Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Para entender a metáfora...


Foto: Antonio Lacerda / EFE
Lula e Obama despontam como lideres inspiradores no G-20

Leonardo Boff


Um dos fatores que estão emperrando a saída do caos econômico-financeiro é a escassez de lideranças inspiradoras. São os momentos de crise que suscitam líderes carismáticos que fornecem foco e senso de direção. O bom líder é aquele que capta os anseios profundos do momento, sabe dar-lhe uma expressão, criar-lhe uma metáfora e suscitar entusiasmo e energias para realizar coisas que a muitos pareceriam impossíveis.

Mais que tudo, o líder deve servir a uma causa maior que ele, de todo um povo e, agora, de toda a humanidade. Por isso, o líder não pode ser vítima dos interesses de grupos. O bom líder está continuamente desafiando a opinião pública para rejeitar soluções maquiadas e recusar saídas convencionais que só tranquilizam, mas não transformam o caos em criativo e generativo.

O encontro do G-20 em 2 de abril em Londres superou as expectativas, pois elaborou-se um consenso global que pode ser eficaz no resgate do equilíbrio perdido. Barack Obama e Lula despontaram como líderes inspiradores. Lula, lembrando a pobreza no mundo, e Obama insistindo que o resgate deve ser verde, quer dizer, não pode mais ser feito à custa da devastação da natureza, como ocorria até agora.

O presidente Lula se tem mostrado um líder corajoso em afirmar: essa crise foi provocada por homens brancos de olhos azuis que presidiam bancos e instituições que ditavam normas para os outros, mas eles mesmos não as seguiam. Hoje estão desmoralizados porque suas ideias eram truques baratos. Eles possuiam uma ideologia imperial de dominação do mundo.

Mauro Santayana, o príncipe dos analistas políticos brasileiros, nos revelou recentemente, num artigo do "Jornal do Brasil" (26.3), o plano norte-americano de dominação do mundo que ficara oculto por mais de 40 anos. Dizem os documentos agora revelados: "a soberania supranacional de uma elite intelectual e de banqueiros é seguramente preferível à autodeterminação nacional praticada nos séculos passados". Em nome desse propósito imperial fizeram-se intervenções econômicas, políticas, culturais e militares em quase todas as partes do mundo. É a razão de os Estados Unidos manterem 700 bases militares pelo mundo afora, com 500 mil soldados. É o espírito de Davos, onde os senhores do mundo se reúnem anualmente não para pensar os problemas da Terra, dos pobres, das mulheres, da fome, mas das moedas, dos mercados, do crescimento e dos próprios interesses. É o mais crasso materialismo.

Esse espírito montado na falsa liderança, na mentira, na arrogância e na violência agora ruiu com o sistema que o sustentava. Obama mostra clara consciência desse fato. Lula é um dos poucos líderes mundiais que teve a coragem de dizer as verdades diante do primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown. Só espíritos medíocres, que possuem dentro de si ainda o colonizador e que incondicionalmente se alinham ao poder dominante, fizeram críticas ao presidente, como se sua fala fosse expressão de racismo. Não entenderam a metáfora. Mas traíram seu submetimento à potência mais forte.

Mas chegará o dia em que o espírito de Porto Alegre, altermundista, generoso, amante da vida e da Terra vai ver o começo da realização de seu sonho. A liderança inspiradora de Lula, Morales, Lugo, Correa e Obama fará com que as potencialidades do novo, arrancadas do oceano infinito da energia de fundo que sustenta o inteiro universo e cada ser, se tornem realidade. A humanidade e a Terra o merecem. Só assim elas continuarão a ter um futuro bem-aventurado.


Leonardo Boff é filósofo e teólogo.


Este artigo foi originalmente publicado no jornal "O Tempo" de hoje, 10 de Abril de 2009.

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