitir o seu trabalho e o seu conhecimento sobre a cultura brasileira. O Ratinho merece o nosso carinho. Ter alguém de Armamar que chegou a um patamar de projecção e de qualidade bastante grande é extremamente positivo para todos nós”, conclui.

A vida de Ratinho certamente daria um livro. Ou melhor, uma música. Alcino Correia viveu muitos desafios em sua vida. Foi escoteiro e estudou em colégio interno por dois anos. O seu espírito é criativo, versátil e irrequieto. Outra das suas facetas é ser inventor. Isso mesmo. Ratinho cria peças, como uma escova de dentes que vem com pasta, fio dental e espelho, além de um barbeador com espaço para pincel, entre outras invenções. Mas o seu passatempo preferido é compor. Criar músicas que deixam em desalinho milhares de corações brasileiros.

Ígor Lopes é jornalista.

Texto publicado originalmente no blog "Show de Letras".



Assista também "Vai, vadiar!" direto do youtube, clicando aqui. É imperdível!

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