Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O ser humano e "a indesejada das gentes"

Charge: Kiko / JB, 02-06-2009
Um abraço viajou a bordo do vôo 447

Por Marcelo Migliaccio

O acidente com o avião da Air France está nas primeiras páginas de todos os jornais do mundo. No Rio, de onde a aeronave partiu, as pessoas estão chocadas.

Ontem, estive na porta do Hotel Windsor Barra, onde parentes e amigos de vítimas da tragédia foram em busca de informações da companhia francesa.

O ser humano tem as reações mais diversas e imprevisíveis quando confrontado com a morte. Apesar de ser o único animal que sabe que sua vida será finita, em sua maioria não se conforma quando dá de cara com a "indesejada das gentes", como tão bem a definiu o poeta Manoel Bandeira.

E a função de jornalista tem o seu pior momento quando precisamos entrevistar pessoas que estão em meio ao turbilhão e ao choque de perder um ente querido. Nada é pior na nossa carreira.

Conversei por telefone com o Newton Marinho, irmão do mecânico de engrenagem Nelson Marinho, um dos passageiros do vôo 447.

Em estado de choque, ele ainda conseguia concatenar o pensamento. O pior sempre vem depois da confirmação definitiva, quando a pessoa se vê sozinha, cai em si e assimila que aquela perda é para sempre. Até então, o avião estava "desaparecido" e sempre há uma esperança a ser cultivada no coração de quem sofre, por mais improvável que seja.

"Meu irmão nunca teve o costume de me abraçar", disse-me Newton, "mas antes de seguir para o aerporto com a esposa, me deu um forte abraço".

A emoção tomou conta do telefonema.

Newton se recompõe e conta que o irmão era espírita, enquanto ele não segue formalmente nenhuma religião.

Talvez aquele abraço o transforme em outra pessoa daqui por diante.

Mas eu, com certeza, não sou o mesmo de antes da nossa conversa telefônica.


Marcelo Migliaccio é jornalista.

Texto publicado originalmente no blog "Rio Acima", de Marcelo Migliaccio.

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