Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 31 de maio de 2009

A Folha de S. Paulo e sua "megalomania delirante"

NOVA LAMBANÇA DA "FOLHA": NÃO DÁ PRA NÃO RIR...

Celso Lungaretti

A Folha de S. Paulo é um jornal que perdeu o rumo. Está à deriva.

Pois, embora não se veja nenhum interesse nas ruas pela concessão de um terceiro mandato consecutivo ao presidente Lula, a Folha se ao trabalho de realizar, por meio do DataFolha, uma pesquisa sobre essa possibilidade quase inexistente, por vários motivos:

Lula precisaria aceitar e, até agora, tem afirmado que não aceitará;
a Proposta de Emenda Constitucional foi apresentada por um parlamentar puxa-saco, mas, até agora, não conseguiu a adesão do número suficiente de congêneres necessário para que seja iniciada a tramitação;
para ser aprovada, precisaria da anuência de três quintos dos congressistas, número bem difícil de ser atingido;
a emenda estabelece a realização de um plebiscito em setembro, de resultado incerto;
eminentes juristas já avaliaram que a emenda é inconstitucional, portanto haveria uma batalha jurídica no caso de sua aprovação;
o PSDB e o DEM já declararam que usariam de todas as manobras facultadas pela legislação para retardar a tramitação da emenda, de forma a impossibilitar que esse roteiro seja cumprido até outubro, data final para a virada de mesa;
vários ministros do STF já anteciparam que, mesmo sendo tal pacote aprovado pelo Legislativo, acabará fulminado pelo Supremo.
Então, se o terceiro mandato consecutivo é uma aberração sob todos os pontos de vista e tem chance infinitesimal de virar realidade, por que o autoproclamado principal jornal do País lhe confere tamanho destaque a ponto de fazer dele a manchete da principal edição da semana, a de domingo?

Para piorar ainda mais a performance jornalística da Folha, no próprio título do seu editorial dominical o jornalão admite que se trata de um "assunto encerrado", mas com uma argumentação que é um verdadeiro primor de hipocrisia:

"...a proposta da 're-reeleição' para o presidente petista não alcança, pelos dados da pesquisa, densidade suficiente para se impor.

"Ao contrário: com 49% dos entrevistados contra a ideia, e 47% a seu favor, comprova-se acima de tudo o quanto haveria de arriscado na manobra.

A possibilidade de instituir-se uma fratura profunda de opiniões, em assunto diretamente ligado à estabilidade institucional, surge com clareza - e, do frio registro dos números às vicissitudes de um entrechoque real no debate público, certamente esse potencial divisivo tenderia a intensificar-se gravemente."
Ou seja, mais do que as sete razões acima alinhavadas, o que inviabilizaria mesmo o terceiro mandato é o resultado da pesquisa do DataFolha!

Ou seja, ou o jornal superestima alucinadamente sua importância ou está recorrendo a um malabarismo retórico para tentar justificar a manchete indefensável. Fico com a segunda opção: maquiavelismo de baixa categoria.

Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiro enlouquecem. Eis a melhor explicação para a nova lambança domingueira desse jornal que já se expusera ao ridículo absoluto no episódio da ficha policial falsificada de Dilma Rousseff.

A Folha está sofrendo de megalomania delirante, cujo sintoma mais evidente é essa obsessão em produzir factóides políticos que caem no vazio.


Celso Lungaretti é jornalista e escritor.

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