Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Taí uma das muitas histórias que você nunca vai encontrar no livro "Os irmãos Karamabloch"

Foto: abi.org
DE COMO ESCAPEI DE SER ROUBADO POR ADOLPHO BLOCH!

Moacir Japiassu

Foi olhar para a foto desse edifício vendido em leilão e me rever de terno azul à porta da Bloch Editores, a entrar no táxi que me levaria para nunca mais voltar àquele hospício. Acabara de ser demitido do cargo de chefe de Redação da revista Pais & Filhos por Pedro Jack Kapeller, o Jaquito, sobrinho de seu Adolpho. Era manhã de segunda-feira, depois da semana santa de 1970 e minha tão grave falta tinha sido dar folga ao pessoal a partir da quinta-feira anterior, depois do heróico fechamento de tantas e tantas páginas.

Vermelhos de tanto sol na praia de Ipanema, onde morávamos, eu e minha mulher e repórter da revista, Marcia Lobo, chegamos cedo e prontos para retomar o trabalho. À minha espera estava o chefe do Pessoal, Sammy-não-sei-de-que, o qual me disse:

-- Jaquito avisa que não gostou de você ter liberado a Redação e me mandou cortar quatro dias do seu salário – quinta, sexta, sábado e domingo.

-- Ele não pode cortar o domingo!

-- Mas mandou cortar.

-- Então diga a ele que vou cobrar na Justiça do Trabalho!

Meu recado deixou Jaquito furioso e a reação dele foi ordenar minha demissão ao diretor da revista, José-Itamar de Freitas, que ainda escutou estas palavras: “Minha vontade é ir até lá e quebrar a cara dele!”.

Itamar, impedido de interceder a meu favor para não complicar a situação e prejudicar Marcia, ainda empregada até aquele momento, aconselhou o sobrinho a não cometer tal desatino -- e assim escapei de apanhar na cara, diante de minha equipe e dos funcionários das redações vizinhas que funcionavam no mesmo andar...

Nos dias subseqüentes, enquanto tentava convencer Marcia a permanecer um pouco mais de tempo na revista, pois ela insistia em pedir demissão, eu acertava um esquema paulistano com Murilo Felisberto, diretor de Redação do Jornal da Tarde.

Foi então que, para meu espanto, chegou um recado do próprio Adolpho Bloch, recado trazido pela Marcia; ele queria “fazer um acordo” comigo. Pensei na hora: “O sacana não quer pagar meu Fundo de Garantia”. Não deu outra. No dia seguinte, lá fui eu ao velho prédio da editora, vizinho (vejam só!) da Penitenciária Lemos de Brito, que hospedava alguns dos piores bandidos do Rio.

Logo na entrada, à esquerda, encontrei seu Adolpho com uma pasta às mãos. Atrás dele, encostado à parede, Paulo Pellicano, assessor do Departamento Jurídico da empresa, jazia em pé. Garanto que os cumprimentei com um animado bom-dia, porém seu Adolpho e o acólito não estavam ali para falsas gentilezas.

“Quero fazer um acordo com você. Esse Fundo de Garantia está muito alto”, enunciou ele; eu, que era e ainda sou meio estouvado e mantinha viva na memória a ameaça de agressão feita por Jaquito, nem quis escutar o resto e me escapou uma frase de quem não fez o curso do Instituto Rio Branco: “Não tem acordo, seu Adolpho. O filho da puta do Jaquito...”.

O dono daquilo tudo também não quis escutar o resto. O rosto de velho urso siberiano avermelhou-se. Ele bateu as duas mãos na mesa, trincou os dentes. Me lembrei da vez em que, ao substituir Zé-Itamar na direção de Pais&Filhos, incluí numa matéria algumas belas fotos de Walter Firmo e levei as páginas para que seu Adolpho as aprovasse. O homem enlouqueceu, arrancou os slides, mastigou alguns, pisoteou os demais e me olhou como um gauleiter de cidadezinha ocupada:

“Puta que pariu, caralho, porra! Já pedi pro Itamar não botar preto na revista, ele sai e vem você e bota preto!!!”

Seu Adolpho, russo de nascimento mas brasileiríssimo no linguajar do cais do porto, onde desembarcara no início do século, cevava os mais obscenos palavrões e os repetiu naquela inesquecível manhã do “acordo” para não me pagar o Fundo de Garantia.

“Filho da puta é você!”, esgoelou-se o homem. Atrás dele, pálido, o assessor balançava-se encostado à parede. Ao me levantar da cadeira, lancei àquela atmosfera imunda mais alguns insultos de nordestina lavra. Então saí para a manhã de sol e nunca mais vi Adolpho Bloch. Soube mais tarde que ele, nas vascas da danação, jogou no lixo a minha pasta de empregado, que abrigava a minha primeira carteira profissional cujos registros fizeram falta quando resolvi me aposentar.

Todavia, prometi a mim mesmo que o velho enxundioso e trapaceiro não iria ganhar aquela briga, apesar da estratégia que se seguiria à discussão e da qual tomei conhecimento quando fui assinar uns papéis no Departamento do Pessoal. O chefe Sammy-não-sei-de-que trazia no azeitonado rosto de beduíno o sorriso de satisfação de quem acabara de comer a Miss Brasil:

“Olha, teu Fundo de Garantia sai em 40 dias mas você só pode receber se for a São Paulo; tá depositado no Banco Cidade, que não tem agência aqui no Rio...”.

O caçambeiro do deserto perdeu a alegria com minha resposta:

“Mas que bom, Sammy! Vou assumir no Jornal da Tarde de São Paulo na semana que vem; quando o dinheiro chegar, já estarei na boca do caixa...”.

Marcia pediu demissão, mudamos de cidade e de vida e minhas primeiras semanas foram dedicadas à tentativa de receber o dinheiro que seu Adolpho me devia. Como a Redação do jornal ficava a poucos metros da Galeria Metrópole, onde o conluiado banco se escondia, eu lá estava a toda hora. Ameaçava quebrar a cara de alguém, como Jaquito fizera comigo; prometia enfiar uma reclamação contra o Banco Cidade na seção de cartas do JT e ainda dar parte à polícia. Nada.

Somente quando mandei um telegrama a seu Adolpho dando-lhe conta de que entraria na Justiça é que me foi pago o que me pertencia, não sem antes conhecer mais uma do descarado repertório blochiano: com o telegrama nas mãos, Jaquito foi procurar meu irmão, Celso Japiassu, na época diretor da Denison, agência que administrava a conta publicitária do Grupo Manchete. O sobrinho mostrou-lhe a mensagem na qual se lia URGENTE:

“Celso, teu irmão mandou isso pro Adolpho e ainda bem que interceptamos a tempo; o velho iria morrer do coração se lesse esse negócio. Por favor, pede a teu irmão pra parar com isso...”.

Celso, que não se meteria na briga de jeito nenhum, teve expediente para responder:

“Eu não posso fazer isso porque sou brigado com meu irmão; ele é meio doido, acho melhor pagar e esquecer...”.

Pagaram, mas não esqueceram. Anos mais tarde, consultado por Jaquito, que queria um jornalista para chefiar a sucursal da Manchete em São Paulo, alguém que me fugiu da memória sugeriu meu nome; o sobrinho arregalou os olhos: “Esse não, de jeito nenhum; o cara é doido, briga com todo mundo, brigou até com o irmão!!!”.

Moacir Japiassu é jornalista.

Texto originalmente publicado no blog de Moacir Japiassu.

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