Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 12 de abril de 2009

"O "Sol" nas bancas de revista / me enche de alegria e preguiça / Quem lê tanta notícia?"



Foto: Último Segundo

Informação com valor agregado

Tales Faria

Era quase dezembro de 1967 quando Caetano Veloso caminhou contra o vento em versos como "O Sol nas bancas de revista/ Me enche de alegria e preguiça/ Quem lê tanta notícia?". Provou que o poeta é realmente um visionário. Primeiro, na alegria com que dá boas vindas ao Sol, que não era o astro celeste, mas um jornal-escola precursor do jornalismo alternativo.

O Sol foi criado por Reynaldo Jardim – um dos ilustres fundadores do revolucionário Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, marco do neo-concretismo – além de outros nomes egressos do velho JB, como Ana Arruda Callado, Carlos Castilho e Ziraldo. Uma publicação que apontava para a necessidade de se buscar um jornalismo de guerrilha contra o endurecimento do regime militar. Teve vida curta, mas deu frutos como o Pasquim.

No entanto, a alegria do poeta com o vislumbre de uma nova imprensa não o impediu de perceber também, ao entrar na banca de revista, a encrenca em que anos mais tarde nos meteríamos – jornais, jornalismo e jornalistas. Caetano põe as mãos nas cadeiras, sacode os caracóis de seus cabelos e pergunta: "Quem lê tanta notícia?"

Pois é. Globalizações, satélites, internets, fibras óticas e nanotecnologias permitiram que a produção de conteúdos crescesse exponencialmente. Dos primórdios da Galáxia de Gutemberg aos dias de hoje parece haver infinitamente mais informação à disposição do leitor do que nos anos de chumbo derretido das primeiras impressoras. O papel não dá mais conta. Só mesmo um suporte virtual para acolher tanta notícia.

Jornais impressos que, no passado, mesmo com a concorrência do rádio e da TV, conseguiam ser fonte primária de notícia para boa parte do leitorado, hoje definitivamente não podem mais. Cada vez menos pessoas compram papel manchado de tinta para tomar conhecimento de uma notícia. Ela vem pelo rádio, pela TV e, agora, em escala gigantesca, pela internet. Exigente, o leitor passa a só aceitar a notícia pura quando ela lhe parece ter sido entregue de graça. Se a quantidade de notícia é infinita, seu valor de mercado é infinitesimal. Daí a sobrevida em papel dos jornais superpopulares e gratuitos. Daí também a dificuldade de se fechar conteúdos na internet.

E para onde vai o papel manchado de tinta com preço de capa? Ou melhor, onde ficarão os herdeiros do jornal? No meio virtual, serão a marca que dá credibilidade à notícia. No meio impresso, o "algo além" da notícia. Informação com valor agregado: análise, opinião, furo, aprofundamento.

Tales Faria é editor-chefe do JB.

O artigo saiu no JB de hoje, 12 de Abril, em caderno especial sobre o futuro da imprensa.

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