Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 14 de junho de 2009

Meio Leila Diniz

Foto: Divulgação
Inesquecível

Por Mirian Goldenberg

Quando perguntei para alguns dos homens das camadas médias do Rio de Janeiro que pesquisei: "Existe alguma mulher inesquecível na sua vida?", tive muitas respostas do tipo: "Minha ex-mulher, ela é a mulher da minha vida"; "Minha esposa, ela me fez crescer como homem"; "Minha ex-namorada, eu aprendi muito com ela" ou "Minha namorada, ela me transformou em um outro homem".

Ouvi dos meus pesquisados a seguinte máxima: o homem brasileiro quer ser o primeiro na vida de uma mulher; já a mulher brasileira quer ser a única na vida de um homem.

A mulher inesquecível, para eles, é aquela que ensina, transforma, instiga, provoca, desafia. Não é alguém que quer mudar o marido ou namorado com suas reclamações, cobranças e exigências. Os homens que pesquisei não gostam de mulheres que demandam ou cobram muito. Eles querem mudar espontaneamente, para corresponder ao que será amado, admirado ou reconhecido pela "mulher da minha vida".

Uma ideia recorrente aparece nos seus depoimentos sobre a mulher inesquecível: "Ela me ensinou a ser alguém que eu sempre quis ser", que se traduz em diferentes âmbitos: "Ela me fez estudar o que sempre quis estudar, mas achava que não tinha capacidade"; "Ela me fez investir muito mais seriamente no meu trabalho"; "Ela mudou completamente o meu modo de vestir e de agir, eu era muito infantil antes dela"; "Ela me abriu o mundo da filosofia e dos livros"; "Se hoje estou fazendo doutorado, é mérito dela, eu nunca conseguiria sozinho".

Há uma característica fundamental para se tornar uma mulher inesquecível: ela deve provocar a admiração do parceiro, muito mais do que o desejo. "Você é a mulher que eu mais admiro neste mundo", disse o marido de Mônica, no meu livro Infiel. "Eu sempre te amei, te amo e vou te amar, sempre, você é o grande amor da minha vida".

A mulher inesquecível não é necessariamente bonita, jovem, gostosa ou boa de cama, dizem. Outros capitais parecem ser muito mais importantes para uma mulher se tornar inesquecível: a capacidade de ensinar algo, de mudar a visão de mundo, de introduzir a mundos novos, de ser companheira, cúmplice, carinhosa, atenciosa, compreensiva. O poder que ela tem decorre do parceiro acreditar que se tornou um homem melhor do que era antes de conhecê-la. Há uma ruptura com um passado em que ele era outro homem, com menos conhecimento, maturidade, realização.

É só abrir uma das inúmeras revistas femininas e ler os depoimentos de mulheres famosas sobre os seus namorados e maridos com "os olhos brilhando": "Ele me faz sentir que eu sou a mulher mais especial do mundo". É isso também o que dizem as "outras" que pesquisei para justificar seus papéis de amantes de homens casados: "Eu sou a única, a número um, a especial, a verdadeira. Ele só está com a esposa por obrigação".

O filme de Domingos de Oliveira Todas as mulheres do mundo mostra o conflito de Paulo (interpretado por Paulo José), que abre mão de todas as mulheres do mundo para escolher só uma: Maria Alice (interpretada por Leila Diniz). Leila Diniz, como aparece nos depoimentos do meu livro Toda mulher é meio Leila Diniz, foi e é inesquecível porque fez com que os homens com quem namorou mudassem sua forma de ser e de lidar com as mulheres. Tornou-se inesquecível também para os amigos e amigas porque provocou uma verdadeira revolução em suas vidas, especialmente no que diz respeito à liberdade sexual e à vivência dos afetos.

E por que as mulheres brasileiras desejam tanto serem as únicas? Acredito que escondido no desejo de ser inesquecível está evidente o medo da morte física ou simbólica. O medo de ser esquecida, ignorada, invisível para os homens, especialmente quando envelhecem. Medo que assombra inúmeras mulheres que pesquisei: medo da invisibilidade. Viver para sempre na memória e lembrança de um homem que acha que encontrou "a mulher da minha vida" protege da morte simbólica. A mulher inesquecível torna-se imortal ao ser amada de uma forma única, ao conquistar o lugar de "a mulher da minha vida".

Ser bonita ou interessante não basta para ser inesquecível. Ser sexy ou gostosa também não. É algo que deve marcar a ferro e fogo a vida de um homem, um lugar que não será ameaçado por outras mulheres. É um lugar para uma única mulher, para uma mulher única, para sempre.

O que quer uma mulher? Ser única, inesquecível ou... imortal?


Mirian Goldenberg é antropóloga.


Texto publicado originalmente no JB de hoje, 14 de Junho de 2009.


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