Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 8 de março de 2009

Traço de mestre

Foto: Luciana Sarmento
Há fim na crise sem fim?

Gilson Caroni Filho

Alguns, esquecidos da História, batem às portas da tumba de Keynes e clamam por um "novo New Deal" e um "novo Bretton Woods". Outros, sequiosos de História, pretendem decretar "o fim do capitalismo" por um ato voluntarista. Outros ainda, convictos de serem os senhores da História, procuram, apenas e como sempre, preservar seus próprios privilégios. Mas há uma questão fundamental que, embora inevitável, não vem sendo explicitada.

A "crise atual" não começou em setembro último, ou em 2007, ou há uns poucos anos. Vem de muito mais longe, desde os anos 20, quando o dinamismo do capitalismo industrial deu sinais de esgotamento. Essa não é uma exegese teórica, e sim uma constatação factual, evidenciada pela Grande Depessão que se seguiu. E que só teve fim com a Segunda Guerra Mundial.

Para sair de uma depressão, nada como uma economia de guerra, em que se obtém o pleno desenvolvimento das forças produtivas e o pleno emprego da capacidade produtiva. Com a vantagem adicional de que a maior parte do que é produzido é logo destruído, e tem que ser reposto.

Da Segunda Guerra emergiram duas superpotências hegemônicas, ambas capitalistas: os Estados Unidos (capitalismo de mercado) e a União Soviética (capitalismo de Estado). Do lado das economias de mercado, orquestrou-se um conjunto de mecanismos e instituições destinadas a reconstruir e regular as trocas internacionais, imperfeito e que privilegiava a potência hegemônica: o sistema de Bretton Woods. Para limitar em parte a hegemonia estadunidense e permitir um mínimo de equilíbrio, estabeleceu-se a paridade entre o ouro e o dólar, que se tornou a moeda internacional de referência e de reserva de valor.

Esse conjunto de fatores impulsionou as grandes expansão e prosperidade capitalistas do pós-guerra nos países centrais, coadjuvado pelo petróleo abundante e barato, crescentemente oriundo da periferia do sistema e que propiciou ainda a industrialização da agricultura – a chamada Revolução Verde dos anos 50.

Durou 25 anos. Em 1971, com os Estados Unidos enfrentando desemprego, inflação e "duplo défcit" crescente, e já a caminho da recessão, o governo Nixon decretou o fim da paridade ouro-dólar (o que, na prática, os EUA já vinham fazendo, despejando dólares sem lastro em outros países para financiar seu déficit comercial e, com isso, exportando inflação) e, de uma penada, jogou Bretton Woods no lixo.

O resultado foi a total desorganização dos preços internacionais, a começar pelo câmbio. Pois a partir daí os EUA podiam meter a mão na máquina e imprimir quantos dólares quisessem. De quebra, o dólar – que continuou a ser a moeda de referência – pôde se desvalorizar à vontade, tornando as exportações estadunidenses mais competitivas. (Emblematicamente, 1971 marcou também o surgimento dos microprocessadores, com o lançamento do chip Intel 4004, seguido do aumento exponencial e vertiginoso da capacidade de processamento, regido pela lei de Moore. Mais e mais, os ganhos de produtividade se deslocavam da economia real para a economia "virtual".)

As consequências não tardaram. Primeiro, os "choques do petróleo" de 1973 e 1978, em que os países da Opep procuraram de um lado compensar o valor real decrescente de suas exportações e, de outro, aproveitar a enxurrada de petrodólares (as grandes corporações petrolíferas, claro, passaram a conta adiante). Depois, a "crise da dívida" dos países subdesenvolvidos. Pois os EUA também elevaram brutalmente suas taxas de juros. E empréstimos e financiamentos – muitos estimulados ou concedidos diretamente por organismos como o Banco Mundial – contraídos a juros correntes por taxas de 4% ou 5% ao ano, passaram a ser amortizados a 10%, 15% ou 20 %. E a "crise da Rússia", presa num torniquete econômico devido à não- conversibilidade de sua moeda. E a "crise da Ásia"...

À medida que se esgotavam também os meios de externalizar a perda de dinamismo, a crise refluiu para o centro: os EUA. Veio a quebradeira das empresas de poupança e empréstimo, as savings & loans, socorridas com dinheiro público. Veio o estouro das "ponto com", que em seu curto apogeu foram saudadas como portento da "nova economia da informação". Vieram as seguidas falências fraudulentas, das quais a mais bombástica foi a da Enron, pelo porte e pela intangibilidade de seus supostos ativos.

Essas crises setoriais, embora com repercussões internacionais, ficaram ainda restritas em alcance. O pior estava por vir.

Desde o final da década de 70, notada, mas não somente, na era Reagan, políticas de desregulação, "liberalização", privatização e concentração de propriedade e renda fortaleceram mais ainda o setor financeiro em detrimento das atividades produtivas. Fusões e aquisições acirraram os processos de conglomeração e oligolipolização, com as áreas-fim das empresas engolidas passando a se subordinarem a direções que as viam apenas como ferramenta de especulação e fonte de aportes financeiros, gerentes e executivos vindos do "chão da fábrica" sendo deslocados pelos "rapazes de terno Armani". Não menos emblemática foi a aquisição hostil do já estranho conglomerado RJR Nabisco (o que as linhas de produção de cigarros e salgadinhos têm em comum?) por um grupo de especuladores financeiros sem qualquer ligação com a indústria quer de produtos de fumo, quer de alimentos.

Riqueza e capacidade de gerar dinheiro se transferiram do concreto para o intangível. Dinheiro passou a gerar dinheiro como que por partenogênese, sem ter que transitar pela produção de bens e serviços. Livre de freios, desenraizado de ativos reais, circulando pelo mundo a um simples clique, o capital especulativo teceu e estendeu internacionalmente uma teia de "produtos", na verdade esquemas de pirâmide cujo único propósito era passar o mico adiante, empacotando-o e embalando-o – por um prêmio – com "criatividade" e "inventividade".

Como toda pirâmide, esse magnífico edifício teria de desabar mais cedo ou mais tarde. Calhou de ser nas hipotecas subprime, que eram particularmente perversas porque, em tese, lastreadas em ativos reais, cujos valores na verdade eram uma fração daqueles pelos quais eram repassados em derivativos de segundo, terceiro, quinto, décimo, enésimo grau. E funcionais: era essa espiral especulativa que sustentatava a economia dos EUA, via consumo das famílias, responsável por dois terços do PIB estadunidense, e movido à dívida. As famílias se endividavam cada vez mais para continuarem consumindo cada vez mais – cada vez mais perdulariamente, e cada vez mais consumindo intangíveis. E a espiral especulativa sustentava, via dívida, a economia dos países "emergentes".

A "crise" logo se espalhou, em ritmo acelerado, primeiro pelo "sistema financeiro globalizado", rapidamente pela economia supostamente "real". Significativamente, via crédito: o que é crédito senão a disposição de financiar e contrair dívidas, e a aposta em que essas dívidas são pagáveis?

O que parecia terra era poeira, e o vento levou. Qualquer pseudo- solução que seja apenas "mais do mesmo", despejar dinheiro no sorvedouro especulativo, conseguirá no máximo produzir mais uma bolha, tão efêmera quanto as anteriores. Obama conseguiu que o Senado aprovasse, por margem mínima, um pacote de US$ 838 bi para serem gastos em 10 anos. Isso não basta.

A pergunta de 64 quintilhões de dólares, volumosa demais para ser ignorada, é: de onde tirar um novo dinamismo para a economia capitalista? A resposta pode estar no terceiro parágrafo desse artigo.

"Para sair de uma depressão, nada como uma economia de guerra, em que se obtém o pleno desenvolvimento das forças produtivas...". Afegãos já foram apresentados à ideia na primeira fatura apresentada por Obama. Mas o leque pode incluir Irã, Paquistão e muitos mais. É a "lógica" do velho capitalismo. Sua inelasticidade constitutiva.


Gilson Caroni Filho é sociólogo, professor titular das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), no Rio de Janeiro.


Este artigo foi originalmente publicado no Caderno Economia, do JB, de hoje, 08 de Março.

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