Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 7 de junho de 2009

"Revolução não se faz necessariamente com sangue, mas, sim, com ideias"

Iluminismo e barbárie

Mauro Santayana

Isaiah Berlim, ao elogiar o século passado como sendo o tempo da análise, relegou-o a segundo plano como época de novas ideias, porque foi de escassa criação humanística. Seus pensadores se exauriram no exame do que haviam produzido os anteriores e não avançaram sobre novas trilhas da filosofia. Como lembrou Tomás de Aquino, em seu prefácio aos livros políticos de Aristóteles, é a filosofia que conduz à práxis política. Estamos ainda sob as idéias do Iluminismo, movimento que foi a resposta de dezenas de excepcionais filósofos sociais a um impasse na inteligência do mundo, e se centrou, sobretudo, na dificuldade de se conciliarem as descobertas científicas com os postulados da fé e a igualdade dos homens.

Em uma passagem de Traité des animaux (de 1755), citada por Cassirer em La philosohie des lumiéres, Etienne de Condillac dá uma pista para o que pode suceder ao Iluminismo, a partir da encruzilhada em que nos encontramos:

“É assim que as ideias renascem pela ação das mesmas necessidades que elas produziram antes. Elas formam, por assim dizer, na memória, turbilhões que se multiplicam como necessidades. Cada necessidade é um centro, de onde o movimento se comunica até a circunferência.... As ideias passam e repassam sem ordem; são quadros movediços que só oferecem imagens bizarras e imperfeitas, e cabe às necessidades redesenhá-las e colocá-las sob a verdadeira luz do dia”. Ao comentar o trecho, Cassirer o associa à Ética de Spinoza e às Paixões da alma, de Descartes, ou seja, identifica os pilares do Iluminismo no século 17. No mesmo século, Hume e Locke, discutindo os mecanismos mentais e os sistemas políticos, se valem dos pressupostos da física de Newton e do método cartesiano.

No século 18, há uma associação mais nítida entre o pensamento renovador e a ação revolucionária. Só a política poderá “encarnar” as novas ideias e, dessa forma, responder às necessidades históricas do homem. É desta forma que os iluministas franceses, como Diderot, Condillac, Voltaire, Rousseau, Montesquieu, publicando sem pausas, passam a influir sobre a aristocracia e a incipiente burguesia industrial e comercial europeia para abrir as portas da História à Revolução de 1789. O grande problema do século 20 foi o do isolamento dos intelectuais de esquerda, herdeiros dos iluministas. Eles foram conduzidos, a partir das revoluções operárias do século 19, ao marxismo militante, porque encontraram a poderosa repressão do liberalismo econômico, e a desapiedada exploração dos trabalhadores.

As reflexões deste domingo, ao acompanharem o périplo de Obama, que foi do Cairo a Buchenwald, e de Buchenwald à Normandia, a fim de comemorar a abertura da Segunda Frente de 1944, identificam a necessidade de novo contrato político, no interior das nações e no conjunto delas. Nos pronunciamentos do chefe de Estado norte-americano, a linguagem do discurso mudou, e as palavras não são inocentes. Como observaram outros, Obama, no Cairo, não qualificou os militantes da Al Qaeda, nem os talibãs, de “terroristas”, o adjetivo demonizador usado pelos membros do governo republicano. Tratou-os como “extremistas radicais”, o que lhes confere estatuto de natureza política. Os ingleses de 1776 qualificaram como “traidores” homens como Washington e Jefferson.

Se, quinta-feira, no Cairo, o presidente dos Estados Unidos cuidou do desencontro histórico dos países ricos com o Islã, sexta-feira, no campo de concentração de Buchenwald, e na Normandia que visitaria sábado, tratou de um conflito no interior do Ocidente. Não estavam em confronto o Corão e a Bíblia nas guerras de 1914/18 e de 1939/45. Os nazistas, no seu projeto de eliminar os judeus, não se preocupavam com o Torah; preocupavam-se em “limpar” o mundo dos não alemães, a fim de se tornarem o único poder sobre a Terra.

Nenhuma revolução é possível sem um esforço intelectual prévio. As revoluções não se fazem necessariamente com sangue, mas, sim, com ideias. O discurso do Cairo pode provocar fervor intelectual e político que, retornando ao Iluminismo, nos faça sair dos tempos de barbárie em que vivemos – já previstos por Vico. E, assim, escapar desse prolongado holocausto, que teve seu auge no nazismo, com as dezenas de milhões de mortos de quase todas as nações, no Vietnã, nos golpes na América Latina, e continua aceso no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, nas hecatombes da África, na miséria e na fome.


Mauro Santayana é jornalista.


Texto publicado originalmente no JB de hoje, 7 de Junho de 2009.

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