Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

domingo, 29 de março de 2009

Bibliotecas: alguns prefeitos são contra!!!!!

Foto: Ana Helena Tavares
Quem não gosta de boas notícias?
Por Affonso Romano de Sant'Anna

Estava eu, recentemente, numa reunião de "mediadores de leitura" em São Paulo com escritores, contadores de estória, professores, bibliotecários, ONGs ligadas à leitura, representantes de secretarias de cultura, de vários ministérios e até da Presidência da República e soube de algo não só importante, mas gratificante para quem tem dedicado a vida ao desenvolvimento do país através da cultura.

Foi dito que dentro de alguns meses se poderá anunciar que todos os municípios brasileiros, enfim, têm uma biblioteca. São cerca de seis mil municípios. Desses, os últimos 360 estão finalizando as condições para montar suas bibliotecas. Isto me dá vontade de escrever alguma coisa na série " meninos, eu vi!", prolongando aquilo que um mártir da literatura- São Bartolomeu de Campos Queirós - dizia naquela reunião sobre as crenças e descrenças de nossa geração em relação à leitura.

Lembro-me, quando assumi a direção da Fundação da Biblioteca Nacional no final de 1990 e essa instituição era responsável pela política do livro e da leitura Encontrei aí uma situação lastimável. Cerca de três mil municípios não tinham sequer uma biblioteca. Lançamos a campanha, " Uma biblioteca em cada município", criamos o Sistema Nacional de Bibliotecas e o Proler. Vinte anos se passaram. Dizia Drummond num de seus poemas: "Vinte anos: poderei tanto esperar o preço da poesia?".

Pois nesse ínterim, pessoas as mais diversas, desencadearam subsequentemente ações e projetos, e hoje, minha geração está prestes a ver concretizada uma geriátrica aspiração. Mas não é fácil, não foi fácil e sempre será difícil. E lhes conto agora umas coisas constrangedoras, mas reais sobre nossa relação com as coisas da cultura.

Começo lembrando que há um ano o governador Aécio nos dizia, durante a entrega de um prêmio literário no Palácio da Liberdade, que tinha praticamente zerado o número de município sem biblioteca. Fez, no entanto, uma revelação patética: uns três prefeitos haviam se recusado a aceitar bibliotecas em seus municípios. A gente ouve isto e quase cai fulminado de indignação. Mas agora neste reunião em São Paulo, autoridades do Ministério da Cultura também dizem que uma meia dúzia de prefeitos não querem bibliotecas. Por isto, não se poderá dizer que essa questão foi zerada.

Possivelmente tais prefeitos nunca viram um livro, e temem que o livro morda. Estão certos, o livro morde mesmo. Transforma as pessoas e as comunidades. Portanto, se eles continuarem recalcitrantes, acho que se deveria fazer reportagens com esses espécimes raros, e mais: desencadear um plebiscito nessas prefeituras. Ou então, apresentar um livro a eles, quem sabe até gostem?

Essas coisas sempre me lembram Oswaldo Cruz, há uns cem anos, tendo que obrigar a população do Rio a se vacinar contra a febre amarela. Leitura é uma vacina. E há quem tenha medo dela, preferindo amarelar ignorantemente.

São só esses prefeitos? Não, mesmo entre figuras notáveis há (ou havia) um descaso e preconceito contra o livro e a cultura. Lembro-me que Edson Nery da Fonseca há uns 50 anos chamou a atenção de Lúcio Costa, que havia esquecido de planejar uma biblioteca pública em Brasília. E me lembro que quando o governo nos anos 90 projetou a construção dos 5.000 CIACS, descobri que tinham simplesmente se esquecido de botar naquele formidável espaço de ensino, a biblioteca. Tive que ir à Brasília arrancar isto à fórceps...Infelizmente o projeto dos CIACS foi abortado, fizeram só algumas centenas e não sei que fim levaram suas bibliotecas.

E assim se passaram 20 anos.

Daqui a 20 anos o que será?

Quem sobreviver, verá.

Texto originalmente publicado nos jornais "Estado de Minas" e "Correio Brasiliense", de 22 de Março de 2009, e reproduzido do blog oficial de Affonso Romano de Sant'Anna.

Um comentário:

Anônimo disse...

ESTEPOETA É UM LUXO! AMO DE PAIXÃO!

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