Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Economia e política internacional: Brasil, Rússia, Índia e China

Foto: Fernando Donasci / Folha Imagem
Em Ecaterimburgo, os Bric atingem sua maioridade

Por Luís Inácio Lula da Silva

Nós nos destacamos nos últimos anos porque nossas quatro economias têm mostrado crescimento robusto A cidade de Ecaterimburgo, na Rússia, recebe hoje os líderes de Brasil, Rússia, Índia e China - os chamados Bric -, que realizam seu primeiro encontro.

Essa reunião celebra mais que apenas a primeira cúpula dos Bric. Ela marca uma profunda mudança na maneira pela qual nossos países se engajam em um mundo que experimenta profundas mudanças.

Em Ecaterimburgo, selaremos um compromisso que objetiva trazer novas respostas a velhos problemas e oferecer uma liderança corajosa para enfrentarmos a inércia e a indecisão.

Afinal, o mundo enfrenta hoje desafios de grande complexidade, mas que exigem respostas urgentes. Estamos diante de ameaças que nos afetam a todos - para as quais alguns muito contribuíram, enquanto outros se veem na posição de vítimas inocentes de suas consequências.

Mas vivemos entre paradigmas superados e instituições multilaterais desacreditadas. A atual crise econômica apenas aumenta um sentimento crescente de perplexidade e impotência diante da mudança do clima e do risco de escassez mundial de alimentos e energia. Claramente, a sociedade moderna precisa repensar um sistema que, de forma acintosa, fomenta o desperdício dos recursos naturais e finitos da Terra, ao mesmo tempo que condena bilhões de pessoas à pobreza e ao desespero.

Essa é a razão pela qual, na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2008, eu afirmei que "é a hora da política". Chegou a hora de fazermos escolhas difíceis e de enfrentarmos responsabilidades coletivas.

Estarão os países ricos dispostos a aceitar supervisão supranacional e o controle do sistema financeiro internacional, de maneira a evitar o risco de outra crise econômica?

Estarão dispostos a ceder seu controle sobre as tomadas de decisão no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional (FMI)?

Concordarão em cobrir os custos da adaptação tecnológica para que as pessoas nos países em desenvolvimento possam se beneficiar dos progressos científicos sem ameaçar o meio ambiente global?

Eliminarão os subsídios protecionistas que tornam inviável a agricultura moderna em muitos países em desenvolvimento, ao deixar agricultores pobres à mercê de especuladores e doadores generosos?

Essas são as questões que os Bric querem ver respondidas.

É por isso que cobramos, durante a recente reunião do G-20, em Londres, que os países desenvolvidos comprometam-se com a reforma do sistema de votação e de cotas das instituições do sistema de Bretton Woods. Apenas assim a voz dos países em desenvolvimento será ouvida. Obtivemos também um compromisso de que será estabelecido um fundo que proverá apoio financeiro eficiente e rápido - livre de dogmas neoliberais - a países afetados por uma repentina queda em suas exportações ou pelo encolhimento do crédito.

Esse é apenas o primeiro passo de uma revisão nos fundamentos das políticas que gostaríamos de ver avançar na próxima reunião do G-20. Faremos todos os esforços para levar a Rodada de Desenvolvimento de Doha a uma conclusão rápida e equilibrada.

É igualmente urgente renovar as Nações Unidas, se queremos que as instituições multilaterais recuperem relevância. Postergar reformas, especialmente a do Conselho de Segurança, apenas servirá para erodir ainda mais a autoridade das instituições internacionais.

Em 2004, patrocinei o Plano de Ação contra a Fome da ONU. Fiquei contente ao saber que a segurança alimentar estará na agenda de Ecaterimburgo.

Essas iniciativas demonstram que os Bric são mais que um grupo de países grandes, unidos apenas pelo tamanho de suas economias, vastidão de seus recursos naturais e vontade de projetar seus valores e interesses.

Nós nos destacamos nos últimos anos porque nossas quatro economias têm mostrado crescimento robusto. O comércio entre nós cresceu 500% desde 2003. Isso ajuda a explicar porque hoje geramos 65% do crescimento global, o que faz dos Bric a principal esperança para uma rápida recuperação da recessão global.

Isso gera redobradas expectativas sobre os nossos quatro países, para que exerçam liderança responsável com o objetivo de reconstruir a governança global e o crescimento sustentado para todos. Trata-se de um desafio que, tenho certeza, todos aceitaremos. Digo isso porque, ao longo de minha carreira política, e em função de minha experiência como sindicalista, aprendi uma lição básica: para ser efetivo, não é suficiente estar certo ou ter a justiça a seu lado. Ninguém falará pelos fracos e vulneráveis a não ser que eles próprios se unam. Para ter sua voz realmente ouvida, mas de uma posição de imperturbável convicção respaldada por nosso peso político. Essa é uma tarefa e um compromisso que espero sejam assumidos pelos Bric em Ecaterimburgo.

Luiz Inácio Lula da Silva é presidente da República.

Artigo publicado originalmente no jornal "Valor Econômico", edição de 16/06/2009.

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