Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A FOLHA REINCIDE

DITABRANDA - O RETORNO

"SÓ FALTOU A FOLHA DIZER: ELA
É COMUNISTA E COME CRIANCINHA!"

Por Celso Lungaretti

Num primeiro momento, era importante posicionar-me energicamente contra a reportagem "Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim" (Folha de S. Paulo, 05/04/2009, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0504200906.htm ), alertando os companheiros de que se tratava de uma nova investida reacionária do jornal, de contornos bem semelhantes ao do episódio "ditabranda".

Foi o que fiz, de bate-pronto, com meu artigo Por que tanto estardalhaço em torno de um sequestro que não ocorreu? ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/04/por-que-tanto-estardalhaco-em-torno-de.html ).

Agora, com mais vagar, cabe aprofundar um pouco a análise.

Quem ler com atenção a imensa reportagem da Folha, perceberá que seu propósito subjacente foi fixar dois conceitos, ambos muito desfavoráveis às pretensões eleitorais da ministra Dilma Rousseff:

que ela era uma guerrilheira, envolvida com ações atualmente vistas de forma negativa (sequestros);
que ela hoje tem como aliado político alguém que era seu inimigo, exatamente o alvo do sequestro.
Então, a Dilma militante é mostrada como alguém que "sabe montar e desmontar um fuzil de olhos fechados". E tem mais: "Na clandestinidade, seu grupo planeja uma das ações ousadas da luta armada em 1969 contra a ditadura militar: o sequestro de Delfim Netto, símbolo do milagre econômico e civil mais poderoso do governo federal".

A afirmação bombástica do 1º parágrafo só é relativizada no 5º, quando ficamos sabendo que Dilma e outros três comandantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares apenas "concordaram" com o plano de sequestrar Delfim Netto. Quem estava à frente desse projeto era o quinto comandante, Antonio Roberto Espinosa, exatamente a fonte principal da bombástica reportagem da Folha.

Ele "assumiu que coordenou o plano", contando à reportagem do jornal "segredos que diz não ter revelado sob tortura". E foram citadas declarações sintomáticas de Espinoza: "O grupo foi informado. Os cinco [ele, Dilma e os outros três dirigentes da VAR] sabiam", "o comando nacional sabia, não houve nenhum veto".

Ou seja, Espinoza acalentou a idéia de sequestrar Delfim Netto e fez alguns levantamentos. Informou o restante do comando da VAR-Palmares de sua intenção. Foi preso antes de qualquer tentativa concreta de concretizar seu propósito. Onde está a revelação estarrecedora que justifique o enorme destaque editorial dado a esse não-acontecimento de quatro décadas atrás?

Mais: por que acreditar tanto nas palavras de Espinoza e tão pouco nas de Dilma Rousseff? Afinal, inquirida sobre o tal sequestro, ela respondeu: "Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. (...) Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim".

Conheço bem os personagens e, mais ainda, o contexto em que travávamos a luta de resistência ao totalitarismo de estado implantado no Brasil. Espinoza foi quem me recrutou (juntamente com sete companheiros secundaristas) para a Vanguarda Popular Revolucionária.

E, de abril a outubro de 1969, ele fazia a ligação entre o Comando Nacional da organização e o comando estadual de São Paulo, ao qual eu pertencia. Só o perdi de vista quando ficamos em lados opostos no racha do Congresso de Teresópolis: eu na VPR reconstituída, ele na VAR.

Então, posso afirmar que ele estava sempre com um plano mirabolante desses na cabeça. Não duvido que tenha cientificado os quatro outros comandantes da VAR, mas algo assim só era discutido para valer no momento de ser colocado em prática. Aí, sim, os prós e contras eram minuciosamente avaliados. Antes, quando se tratava apenas de uma possibilidade dentre tantas outras, ninguém levava muito a sério.

As dificuldades eram imensas. Todas as organizações participantes da luta armada, no final de 1969, estavam debilitadas. Foi a fase em que se começaram a juntar vários partidos e organizações para efetuar ações armadas de maior porte, já que um só não dava mais conta do recado.

Então, era inimaginável, para nós, corrermos o risco de trocar tiros com uma escolta poderosa. Não podíamos nos dar ao luxo de perder mais combatentes. Uma ação dessas, na cabeça tanto dos dirigentes da VPR quanto dos da VAR, só se justificaria havendo uma boa chance de alcançar-se o objetivo sem baixas.

Segundo a reportagem da Folha, Delfim seria um "alvo fácil". É uma contradição com a proeminência que o jornal lhe atribui e uma afirmação dura de engolir: desde quando uma ditadura descura da segurança de seus ministros?

E, noutro trecho, diz-se que "Delfim contou à Folha que recebeu recomendações para redobrar o cuidado diante da onda de atentados promovida pela esquerda contra o regime". Quantas contradições numa reportagem só!

Ora, Espinoza não chegou a esse estágio, de reunir o comando e apresentar-lhe um roteiro de ação aceitável. Foi preso antes. Portanto, o tal sequestro do Delfim Netto não passou de um sonho de uma noite de verão, a exemplo de tantos outros que a guerrilha elocubrava sem ter como concretizar.

Além de Espinoza agora estar declarando, com indignação, que foi vítima de uma armadilha da Folha, salta aos olhos que o material reunido pelo jornal não é suficiente para atribuir a Dilma Rousseff uma real responsabilidade por esse plano que não saiu do papel.

Com a experiência de mais de três décadas de atuação jornalística, posso afirmar que, não havendo uma presidenciável na jogada, as pseudo-revelações de Espinoza teriam um destino certo: o cesto de lixo.

Há histórias muito mais significativas a serem contadas sobre a luta armada, mas à grande imprensa nunca interessou contá-las, porque delas o que sobressai é a bravura e o idealismo de quem travou uma luta tão desigual, contra um inimigo capaz das piores atrocidades.

Para quem quer fazer as novas gerações acreditarem que o regime militar nada mais era do que uma ditabranda, não convém trazer o fundamental do período à tona, mas, apenas, pinçar miudezas que sirvam a seus objetivos.

FOLHA CONFUNDE 1969 COM 1970 - E essa tendenciosidade perpassa toda a reportagem dominical da Folha.

P. ex., a escolha de Delfim Netto como alvo de sequestro se explicaria por ele ser "símbolo do milagre econômico", o ministro da Fazenda "que sustentava a popularidade dos generais com um crescimento econômico de 9,5% em 1969". Ou seja, sugere-se que os guerrilheiros, malvados como eles só, estariam ressentidos com o boom econômico e seu alegado artífice.

A Folha omitiu, entretanto, que nem se falava em milagre brasileiro no ano de 1969. O PIB avançara 9,8% em 1968, mas o salário-mínimo tivera crescimento negativo de 24,78%! A política econômica da ditadura beneficiou, primeiramente, o grande capital; só depois, em 1970, é que as sobras chegaram até a classe média.

No período 1968/1973, mais da metade dos assalariados brasileiros recebia um salário-mínimo ou menos. E, enquanto o PIB cresceu 146,33% nesses seis anos, o salário-mínimo teve de se contentar com apenas 81,52%, pois o modelo era, acentuadamente, concentrador de renda.

O período foi marcado por um aumento dos acidentes de trabalho, conseqüência das horas extras e da maior intensidade produtiva; e até por um agravamento das condições de saúde da maioria da população brasileira, evidenciado, p. ex., no ressurgimento de epidemias como a meningite e no aumento das taxas de mortalidade infantil.

O certo é que, em 1969, nem sequer a classe média estava eufórica com o regime, pois não havia a percepção de uma melhora econômica significativa, depois de tantos anos de vacas magras. E Delfim não sustentava a (inexistente) popularidade dos generais. Tudo isso viria em 1970.

Já o aspecto que eu destaquei -- o de que Delfim era um alvo para sequestros por conta de sua condição de signatário do AI-5, o cheque em branco que a ditadura deu à linha dura militar para praticar todas as atrocidades --, isto ficou totalmente de fora da reportagem da Folha. Por que será?

Afora isto, Dilma é mostrada como a guerrilheira fútil que ia "cortar o cabelo no salão Jambert, que servia champanhe aos clientes"; como a responsável pela queda de quatro companheiros de organização (o que não tem nenhuma relevância em 2009!); e como a incumbida da distribuição do dinheiro da VAR (o que só interessa para quem quer propiciar insinuações malévolas, sem fazê-las diretamente).

E várias perguntas que lhe foram feitas pela repórter têm viés negativo, tipo "a sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?".

Vale registrar que Dilma respondeu com dignidade a essa indagação descabida: "Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. (...) As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão".

Mas, se a extrema-direita precisava de munição para suas campanhas difamatórias contra Dilma, agora tem de sobra. Suas candentes declarações sobre as torturas que ela e todos os militantes sofríamos serão obviamente omitidas, mas se trombeteará que a "terrorista" antes queria sequestrar o Delfim Netto e agora os dois hipócritas estão irmanados num mesmo projeto político.

Uma mensagem de leitor, publicada no Painel de 06/04/2009, atesta que a reportagem atingiu plenamente seus objetivos: "se meu filho fosse se casar com uma ex-guerrilheira que pretendia sequestrar alguém, mesmo que fosse por motivos ideológicos, eu não aprovaria de jeito nenhum".

Felizmente, ainda há quem não se deixe manipular. "Só faltou a Folha dizer: "Ela é comunista e come criancinha!", escreveu outro leitor, este perspicaz.


Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político, mantém os blogs:

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