Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Brasil e os sons da infância

Foto: UFMG
Coluna Econômica, por Luís Nassif
(em 19/04/2009)

No meio da entrevista para falar do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em Belo Horizonte, a Ministra Dilma Roussef embatucou. Começou a falar de Minas, do sotaque de Minas, dos sons da sua infância e balançou.



A Ministra era leitora das crônicas que eu escrevia aos domingos na Folha, especialmente as que falavam de Minas. Em um encontro recente, presenteei-a com “A Casa da Minha Infância”, lançado no final do ano passado com algumas das crônicas familiares. Antes de começar a entrevista, ela começou a folhear o livro, procurando coisas por lá, uns cinco minutos folheando, até eu perceber o que ela procurava: Minas e trechos que pudessem lembrar a casa da sua infância.

Disse-lhe, então, que, desde que nossa casa foi vendida em Poços e me mudei da cidade, nunca mais substitui a casa da minha infância. Era como se tivesse sido inquilino de todas as outras. Ela ficou em silêncio, balançou a cabeça concordando e admitiu que, com ela ocorreu o mesmo. Até hoje está atrás da casa da sua infância.

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Lembro-me quando escrevi a crônica “Ritual da passagem”, imaginando a cena da morte, com as diversas gerações reunidas no mesmo ambiente e o ponto nobre da mesa ocupado por meu pai e meu avô, do Delfim me enviar um email emocionado. Me surpreendi com a manifestação de um homem que viu de tudo na vida, um cético militante em relação à natureza humana.

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Para nós, esses reencontros e afastamentos permanentes com a infância dói. Imagino nas figuras públicas, sabendo que, depois de feita a opção, terão apenas alguns minutos por semana, nos intervalos do dia-a-dia massacrante, para celebrarem, sozinhos, o acervo de afetos da infância. Imagino o Serra lembrando da banca do seu pai no mercado, o Lula lembrando do regaço materno para compensar a miséria e a fome, o Aécio lembrando o avô contando histórias da vida, o Ciro rememorando a saga familiar.

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Por trás dessas rememorações, há o elo, o vínculo com as gerações anteriores, com os princípios que ajudaram a construir e a passar para frente, com esse acervo de emoções, valores e histórias. É assim que se formam povos e se constroem nações.

No fundo, o trabalho diário para melhorar o país, é como uma homenagem, uma prestação de contas, um compromisso com os que vieram antes. É como se disséssemos a eles: pegamos o bastão e não vamos deixar a peteca cair. Fiquem sossegados que trataremos de entregar um país melhor aos seus netos e bisnetos.

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Nessas últimas décadas, os valores nacionais foram jogados de lado. Uma falsa noção de internacionalismo julgava a última moda a crítica impiedosa ao Brasil, ao modo de ser brasileiro.

Com o fim do ciclo financeiro, ocorre uma redescoberta dos valores nacionais, volta o “orgulho de ser brasileiro”. É esse sentimento, são os sons da infância, são as recordações das cantigas infantis, a lembrança dos pitos paternos, dos conselhos maternos que vão construindo a escala de valores que permitirá ao país, a cada geração, tocar o bonde e sonhar com avanços, com progresso, com redução das desigualdades sociais.


Luís Nassif é jornalista.


Texto publicado originalmente, em 19/04/2009, no "Portal Luís Nassif".


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=> Eis aí um colunista de economia! Sim, economia (do grego: "costumes de uma casa") é ciência SOCIAL, minha gente! Ah, se 1/3 dos ditos colunistas econômicos deste país tivessem a sensibilidade de Luís Nassif! Eu acabaria sempre minhas leituras matutinas com vontade de aplaudir de pé, como agora, e não com a vontade de jogar os jornais pela janela, como tenho tido todos os dias.

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