Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

"Nosso mundo é mais estável do que parece"

Foto: NewsWeek
O céu não vai desabar sobre nossa cabeça

Fareed Zakaria

Certamente está parecendo outro exemplo de alarme falso. Depois de nos prepararmos para uma pandemia global, acabamos tendo uma coisa mais parecida com uma gripe sazonal de praxe. Há três semanas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de emergência ao advertir os países para se “prepararem para uma pandemia”. Funcionários graduados profetizaram que milhões de pessoas poderiam ser infectadas pela doença.

Mas até a semana passada a OMS havia confirmado apenas 4.800 casos de gripe suína, com 61 mortes. Esses números baixos são uma surpresa agradável, mas isso leva a pensar por que as previsões de pandemia acabaram mostrando-se exageradas? Alguns culpam a mídia, mas seria difícil ignorar organizações internacionais importantes se elas estavam alertando para uma catástrofe. Acho que há um erro mais abrangente na forma como olhamos para o mundo. Quando vemos um problema, podemos descrevê-lo em detalhe e calcular as consequências possíveis. Mas raramente podemos antecipar a reação humana a uma crise.

A gripe suína, por exemplo. O vírus tinha características que levaram os pesquisadores a ficar preocupados que pudesse se espalhar muito rápido. Eles descreveram – e a mídia relatou – o que aconteceria se não fossem tomadas as devidas providências. Mas as providências foram tomadas. Houve uma reação vigorosa no epicentro da gripe suína, o México. O governo mexicano reagiu rapidamente e em grande escala, colocando em quarentena a população infectada, fazendo testes, fornecendo medicamentos. A renomada especialista Laurie Garrett diz: “Deveríamos todos gritar ‘Gracias, México!’, porque a população e o governo mexicano sacrificaram-se. Eles fecharam escolas, o comércio, os restaurantes, as igrejas e suspenderam eventos esportivos. Paralisaram a economia, perderam bilhões de dólares, mas conseguiram parar a transmissão”.

Nosso mundo é mais estável do que parece, como mostra o alarme falso em torno da gripe suína.

Toda a vez que um desses vírus é detectado, jornalistas e autoridades trazem à baila a gripe espanhola de 1918, em que milhões de pessoas morreram. Mas o mundo em que vivemos hoje não é nada parecido com o de 1918. Os sistemas de saúde pública são muito melhores e mais abrangentes do que qualquer coisa que existia durante a Primeira Guerra Mundial. O México tem um sistema de saúde muito melhor que o Reino Unido ou a França tinham no início do século XX.

É possível ver esse mesmo erro em discussões sobre a crise econômica global. Nos últimos seis meses, a indústria do juízo final está a toda. Economistas competem entre si para descrever a próxima Crise de 29. Só que o mundo em que vivemos guarda poucas semelhanças com o dos anos 30. A riqueza é muito maior e mais bem distribuída nas sociedades ocidentais, as classes médias podem suportar a perda de emprego de uma forma que não podiam. E os benefícios governamentais – que não existiam nos anos 30 – têm papel importante em amortecer a desaceleração econômica.

A maior diferença entre os anos 30 e hoje, no entanto, é a reação humana. Governos do mundo inteiro reagiram em uma escala e velocidade impressionantes, baixando as taxas de juros, recapitalizando bancos e fazendo orçamentos de grandes gastos. Os pacotes de estímulo fiscal estão na casa dos US$ 2 trilhões.Os bancos centrais injetaram quantias de dinheiro muito maiores na economia. Enquanto debatemos as minúcias de cada ação, a realidade é que os governos investiram mais do que o suficiente e suas ações começam a fazer efeito. Isso não quer dizer que a recuperação vai ser indolor. Mas quer dizer, sim, que deveríamos aposentar as analogias com a Crise de 29, na qual quem tomava decisões fazia tudo errado.

Vivemos em um mundo perigoso. Mas também vivemos em um mundo em que forças estruturais profundas criam estabilidade. Aprendemos com a história e construímos mecanismos eficientes para lidar com crises. Quer dizer que não deveríamos entrar em pânico? Sim, mas sem esquecer que o senso de urgência faz as pessoas agir e assegura que uma crise não se transforme em um desastre. Eis o paradoxo: se os que decidem as políticas não estivessem com medo de uma nova Crise de 29, poderia ter acontecido uma.


Fareed Zakaria é editor-chefe da edição internacional da revista Newsweek.


Texto originalmente publicado na revista "Época", nº 575, edição dupla de aniversário, 25 de Maio de 2009.

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