Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sábado, 30 de maio de 2009

A Folha de S. Paulo e a arte da cara de pau

Cara de pau tem limites: a nova campanha da Folha é puro descaramento
(O vídeo da campanha em questão pode ser visto clicando na imagem abaixo)

Conceição Oliveira

As assinaturas dos jornais não são em si importantes economicamente, mas elas dão credibilidade a um jornal para que este possa convencer anunciantes a publicarem e pagarem polpudas quantias para divulgar suas marcas e produtos. É por isso que perder anunciantes não é um bom negócio para qualquer jornal.

De modo geral, quando vemos campanhas agressivas de algum jornal em diferentes mídias (no meio impresso, na web, no rádio e na tevê) podemos levantar algumas hipóteses e entre elas eu diria: a Folha precisa recuperar a perda de assinaturas que sofreu recentemente.

No princípio deste ano, após o Manifesto contra a Ditabranda que reuniu em frente ao prédio do referido jornal cerca de 500 pessoas, representando inúmeras entidades democráticas, a Folha perdeu mais de duas mil assinaturas.

Ao longo das décadas de 1980 e 1990 a Folha consolidou sua imagem junto a um público intelectual como um jornal liberal, mais arejado e solidificou o mote: “Folha de São Paulo, de rabo preso com o leitor“. Este mote nunca me convenceu, jamais assinei a Folha, embora lesse um artigo ou outro.

No final de fevereiro deste ano a Folha defendeu um Estado que governou pautado em um regime de exceção, fazendo uso da tortura a seus opositores políticos. Para a Folha de São Paulo, no Brasil não houve ditadura, mas “ditabranda”.

A tortura é crime comum e é imprescritível. O Brasil é signatário de todos os atos Internacionais contra a tortura e a favor dos Direitos Humanos. Mas a Folha de quando em vez se ‘esquece’ disto.

As afirmações levianas do jornal sobre a ‘ditabranda’ criaram uma espécie de ditatômetro, como se fosse possível medir o nível da barbárie. Ao ser questionado, o jornal colocou em cheque reputações ilibadas de intelectuais como a professora Maria Victoria Benevides, especialista em Direitos Humanos no Brasil, e do jurista Fábio Konder Comparato.

Hoje, ouvi no rádio a nova campanha publicitária da Folha e resolvi fazer uma busca pra ver a peça publicitária feita para a tevê.

Um ‘manifesto’ vai se desenhando por meio de assinaturas e de palavras chaves em edifícios e locais conhecidos da cidade de São Paulo, enquanto um locutor placidamente narra um discurso afirmando que a Folha está alinhada à modernidade, preocupada com a construção de um Brasil democrático e que põe a verdade acima de tudo.

Inegavelmente é uma campanha bem feita, que bebe ainda no mote da democracia, do pluralismo, do respeito às diferenças, do compromisso com a verdade acima de tudo. Pena que isso não se traduz no suporte de papel e nem no portal da UOL.


O Grupo Folha, cada vez mais parecido com o Grupo Abril da Veja abriga em seu portal blogueiros misóginos como Josias de Souza, um ombdsman titubeante ao fazer as críticas a editoriais e matérias enviezados que criminalizam movimentos sociais, emprega articulistas que são contra as ações afirmativas e toda e qualquer política pública de inclusão. A Folha é um jornal que endossa o coro da oposição irresponsável e arrivista que cria uma crise por mês para desacreditar o governo federal e poupa com todo cuidado o governo do estado e da prefeitura da cidade de São Paulo.

Pluralismo, respeito às diferenças, liberdade de expressão e opinião são conceitos caros à democracia, que não deveriam ser desgastados de modo oportunista. A Folha empresta o mote, o meio e o discurso da sociedade civil democrática para tentar recuperar-se do troco que esta mesma sociedade civil lhe deu no dia 07/03/2009 reagindo ao cinismo de seu editorial.

Esta sociedade democrática que tem no respeito às diferenças, aos direitos humanos e à Justiça valores caros que a Folha desprezou quando emprestou suas peruas para repressão está atenta ao canto da sereia.

Conceição Oliveira é historiadora.

Artigo publicado originalmente no blog Maria Frô (pseudônimo de Conceição Oliveira).

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