Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma pérola...

Fotos: P & B - divulgação
Colorida - Corbys Sygma

Sentido da Palavra
Fraternidade

Por Sérgio Vieira de Mello





A noção de fraternidade na acepção de uma moral cristã do sentimento tem como elementos fundamentais valores como: a liberdade, a justiça e a caridade. A liberdade nesse sentido é absolutamente necessária como base. A justiça e a caridade (aqui sinônimo de fraternidade) têm como origem comum o valor da pessoa humana. Mas, enquanto a primeira procura definir, determinar de uma maneira estrita os deveres que o respeito deste valor impõe, a segunda concebe estes deveres sob a forma puramente afetiva de uma tendência sentimental traduzindo-se por gestos filantrópicos.

A noção de fraternidade, no sentido de uma atitude social, implica unicamente o conceito de justiça, de igualdade. Amar a humanidade e querer não somente a solução temporária de suas misérias e seus sofrimentos morais, mas também sua dignidade. Por esta razão, a caridade perde um pouco de sua utilidade em relação aos direitos de cada um juridicamente definidos e garantidos.

Se a moral religiosa vê na fraternidade uma conseqüência da caridade, a moral social apóia-se principalmente num noção de justiça e de respeito mais elevada e mais objetiva. É evidente, porém, que mesmo assim a vida social não pode esquecer o lado afetivo: a fraternidade liga-se a um ponto de vista jurídico, mas também a um juízo de consciência. Quando a justiça social ou econômica falha, temos como recurso o respeito da dignidade humana, que pode se apresentar sob uma forma religiosa ou não, mas tem como único fim a preservação da honra individual e coletiva.

Sem chegar jamais a um ponto de negação próprio a um Nietzsche ou um Sade, devemos procurar manter-nos no sentido de uma fraternidade duplamente polarizada: 1) a caridade como revolta contra a injustiça; 2) o respeito da dignidade humana construtor de uma nova justiça universal, impossível de se atingir com caridade somente.

Excluindo uma fraternidade do tipo militar que esconde geralmente interesses puramente políticos, uma sociedade moderna precisa da fraternidade para dominar as relações sociais complexas, principalmente no domínio econômico, e para manter um equilíbrio edificado sobre a paz e a compreensão e não sobre o terror.

Foto: Ag. Br.
Sérgio Vieira de Mello foi um diplomata brasileiro, não tenho dúvidas de que um dos maiores que este país já teve. Isso porque ele não era um Dom Quixote.

Este texto compõe o capítulo 15 do livro "Sérgio Vieira de Mello - Pensamento e Mémória". Trata-se de documento raro, escrito em 1966, quando ele tinha 18 anos. A descoberta foi feita pelo jornalista Rui Martins que, ao pesquisar a vida e obra do diplomata, deparou-se com este texto manuscrito em poder de antigos colegas de Vieira de Mello da sua época de colégio no Rio de Janeiro.

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