Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sábado, 2 de maio de 2009

Diretamente do meu baú de raridades...

Estátua de Zózimo no Leblon.
Foto: Ana Helena Tavares

Por Marisa Tavares, revista Veja, ano 20, nº 14, 06 de Abril de 1988

O jornalista carioca Zózimo Barrozo do Amaral, de 46 anos, gosta de se gabar dos bagres e das tainhas que ao longo da juventude pescava na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cenários mais deslumbrantes do Rio de Janeiro. Hoje, ele lamenta que a poluição ocupe o lugar dos peixes na lagoa e vê com apreensão multiplicarem-se os problemas da cidade, como a violência e as enchentes. Mas está longe de se deixar abater - para ele a cidade ainda é o melhor lugar para se viver no Brasil. "É hora de arregaçar as mangas e trabalhar pelo Rio", conclama, sem nostalgias. Para ele, a solução para os problemas do Rio reside justamente num de seus maiores patrimônios - o espírito genuinamente carioca, capaz de estimular os cidadãos a superar qualquer dificuldade.
Zózimo, como poucos cariocas, fala de cátedra sobre o Rio - a cada dia, por obrigação profissional, ele recolhe uma quantidade notável de informações sobre pessoas e locais que são notícia na cidade. Titular de uma das colunas jornalísticas mais lidas do país, publicada na terceira página do Caderno B, do Jornal do Brasil, Zózimo desenvolveu, em 25 anos de jornalismo, uma receita infalível para seu cardápio diário de cerca de vinte notas que interessam de políticos a gente da alta sociedade, de estudantes a artistas. O sucesso da coluna deve-se à quantidade de notícias em primeira mão que apresenta, garimpadas por ele - ao telefone ou em longos jantares - e por sua equipe de jornalistas, "pequena, mas eficiente", como define. Zózimo mora num apartamento no Jardim Botânico, de onde pode avistar tanto a Floresta da Tijuca quanto a lagoa, onde costumava pescar. Entusiasta dos esportes, principalmente o tênis, que também pratica, e torcedor do Flamengo, diz que se dedica cada vez menos às badalações sociais. Ele falou à Veja sobre como vê o Rio de Janeiro e o que pode ser feito para melhorar a vida dos cariocas.

"Gente bonita vai à Praia do Pepê"

Veja: O Rio de Janeiro continua lindo?

ZÓZIMO: O Rio é lindo e generoso, de qualquer ângulo que se olhe. Ocorre que a cidade tem sido muito castigada. Nela se desenvolveu uma certa incompatibilidade entre os avanços do progresso e a qualidade de vida das pessoas. Quando jovem, eu pescava na Lagoa Rodrigo de Freitas: caraúna, bagre e, quando me aperfeiçoei com os anzóis até tainhas de dois palmos. Hoje a lagoa está poluída e há mortandade de peixes. Mas mesmo assim o chamado espírito carioca se mantém inalterado, aptando-se aos novos tempos.

Veja: Onde a beleza do Rio se mantém intacta?

ZÓZIMO: Na praia onde fica instalada a barraca de sanduíches do Pepê, na Barra da Tijuca, por exemplo. Pouca gente da minha idade conhece, mas lá é o lugar onde já vi mais gente bonita reunida. O espírito carioca está mais vivo do que nunca. Tirando o verão tórrido, que assusta algumas pessoas, o Rio é fundamentalmente uma cidade ensolarada de temperatura agradável. Não se sente frio e também não se morre de calor. O pôr do sol carioca não tem similar no mundo - e eu conheço algumas cidades para poder comparar. Culturalmente, a cidade palpita com a ópera do Municipal, com os teatros e os shows. Eu não admitiria morar em nenhuma outra cidade do Brasil. Assim devem pensar nove entre dez cariocas e, por isso mesmo, devemos ter um olhar mais positivo e tolerante com relação à cidade. É preciso acabar com os exageros em algumas das críticas à cidade.

Veja: Quais são as críticas exageradas à cidade?

ZÓZIMO: A própria preocupação com a violência e a onda de assaltos merece ser revista. O Rio é uma cidade violenta como todas as outras de seu porte. E, aqui, a violência é resultado de uma crise sócio-econômica que o país atravessa, coisa que não ocorre nas metrópoles européias e americanas. A diferença é que em cidades como Nova York, Paris ou Londres, há áreas de total segurança. Não tenho notícia de ninguém que tenha sido assaltado no Champs-Elysées ou na esquina da Quinta Avenida com a Rua 57. Toda metrópole tem bolsões de marginalidade e conflito.
















Obs: Garimpei esta revista recentemente num sebo, scannei suas páginas e resolvi transcrever para este blog a primeira das três páginas desta saborosa entrevista de Zózimo. Para ler as outras, basta clicar nas duas imagens acima.

2 comentários:

Roger disse...

Como disse Jack o Estripador, "Vamos por partes!" A sua escolha de pegar este tema é muito boa e atualissima. Lena, voce pegou algo que vai fazer muita gente vir aqui conferir respostas de outras pessoas, discutir, etc. Sensacional a tua escolha!
Agora vamos dar uma olhadinha no que o Zozimo falou:
1- "O Rio é lindo e generoso" Um ponto de vista de quem ou não conhece o Rio ou que so vive na Zona Sul! Vai pra Favela do Morro do Alemão, ou em alguns trechos da famigerada Avenida Brasil que a gente começa a ver que o Zózimo exagerou.

2- "a cidade ainda é o melhor lugar para se viver no Brasil." Bom, agora eu sei que ele deve estar sendo no minimo sarcastico! Sera que ele nunca foi em Curitiba, Maceio, João Pessoa, Floripa? Detalhe: todas essas cidades não possuem nem 30% dos crimes do Rio e são otimas para morar!

3- "Veja: Onde a beleza do Rio se mantém intacta? ZÓZIMO: Na praia onde fica instalada a barraca de sanduíches do Pepê, na Barra da Tijuca, por exemplo." Bem, agora podemos concordar mais com o Zózimo - o lugar é lindo! o problema é chegar lá! Bem fora de mão para quem não tem um carrinho ou mora perto. Se for no fim de semana vai pegar um lotação que lembra muito uma lata de sardinha. Por ai vemos que o Zózimo esta analisando tudo por uma visão de gente de classe média alta, que nao é particularmente a grande maioria da população carioca.

4- "Tirando o verão tórrido, que assusta algumas pessoas, o Rio é fundamentalmente uma cidade ensolarada de temperatura agradável. Não se sente frio e também não se morre de calor." Opa! quase algo que desse pra concordar por completo com o Zózimo. O calor aqui é infernal. Quem sente frio no Rio tem um problema serio mental. E dai eu discordo com ele sim! Morre-se de calor no Rio praticamente 8 meses por ano. (As vezes um friozinho viria bem a calhar). Por esta razão é que o carioca nato sente frio e se agasalha com casaco de neve se a temperatura chegar a 19 graus celsius.

5- "A própria preocupação com a violência e a onda de assaltos merece ser revista. O Rio é uma cidade violenta como todas as outras de seu porte." Bom, por ai da pra se ver que o cara ta morando na Suissa, porque se voce é carioca e nunca viu nada violento, ou foi assaltado alguma vez, ou não viu os PM's dirigindo em alta velocidade com sub-metralhadoras na mão voce é um turista! Welcome to Rio! Bienvenu au Rio! Bienvenido a Rio!

6- "A diferença é que em cidades como Nova York, Paris ou Londres, há áreas de total segurança. Não tenho notícia de ninguém que tenha sido assaltado no Champs-Elysées ou na esquina da Quinta Avenida com a Rua 57." Esta frase por si só contradiz tudo que ele disse no ultimo topico. Voce nunca vai ver criança sendo arrastada pelas ruas de NY, Paris, Los Angeles, Berlim, ou Tokyo. Não da pra imaginar alguem, no centro dessas cidades, sendo assaltado em pleno dia! Los Angeles, que é relmente o fim do mundo, não possui bandidos botando fogo em onibus com passageiro dentro. TUDO ISTO EH SURREAL! Só no Rio ou em Bagdá, no Afganistão, ou então nas zonas de guerra da faixa de Gaza. DETALHE - As cidade que possuem tais "atrações" estão em guerra, literalmente!

Marcelo disse...

Roger (com o devido respeito):
Fazer um apanhado de hj e não de 88 desconsiderando a sociedade da época, hábitos, lugares e governança seria interessante para uma pesquisa sobre ciências sociais, apenas.
Implementamos outra realidade. 88 veio estabelecer direitos fundamentais numa postura pós- ditadura com a Constituição de 64 e 67 com a Emenda de 69. Ulisses Guimarães chamava a de 88 como Carta/Constituição Cidadã
e sua visão política para o evento da época tinha suas peculiaridades, como esses exemplos;
mas as normas não seguem a velocidade do pensamento e comportamentos humanos -,
tudo ao nosso redor tem influencia direta de poucos representantes da sociedade
preocupados com a redução da corrupção e lutar por melhorias.
Em 88 muitas coisas aconteceram, não tinhamos uma universidade em cada esquina, não eram criados enems para dar uma vaga a quem mal sabe escrever, a insegurança/violencia, uso de drogas e jovens dementes era menor.
Longe desse comentário direto aos presidenciáveis e comparsas
vimos aos poucos a falência do serviço público (segurança, saúde, etc.) porque os grandes empresários bancam as campanhas e olha que o povo brasileiro hj está mais conscientizado.
O padrão de vida em 88 era outro,
era chique morar no centro da cidade, era bom morar na baixada,
a zona sul puro lazer,
a tijuca (antigo engenho velho) era bairro nobre e reduto histórico de judeus e árabes como grandes comerciantes.
Acredito que o seu comentário mereça flexibilidade não pelo defasado Rio, poruqe aqui é a terra maravilhosa quando andamos pelo Arpoador numa bela tarde de sol, ainda. Lá nas outras cidades os prefeitos e governadores se interessam pelo turismo, pela qualidade de vida em 88 ou em 2009.
De ontem e hoje por diante as necessidades são outras, quer outro exemplo? Antigamente não existia estudo sobre consumo consciente, você lembra do que se trata, está a todo momento e ao redor... ...dê mais uma chance ao Rio e a você mesmo,o ser humano constantemente precisa rever suas atitudes para seu bem. Abraços,

"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

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