Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Que música é a nossa?

Foto: Marcelo Pereira / Terra
(Des) Caminhos da Música Brasileira

Por Paquito

Chico Buarque mais uma vez levantou outra lebre: o formato-canção pode estar morrendo, ou, pelo menos, se transformando em outra coisa, que pode ser o canto-falado do rap, por exemplo... Anunciar a provável morte de um tipo de procedimento praticado cada vez mais por tantos deve dar um nó nas cabeças dos praticantes. Os músicos devem estar se perguntando: pra que afinal se trabalha tanto, inscrevendo-se em editais e quase se pagando pra tocar?

A fala de Chico admite a dificuldade de se fazer análises no calor da hora, por isso é despretensiosa e prudente, apesar do vaticínio aparentemente apocalíptico, e convém não confundir análises estéticas com questões de mercado. No entanto, numa área como a da música popular, as intersecções existem e o que ocorre é inequívoco: a partir da Bossa-Nova, no fim dos anos 50, e com os festivais de MPB, nos 60, até os 80, a canção popular do Brasil conheceu um período de apogeu estético e comercial sem precedentes. Pra se ter uma idéia, um grupo como Doces Bárbaros excursionou pelo Brasil inteiro em 1976 sem nenhum tipo de patrocínio. O que sustentava a excursão dos Doces Bárbaros era o público pagante, e hoje, para se ver o artista novo, ou, pelo menos, não tão conhecido, o público adquiriu o hábito de pedir convites. Pensar em fazer uma excursão atualmente sem qualquer tipo de apoio parece uma aventura, já que há gastos adicionais e estruturais inexistentes há trinta anos como assessoria de imprensa e afins.

Programas de televisão como Som Brasil, da Globo, e Mosaicos, da TV Cultura, se especializam em novos artistas cantando autores consagrados como Djavan, Milton, Gil, etc. Se a geração, nem tão nova assim, não canta seus próprios autores, não se diferencia. É claro que esta também possui autores, mas estes não estão sendo veiculados numa intensidade que possibilite, através da resposta do público, sua própria reciclagem. O compositor popular, pra se renovar, precisa da resposta do público.

Não há, como antes havia, uma ponte entre um público maior e as novas gerações da música. Restariam, então, os nichos: música para universitários, música sertaneja, música romântica, música de carnaval etc. E, ainda mais, diriam os arautos dos novos tempos, que decretam a morte do autor mas recebem em espécie pra fazer palestras pelo Brasil: todos agora podem ser músicos, os sistemas de gravação e circulação, por conta da tecnologia digital e da internet, facilitaram o advento de numerosos artistas e, num futuro próximo, quem quiser vai gravar suas próprias músicas e veiculá-las da maneira que bem entenderem, criando um novo tipo de éden sonoro e democrático. Enquanto não chega o futuro, no entanto, quem escolheu a profissão está se defrontando com a crise e se virando. A propósito, a socióloga Liliana Segnini, responsável pela pesquisa, ressalta o papel fundamental do Estado na condição de fomentador, e compara o atual período aos anos 30, quando o estado cumpria também esse tipo de função.

Mas há uma diferença: nos anos 30, o músico popular, com o advento do rádio e das primeiras gravadoras no Brasil, estava começando a se profissionalizar. Era o início de um novo tempo, a "era de ouro da música popular brasileira", sem exagero. Noel Rosa, Carmem Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Caymmi, Ary Barroso, Braguinha e mais uma infinidade de nomes são os representantes de um período em que havia uma consonância entre público e artistas. O trabalho dos artistas era veiculado pelo rádio, o público crescia e, é bom que se diga, o centro polarizador era a capital do país, o Rio de Janeiro.

O Rio não é mais a capital, tenta-se criar pólos no resto do Brasil, há muito mais gente fazendo música e o Estado parece mais um tapa-buracos na tentativa de suprir a lacuna entre os artistas e a platéia, além de se estar criando, com a política de editais, uma indústria cheia de vícios, assunto do qual já falei na minha coluna retrasada. Com tudo que foi construído desde os anos 30 até hoje, parece que vivemos um período de avanço ou retrocesso? Sem a pretensão de esgotar o assunto, não respondo, só pergunto...


Paquito é músico e produtor.


Texto publicado originalmente no site "TerraMegazine".

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