Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sábado, 30 de maio de 2009

Nos traços da história - 30 de maio de 1994 - Um lingüista pela paz

Foto: Sam Javanrouch / Topleftpixel
Imagem: CpDoc JB
Sobre a guerra no Timor-Leste

Por Denise de Almeida

Em 30 de Maio de 1994, o linguista Noam Chomsky defendeu o direito à independência da ex-colônia portuguesa Timor-Leste durante um jantar beneficente realizado no castelo São Jorge, em Lisboa. O país ocupa a parte oriental da ilha de Timor, entre a Indonésia e a Austrália.

Mal Portugal se retirou em 1975, depois de 500 anos de colonização, o Timor-Leste foi invadido pela vizinha Indonésia, armada pelos Estados Unidos. A partir de então os timorenses passaram a viver sob a ditadura sangrenta do general Suharto.

A base do conflito foi o tratado de exploração de petróleo do Timor Gap, assinado entre a Indonésia e a Austrália. O mar do Timor é riquíssimo em petróleo apesar de a população viver em extrema pobreza.

Chomsky elogiou a coragem de dois jornalistas que registraram o massacre do cemitério de Santa Cruz, na capital Díli, em que as tropas da Indonésia assassinaram centenas de timorenses. Pela primeira vez em 20 anos a causa da independência de Timor e a denúncia do genocídio contra o povo de Timor-Leste foi divulgada para além das fronteiras do país.

O linguista condenou o silêncio da comunidade internacional em relação ao que ele considerou como um dos maiores genocídios deste século. Segundo Chomsky, a Indonésia dizimou, ao longo de 19 anos, por fome, medo ou barbárie 350 mil pessoas. "Propocionalmente mais do que Pol Pot matou no Camboja". A população fugiu para as montanhas e resistiu à dominação mesmo depois da prisão do líder guerrilheiro, o poeta e ex-operário Xanana Gusmão.

Entretanto, a visita do Papa João Paulo II ao país em 1989 deu novo ânimo à luta pela liberdade. A causa do Timor-Leste teve nova repercussão e reconhecimento mundial com a atribuição do Prêmio Nobel da Paz ao bispo Carlos Ximenes Belo e a José Ramos Horta em outubro de 1996. No ano seguinte o presidente sul-africano Nelson Mandela visitaria Xanana Gusmão, na prisão.

Primeiro país a surgir no século 21
O desfecho do conflito veio com a crise na economia da Ásia, que afetou duramente a Indonésia e motivou a queda, em 1998 do regime militar de Suharto. O seu sucessor, Ahmad Badawi, promoveu a abertura política no país.

O caminho para a independência foi aberto em agosto de 1999, quando a maioria dos timorenses compareceu às urnas para votar pela separação da Indonésia, mesmo sob ameaça de grupos de milícias contrários à divisão. Em represália, os milicianos, com o apoio da Indonésia, empreenderam um banho de sangue com incêndios, pilhagens e assassinatos, que só terminaram com a intervenção das forças armadas das Nações Unidas.

A independência foi finalmente conquistada em 2002 e o Timor-Leste tornou-se o primeiro país a nascer no século 21.

Denise de Almeida é jornalista.

Texto publicado originalmente no JB de hoje, 30 de Maio de 2009.

Nenhum comentário:

"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

Este blog adota a