Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 1 de março de 2009

Traço de mestre

O nocaute dos “deportados”

Entrevistado em Miami, Lara declarou que ele e Guillermo, após terem sido abandonados por uma empresa alemã, decidiram voltar para Cuba."Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar".

Quando os boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux decidiram por vontade própria voltar para casa, após terem abandonado a delegação cubana nos jogos Pan-americanos, em 2007, setores da imprensa e da oposição não titubearam em falar em deportação, ruptura com “nossas melhores tradições diplomáticas" e uso da máquina burocrática do governo federal para atropelar direitos humanos.

Lideranças demo-tucanas compararam o episódio à deportação de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, para a Alemanha Nazista, onde morreu em campo de concentração. Comparação descabida? E o que importa quando há um teorema a ser demonstrado?

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) chegou a dizer que"Lula, que durante muitos anos pregou direitos humanos pelas ruas, nos desaponta ao permitir que a máquina policial do seu governo entregue de maneira precipitada esses dois jovens atletas que fugiram e demonstraram que para seu país não queriam voltar".

De nada adiantou o delegado-chefe da PF de Niterói (RJ), Felipe Laterça, afirmar que aos cubanos foi ofertado exílio, mas ele preferiram retornar a Havana. Ou o Ministério da Justiça assegurar que os atletas não apresentaram pedido de refúgio ao Itamaraty. A versão que deveria prevalecer era a que dava conta de que a Secretaria Nacional de Segurança Pública estava sendo utilizada como “um prolongamento da polícia política de Fidel Castro". Era a que melhor se amoldava ao cenário de um “Estado Policial" tão ao gosto de editorialistas e de alguns membros do Supremo Tribunal Federal.

Ao contrário das regras do boxe, a lógica da oposição compreende golpes abaixo da cintura, na nuca ou com o adversário no chão, mesmo correndo o risco de nocaute quando evidências concretas se apresentam com a força de um “jab ou um “direto” (golpe frontal forte com o punho) desferido pela suposta vítima que ”defendiam com fervor". Foi o que aconteceu nesse domingo.

Entrevistado pelo programa Esporte Espetacular em Miami, Lara declarou que ele e Guillermo, após terem sido abandonados por uma empresa alemã que se dedica a agenciar lutadores, decidiram voltar para Cuba. "Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar".

Enquanto estava no Brasil, o cubano manteve contato com o presidente Lula: “Ele me tratou bem, me ofereceu tudo que podia fazer. Ele me perguntou se eu queria ficar no Brasil, eu disse que não, que queria voltar para Cuba". Ou seja, Lula ofereceu refúgio ao atleta.

E agora, como é que ficam as vidas paralelas dos “Varões de Plutarco" da República brasileira? O que devem combinar com articulistas, editorialistas e cientistas políticos de plantão? Mantêm a “cara de paisagem" tal como fazem na crise econômica que desacreditou totalmente suas análises ou esboçam uma retratação pública? Um pedido formal de desculpas.

Na dúvida, deixo aos leitores uma pequena mostra do circo de horrores. Alguns dos protagonistas ainda estão zonzos, mas não demora muito e voltam a atuar. Convém guardar a estrutura dos relatos.

"Esse caso( Cesari Battisti) merece um comentário paralelo. Por mais controverso que possa ter sido seu julgamento, por mais dúvidas que possam existir sobre sua participação em todas as mortes de que é acusado, a decisão do ministro brasileiro peca pela origem: como pode o mesmo ministro que entregou para uma das mais cruéis ditaduras do mundo os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram da concentração durante os jogos do Pan no Rio, alegar que Battisti corre o risco de ser perseguido na democrática Itália?" (Merval Pereira, 27 de janeiro de 2009)

"Condeno a forma intempestiva como foi feita essa repatriação, sem que houvesse por parte da sociedade brasileira a possibilidade de saber se essa era a vontade daqueles indivíduos.” (Aécio Neves, 9 de agosto de 2007)

"Estrangeiros que pedem asilo a uma embaixada brasileira são da alçada do Itamaraty, e os que pedem refúgio dentro do Brasil são do Ministério da Justiça. Mas, convenhamos, não se trata um simples caso de asilo ou refúgio. E os dois acabaram sendo um caso de polícia. Uma polícia que aceitou com muita facilidade a versão do "arrependimento". Rigondeaux e Lara foram despachados ""a pedido", como nas demissões em Brasília, e sem investigação, sem processo, sem julgamento. Nenhuma entidade de direitos humanos foi ouvida. Em sendo muy amigo de Fidel, fica parecendo que o governo do PT cedeu à pressão e entregou os cubanos à própria sorte -ou azar. Se viessem de outra ditadura, "à direita", talvez tivessem sido acolhidos como refugiados. Aos amigos, tudo; aos inimigos.” (Eliane Catanhêde, Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2007)

"A decisão do governo de Cuba de proibir os pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara de prosseguir em suas carreiras de atletas e de sair pelo resto de suas vidas do país é a prova mais evidente de que os dois não retornaram à ilha de Fidel Castro por vontade própria". (Dora Kramer, Estado de São Paulo, 25/08/2007)

"Imagino que muita gente ainda se lembre de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara. Os dois pugilistas cubanos tentaram desertar durante os Jogos Panamericanos do Rio de janeiro em julho de 2007. Pretendiam seguir para a Alemanha, já com promessa de contrato. Entretanto, foram presos pela Polícia Federal e imediatamente deportados. Um avião posto à disposição do governo cubano pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, levou os pugilistas de volta para Cuba." (Lúcia Hippolito, em seu blog, 25/02/2009)

"A Polícia localizou os cubanos, e os prendeu, sem motivos para isso. Manteve os rapazes incomunicáveis, atropelando a Constituição, e chegando inclusive a expulsar o advogado enviado pelos empresários, que teve que ir embora sem sequer poder ver os presos. Depois, em tempo record, providenciou um avião que levasse os pobres coitados para Havana, com escala em Caracas." (Cláudio Humberto, Tribuna da Imprensa, 11/08/2007)

"Com a fuga de Cuba do boxeador Guillermo Rigondeaux, escreveu-se o penúltimo capítulo da uma história iniciada em 2007, quando ele e seu colega Erislandy Lara foram deportados pela polícia do comissário Tarso Genro.O último será escrito quando se souber com quem Fidel Castro falou no dia em que ele soube do desaparecimento da dupla. Que falou com alguém, falou, pois isso foi contado pelo seu chanceler, Felipe Pérez Roque. Nas suas palavras, o Comandante pediu ao seu interlocutor ajuda para "propiciar e organizar" o repatriamento dos fujões. Pode demorar, mas um dia a identidade do amigo de Fidel será conhecida". (Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 01/03/2209)

O boxe, quando bem ensinado, ensina o lutador a ter respeito pelo próximo. Certos sentimentos são extremamente prejudiciais aos praticantes, como medo, raiva e vaidade. Na política e no jornalismo brasileiros tais disposições soam virtuosas. Sem direito a refúgio.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.


Texto originalmente publicado hoje, 01 de Março de 2009, no site da "Agência Carta Maior"

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