Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sábado, 6 de junho de 2009

A literatura infantil em festa

Aniversário em dose dupla

Duas das principais autoras brasileiras para crianças comemoram 40 anos de carreira

Foto: Arquivo Pessoal

A sugestão era que uma entrevistasse a outra. Mas Ana Maria retrucou:

– Depois de 40 anos de amizade, tudo o que eu queria perguntar à Ruth, já perguntei.

Isso resume o quanto Ana Maria Machado e Ruth Rocha, duas das maiores autoras brasileiras de livros infantis, e amigas há tempos, se conhecem. Ficou combinado então que cada uma escreveria um depoimento sobre a obra da companheira, que resultou nos dois belos relatos abaixo.

Pois, ainda mais redondo que o aniversário de amizade das duas, é a marca dos 40 anos de carreira que elas comemoram agora – cada uma a seu modo. Ana Maria aproveita a ocasião para estrear nos versos, com o livro Sinais do mar. E Ruth acaba de assinar um contrato de exclusividade com a editora Salamandra, que pretende relançar todos os seus 130 livros, pelo selo Biblioteca Ruth Rocha. Para o 11º Salão FNLIJ, chegam reedições de alguns de seus títulos mais antigos, como A arca de Noé e O trenzinho de Nicolau, entre outros, além de mais recentes, como Nosso amigo ventinho e Borba, o gato.

Ao escreverem os depoimentos abaixo, tinham como meta a pergunta "Como Ana/Ruth ajudaram a mudar a literatura infanto-juvenil brasileira?". Porque, ao abordar ambas trajetórias, é necessário tocar na mudança de ares que viveu o gênero exatamente há 40 anos, quando Ana, Ruth e nomes como Joel Rufino dos Santos, entre outros, começaram a publicar suas histórias na revista Recreio. Enquanto isso, Ziraldo lançava o Flicts, e João Carlos Marinho publicava O gênio do crime.

Como explica Ana Maria, isso foi no tempo em que a ditadura se consolidou no Brasil. Reprimidos pela censura, os intelectuais "aprofundaram uma linguagem simbólica e metafórica, em histórias voltadas para um público que não atraía a atenção dos censores".

A renovação da literatura infantil também está na pauta do salão: é tema de seminário, em 16 de junho. No mesmo dia, juntas, Ana Maria e Ruth autografam seus livros.

Foto: Fábio Machado
Ana Maria por Ruth

Ana Maria Machado (foto) é uma grande escritora. Teve formação sólida em literatura, lastreada por muita leitura e muito estudo.

Sua tese sobre Guimarães Rosa, que ela desenvolveu na França, tendo como guia ninguém menos que Roland Barthes, é um estudo absolutamente original e nos induz a percorrer as veredas do mestre e a decifrar seus recados.

Pertence a uma família de gente especial, inteligente, talentosa, e realizadora, na qual sempre esteve presente a preocupação pelos problemas sociais.

Ana Maria teve uma avó que lhe contava histórias e isso, eu sei por experiência própria, é um privilégio inigualável no sentido de desenvolver a fantasia e o gosto pelas histórias.

Tudo isso Ana Maria trouxe para a literatura para jovens e crianças.

Sua escrita impecável, seu amor pela palavra, sua imaginação criadora, sua preocupação pelos problemas sociais.

E além de tudo isso trouxe para mim, apesar de ser muito mais moça que eu, um exemplo poderoso de fertilidade intelectual e uma amizade maravilhosa que é um dos meus tesouros.

Foto: Miguel Boyayan
Ruth por Ana Maria

Para entender o que é a novidade da obra de Ruth Rocha (foto) na literatura infanto-juvenil brasileira, é essencial lembrar seu contexto. Por um lado, ela não está sozinha. Insere-se num momento de estreia de outros grandes escritores que começaram a produzir logo depois do AI-5, quando se consolidou a ditadura no Brasil. Intelectuais que não podiam se manifestar de outra forma e não conseguiam deixar de se manifestar acabaram escoando por aí sua criação. Como ocorreu com a música popular. Aprofundaram uma linguagem simbólica e metafórica, em histórias voltadas para um público que não atraía a atenção dos censores.

Por outro lado, já fazia 20 anos que Monteiro Lobato tinha morrido. Durante esse tempo, proliferaram seguidores que tentavam imitá-lo e não davam passos adiante. Já estava na hora de que seu antigos leitores se pusessem de pé e levassem à frente o legado dele recebido. Sem imitação.

Como Lobato, Ruth leu muito, variado, tem uma cultura geral fantástica e uma formação humanística rara. Graduada em sociologia e política, especializou-se em orientação educacional e acrescentou uma sólida visão de psicologia e pedagogia à bagagem que já trazia. Em sua obra, não havia o menor risco de que a literatura infantil se apequenasse. Então ela nos traz uma visão crítica do mundo, sem diminutivos, carregada de alusões culturais sofisticadas e de ecos da tradição oral, ao mesmo tempo que se expressa com muito humor e toques poéticos. Suas histórias têm uma aparência simples, uma superfície quase ingênua, constituída pelo uso lúdico da linguagem, pelas rimas, aliterações, pelo recurso às expressões populares e às matrizes da oralidade. Crianças muito pequenas encontram nelas muito para se divertir, se emocionar e pensar. Mas à medida que vão crescendo, descobrem as profundezas, camadas insuspeitadas naquela mesma história, que convidam a formular juizos críticos sobre os episódios aparentemente corriqueiros de suas vidas. Não há melhor maneira de se colocar diante de um cânone – reconhecer seu legado, aceitar seu desafio e dialogar com ele. É isso o que Ruth Rocha ajuda a trazer para nossa literatura infanto-juvenil, em sua permanente exigência de um sorriso largo e um olhar atento e sutil. Não sei se de filha de Lobato. Mas, com toda certeza, de irmã da Emília.


Texto publicado originalmente no caderno "Ideias&Livros" do
JB de hoje, 06 de Junho de 2009.

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