Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Nos traços da história: 3 de junho de 1989 — Massacre na Praça da Paz Celestial

Foto: AP
Os protestos estudantis em Pequim, que culminaram com o massacre na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) começaram em abril com a morte de Hu Yaobang, ex-secretário geral do Partido Comunista chinês. Yaobang havia sido expulso do governo por Deng Xiaoping em 1987 por ser considerado um liberal reformista. Na semana seguinte, durante o funeral do político, um grupo de estudantes se reuniu na Praça da Paz Celestial e reivindicou um encontro com o primeiro-ministro Li Peng. O pedido foi negado. Então, os estudantes incitaram uma greve nas universidades da capital chinesa. O número de manifestantes foi aumentando a cada dia. No início eram 500, mas no auge dos protestos somavam mais de 100 mil, incluindo intelectuais, operários e camponeses, que queriam liberdade de expressão, emprego e o fim da corrupção no governo.

Em 20 de maio, o governo declarou a lei marcial, o que não surtiu efeito. Na noite de 3 de junho, tropas do exército, tanques e canhões cercaram a Praça Tiananmen para dissolver o protesto, numa demonstração exagerada de força. As luzes foram apagadas e os manifestantes desarmados lutaram com os soldados. Nenhuma autoridade do governo assumiu a ordem de atacar o povo. Deng Xiaoping e Li Peng não vieram a público para justificar a brutalidade. Houve rumores de guerra civil.

A violência do massacre e a ausência de políticos para se responsabilizar pela ordem do ataque chocou a população chinesa. O número de vítimas não foi esclarecido pelo governo. Estimativas não oficiais calcularam 2 mil mortos e 10 mil feridos. Depois do conflito, soldados do chamado Exército do Povo, antes reverenciados como heróis por desenvolver trabalhos sociais, passaram a ser xingados de fascistas e assassinos.

Em 4 de Junho daquele mesmo ano, o mundo assistiu a um duelo: homem versus tanques

Foto: Bettmann / Corbis

No dia seguinte da batalha na Praça da Paz Celestial uma cena, que não durou mais que alguns minutos, tornou-se um ícone da convulsão social deflagrada na China. Um homem até hoje não identificado, sozinho e desarmado, desafiou uma coluna de tanques na Praça Tiananmen. Depois de colocar-se exatamente na linha de avanço dos veículos, o homem foi caminhando, calmo e ritmado na direção dos blindados. Houve um ligeiro desvio por parte dos militares para sair da rota de colisão com o homem, mas ele não desistiu. Acompanhou a mudança de direção da coluna e voltou a encarar os tanques. Isto se repetiu outra vez, e finalmente os blindados pararam completamente. O homem subiu então no primeiro deles, e batendo com os punhos em sua carcaça, gritou: Fascistas, fascistas. Desceu, e foi elevado por outros manifestantes para um canto. As imagens correram o mundo.

O texto acima foi publicado originalmente no JB de hoje, 3 de Junho de 2009.

==> A acrescentar há ainda parte de um texto publicado na revista "Aventuras na História", edição 71, deste mês de Junho de 2009, sobre o mesmo assunto, que diz: "Acredita-se que o manifestante que enfrentou os tanques esteja vivo. Se tivesse sido preso ou morto, o movimento estudantil saberia. A prova de sua integridade física seria uma excelente propaganda política, o que talvez o tenha motivado a permanecer incógnito. O piloto do tanque tinha permissão para atropelar e não o fez. Quem era e o que aconteceu com ele é outro mistério, cuja resposta só o governo chinês possui, e não tem intenção de revelar."

Nenhum comentário:

"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

Este blog adota a