Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

"Que país é este?", perguntava Renato Russo. "Ahhh, isso é relativo!", responderia Einstein.

Foto: cardcow.com collection (1945)


Era 29 de Maio do ano de 1919 e um eclipse total do astro rei, observado em Sobral, no Ceará, confirmava a mais famosa tese de Albert Einstein





A Teoria da Relatividade e o Brasil

Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão


Há 90 anos, duas comissões de cientistas ingleses e americanos se juntaram à de brasileiros para observar o eclipse do sol de 29 de maio de 1919; seus objetivos científicos eram bem diferentes. A meta mais importante era dos ingleses, que desejavam verificar experimentalmente as consequências da Teoria da Relatividade.

Não fosse a confirmação dessa teoria, durante o eclipse visto no Brasil, este seria mais um eclipse entre os muitos observados. Sua importância vem do fato de que só a partir dessa época a Teoria da Relatividade e seu autor se tornaram universalmente conhecidos, tanto no meio científico como entre os leigos. Parece que a confirmação, através de um fenômeno astronômico que sempre foi cercado por uma atmosfera de magia, seguramente facilitou a enorme popularidade que desde então envolve a Teoria da Relatividade e a figura do seu criador, Albert Einstein.

Desvio da luz

A comissão inglesa pretendia comprovar a previsão de Einstein, segundo a qual os raios luminosos, ao passarem próximo ao sol, deveriam sofrer um desvio duas vezes superior ao previsto pela teoria de Newton. Para verificar a realidade dessa conclusão einsteiniana, publicada em novembro de 1915, a Comissão Permanente de Eclipse da Royal Society e da Royal Astronomical Society decidiu organizar duas expedições.

As estações selecionadas, na linha de totalidade do eclipse, compreendiam a cidade de Sobral, no Ceará, e a Ilha de Príncipe, no Golfo da Guiné, na África. Para a primeira estação foram enviados os astrônomos A.C.D. Crommelin, e C.R. Davidson, e, para a segunda, os astrônomos Cottingham e Eddington. Todos esses pesquisadores ingleses pertenciam ao Observatório Real de Greenwich, e os instrumentos, aos observatórios de Greenwich e Oxford.

A comissão inglesa chegou ao Pará a 5 de abril, pelo transatlântico Anselm. Deixou o porto de Belém em 24 de abril, no vapor Fortaleza, em direção à cidade de Camocim, onde chegaram após uma viagem de cinco dias. De Camocim a Sobral, o transporte se fez nos vagões da Estrada de Ferro Viação Cearense.

Logo que chegou a Sobral, a comissão inglesa começou a construção das colunas que iriam suportar os celóstatos e os tubos das câmaras astrofotográficas. Os cientistas brasileiros, que haviam partido do Rio de Janeiro no dia 25 de abril, só chegaram a Fortaleza em 4 de maio. Dois dias depois estavam em Sobral. A nossa comissão era chefiada pelo astrônomo Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional.

Entre os ingleses era grande a esperança de sucesso, uma vez que o eclipse do dia 29 de maio seria um dos mais favoráveis para comprovar a teoria de Einstein; além de a totalidade levar quase seis minutos, o eclipse iria ocorrer numa região do céu onde havia um grande número de estrelas muito brilhantes.

No dia 29 de maio o céu amanheceu completamente encoberto. Às 8h25, uma abertura entre as nuvens permitiu ver o eclipse. Para alegria geral, às 8h52 ocorreu uma grande abertura onde se achava o sol. Teve início uma série de fotografias. O eclipse realmente tinha sido um sucesso no Brasil. Por outro lado, na Ilha de Príncipe, as nuvens haviam encoberto o disco solar. Assim, enquanto Eddington informava por telegrama à Royal Society que tinha esperanças de aproveitar algumas das fotografias obtidas em Príncipe, Crommelin, que fez a observação no Ceará, telegrafava: "Eclipse esplêndido". Davidson conseguiu, em Sobral, sucesso em 15 de suas 18 exposições e Crommelin, em sete de suas oito tentativas.

Dois dias depois do eclipse, a comissão inglesa dirigiu-se a Fortaleza, voltando a Sobral em meados de julho para obter as fotografias da região do campo estelar ocupado pelo sol durante o eclipse. Essas fotografias, obtidas em julho, antes do nascer do sol, foram utilizadas para comparação com as outras, nas quais havia sol oculto pela Lua. Nessas fotos, como não havia a presença do sol, não deveria haver nenhum desvio. Quase dois meses depois do eclipse, Crommelin e Davidson dirigiam-se, a bordo do vapor Fortaleza, do Maranhão ao Pará, de onde embarcaram no transatlântico Polycarp para Liverpool.

Logo que as placas chegaram a Greenwich, os astrônomos Davidson e Furnar iniciaram a medida das placas fotográficas. Segundo um relatório preliminar de Eddington à reunião da Associação Britânica realizada em Bournemouth de 9 a 13 de setembro, da deflexão da luz situava-se entre 0,87 segundo de arco e o dobro deste valor. Esta notícia provisória do sucesso desta missão foi comunicada a Einstein no fim do mês de setembro de 1919, por um telegrama do seu amigo, o físico holandês Hendrik Antoon Lorentz (1853 -1928), de Leiden, onde a informação chegou trazida por Van del Pol, que havia participado da conferência de Bournemouth.

Em carta à mãe, cientista comemorou feito no país

Antes mesmo que um resultado definitivo fosse anunciado, uma primeira notícia sobre os resultados do eclipse de 1919, confirmando o desvio da luz previsto pela Teoria da Relatividade, foi publicada no Berliner Tageblatt de 8 de outubro de 1919. Acredita-se que o jornalista Alexander Moszkowski, autor deste artigo intitulado "Die Sonne brach’es anden Tag", baseou-se em informações fornecidas por Einstein que, antes de 27 de setembro de 1919, data de sua carta postal na qual comunicou à sua mãe, que o eclipse observado no Brasil havia confirmado a sua teoria.

Depois de quase três meses de trabalho minucioso, convocou-se, a 6 de novembro, uma reunião conjunta da Comissão do Eclipse da Royal Society e da Royal Astronomical Society. Coube ao astrônomo real, sir Frank Dyson, anunciar que os resultados das medidas confirmaram as previsões de Einstein.

Com base em duas medidas feitas para cada fotografia, o valor previsto de um desvio de 1,75 segundos de arco para r0 = R, sendo R o raio do Sol, as medidas forneceram os seguintes valores: Sobral: 1,98 mais ou menos 0,12 segundos de arco. Príncipe: 1,61 mais ou menos 0,30 segundos de arco. No dia seguinte, entre as manchetes do Times, de Londres, encontrava-se a seguinte: "Uma revolução na ciência. As ideias de Newton estão arruinadas"

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo.

Texto publicado originalmente no JB de hoje, 28 de Maio de 2009.

Nenhum comentário:

"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

Este blog adota a