Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Lula na Newsweek - Tradução exclusiva

Foto: Khue Bui / Newsweek
Por Fareed Zakaria | NEWSWEEK
Lula quer lutar

Revigorado pela crise, o presidente do Brasil diz que está rezando por Obama

Outrora um ativista de esquerda, o presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, voltou-se para o liberalismo de livre-comércio e ajudou a fazer de seu país o maior sucesso econômico da América Latina. No início deste mês, ele tornou-se o primeiro líder latino a visitar o presidente Barack Obama na Casa Branca e, em Abril, irá para Londres para a Conferência de Cúpula G20 sobre a crise financeira global. Ele se encontrou com o jornalista da Newsweek Fareed Zakaria, em Nova York. Trechos da entrevista:

Zakaria: Seu encontro com o presidente Obama durou mais do que esperava. Sobre o que conversavam?

Da Silva: Nós conversamos bastante sobre a crise econômica. Nós também decidimos criar um grupo de trabalho entre os EUA e o Brasil para participar do encontro na Conferência de Cúpula do G20. Eu disse para o Obama que eu estou rezando mais por ele do que eu rezo por mim mesmo. Porque ele tem problemas muito mais delicados do que os meus. Ele me deixou uma excelente impressão e ele tem tudo que é necessário para criar uma nova imagem para os EUA com relação ao resto do mundo.

Zakaria: O senhor se relacionava bem com o presidente Bush. Qual a diferença que vê entre os dois?

Da Silva: Olhe, eu realmente tinha um bom relacionamento com o presidente Bush, é verdade. Mas havia problemas políticos, culturais, de energia nuclear, e eu espero que o presidente Obama seja o próximo a dar o primeiro passo à frente. Acredito que Obama não tem que ficar tão preocupado com a guerra no Iraque. Isto lhe permitirá a possibilidade de criar políticas de paz onde não há guerra, como América Latina e África.

Zakaria: O senhor é provavelmente o líder mais popular no mundo, com um índice de 80% de aprovação. Por que?

Da Silva: O Brasil é um país que tem pessoas ricas, como aqui em Nova York. Mas também pessoas pobres, como em Bangladesh. Então, nós tentamos provar a possibilidade de desenvolver a economia simultaneamente à melhoria da distribuição de renda. Em 6 anos, tiramos 20 milhões de pessoas da pobreza para a classe média, levamos eletricidade para 10 milhões de habitantes e aumentamos o salário mínimo todo ano. Tudo sem machucar ninguém, sem insultar ninguém, sem provocar brigas. A pessoa pobre no Brasil é menos pobre agora. E isto é tudo o que queremos.

Zakaria: Há quem esteja aumentando o preço do petróleo, do gás e dos produtos agrícolas. O senhor é capaz de controlar os preços descendo mais do que subindo?

Da Silva: A recente descoberta de petróleo é muito importante, porque parte do petróleo que achamos nos ajudará a resolver o problema da pobreza e da educação. O Brasil não quer se tornar um exportador de petróleo bruto. Nós queremos ser um país que exporta subproduto de petróleo – mais gasolina, petróleo de alta qualidade. Os investimentos foram calculados em 35 dólares por barril. Agora, a 40 dólares, nós ainda temos margem suficiente.

Zakaria: Os críticos dizem que durante este período de altos preços de mercadorias o senhor não posicionou o Brasil para crescer economicamente rumo a um próximo nível.

Da Silva: Não faz sentido. Quando me tornei presidente do Brasil, o déficit público brasileiro (GDP) era de 55%. Hoje é de 35%. A inflação era de 12% e hoje é de 4,5%. Nós temos estabilidade econômica. Nossas exportações quadruplicaram. O fato é que o crescimento econômico do Brasil é o maior nos últimos 30 anos.

Zakaria: A economia do Brasil crescerá este ano?

Da Silva: Estou convencido de que chegaremos ao final do ano com um índice positivo no crescimento econômico. Mas nós não previmos que a crise teria todo este tamanho e profundidade que existe hoje nos EUA. Agora precisamos de novas posições que dependerão dos governos dos países ricos. Como vamos restabelecer o crédito, resgatar o consumidor americano e o europeu? Agora temos que provar que somos dignos.
Eu estava ficando um pouco desanimado com a vida política. Já exerci seis anos do meu mandato e você começa a se sentir cansado. Mas esta crise é algo como uma coisa provocante para nós, para nos acordar. Está me dando entusiasmo. Eu quero lutar. Quanto maior a crise, mais investimentos são necessários. Então, estamos investindo hoje no que jamais se investiu nos últimos 30 anos, em ferrovias, estradas, canais, represas, pontes, aeroportos, portos, projetos de moradia, saneamento básico. Temos que ser corajosos, porque no Brasil temos muito que fazer. Coisas que em outros países já foram feitas há muitos anos.

Zakaria: Em Dezembro passado, o senhor teve um encontro com líderes de 33 países das Américas menos os EUA. Por quê? Parece que os EUA foram diretamente excluídos.

Da Silva: Nós nunca havíamos tido tal reunião entre países latino-americanos e caribenhos. Então, foi necessário ter esta reunião sem as superpotências, um encontro de países que enfrentam os mesmos problemas.

Zakaria: O senhor já disse que espera que esta crise mude os políticos do mundo para países como Brasil e Índia ganharem uma atenção maior. Que poder especificamente o senhor almeja que o senhor não tem atualmente no Brasil?

Da Silva: Queremos ter mais influência na política mundial. Por exemplo, nós queremos que as instituições financeiras multilaterais não estejam abertas apenas aos americanos e europeus – instituições como FMI e Banco Mundial. Nós queremos que mais países participem do Conselho de Segurança. O Brasil deveria ter um lugar, e o continente africano deveria ter um ou dois.

Zakaria: O senhor é considerado um grande símbolo da democracia nas Américas. E, ainda assim, algumas pessoas dizem que o senhor não tem se manifestado enquanto Hugo Chávez destrói a democracia na Venezuela. Por que não se pronuncia? Se o Brasil quer um papel melhor no mundo, não seria uma parte, para certos valores?

Da Silva: Bem, talvez não possamos concordar com a democracia venezuelana, mas ninguém pode dizer que não há democracia na Venezuela. Ele já passou por cinco, seis eleições. Eu só passei por duas.

Zakaria: Ele tem gangs nas ruas e isto não é democracia verdadeira.

Da Silva: Olhe, nós temos que respeitar as culturas locais, as tradições políticas de cada país. Dado a isto, eu tenho 84% de apoio da opinião pública nas pesquisas. Eu poderia propor uma emenda na constituição para um terceiro mandato. Eu não acredito nisto. Mas Chávez quis ficar. Eu acredito que a mudança de presidente é importante para o fortalecimento da própria democracia.

Tradução: Maria do Céu Ribeiro - professora de inglês há 33 anos. (minha mãe!)

Texto original: clique aqui

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