Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sábado, 7 de março de 2009

Ditabranda: o suicídio moral da Folha


REPRODUÇÃO/DIFFERENT THINKER

Charge do cartunista Latuff oferecendo uma explicação chocantemente irônica para o absurdo cometido pelos editorialistas da Folha de S. Paulo em 17 de fevereiro. Nesse dia, dentro de uma coluna que falava de Chávez, chamaram "en passant" a ditadura brasileira de "ditabranda". Ao ter esse texto criticado na seção de cartas do leitor pelos professores Fábio Konder Comparato e Maria Benevides, o jornal respondeu à sua indignação com um insulto direto: "cínica e mentirosa". Por fim, a crítica do ombudsman foi sintomaticamente tímida e falou apenas sobre essas respostas de cartas.

Lembremos duas coisas que ajudam a compor o contexto do escândalo:

1) O autor de cada editorial não é pessoalmente identificado, mas ele faz parte de um grupo listado no expediente do jornal. Dessa forma, entre as pessoas implicadas no absurdo da "ditabranda" estão as seguintes (informação retirada diretamente do website da Folha): Presidente: Luís Frias - Diretor Editorial: Otavio Frias Filho - Superintendentes: Antonio Manuel Teixeira Mendes e Judith Brito - Editora-executiva: Eleonora de Lucena - Conselho Editorial: Rogério Cezar de Cerqueira Leite, Marcelo Coelho, Janio de Freitas, Gilberto Dimenstein, Clóvis Rossi, Carlos Heitor Cony, Celso Pinto, Antonio Manuel Teixeira Mendes, Luís Frias e Otavio Frias Filho (secretário). Tudo o que qualquer editorialista escreve é aprovado pelo diretor editorial, quando não parte da sua própria mão.

2) O ombudsman da Folha teve seus poderes severamente limitados no ano passado. O ocupante anterior do cargo, Mário Magalhães, deixou de renovar seu mandato em abril de 2008, quando a direção condicionou a sua permanência à não publicação na Web das críticas diárias que ele dirige internamente à redação. A ouvidoria do jornal foi deliberadamente castrada, e a sua razão de existir, enfraquecida. Qual a motivação de tomarem essa decisão àquela altura?

Há gente dizendo que o uso de "ditabranda" num editorial da Folha é o pior erro de opinião cometido pelo jornal em décadas. Não pode passar batido. Além das críticas pesadas vindas de todos os cantos da imprensa, muita gente aproveitou para relembrar que a Folha viveu confortável durante a ditadura. Vieram à tona denúncias de que a direção do jornal ajudou a entregar gente para o regime. Por qualquer ângulo que se olhe - informação, marketing, ética-, e independentemente da posição ideológica do leitor, o resultado dessa controvérsia para a Folha é desastroso.

No fundo, o que está em jogo aqui não é uma questão de ideologia, informação, poder ou justiça: é simplesmente hipocrisia. Toda a elaborada máscara do marketing moral da Folha caiu pelo peso de uma única palavra.

A charge e o artigo estão disponíveis no blog Different Thinker, de Mario Amaya, e pesquei no blog do meu amigo Patolino.

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