Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Traço de mestre

Sionismo, as armadilhas de origem

Na melhor das hipóteses, o que Israel aceitará como “solução palestina” será um gueto, um território sem soberania, definido pelas alegadas necessidades de segurança e seus imperativos nacionais. Como alternativa à desocupação de Gaza, um Estado virtual? Ainda está longe o dia da coexistência de dois Estados na Palestina. O artigo é de Carlos Eduardo A. Martins e Gilson Caroni Filho.

Carlos Eduardo A. Martins e Gilson Caroni Filho

“Tem que olhar todos os pedaços. Tem que desmontar tudo. Aí você vai entender.”
Leon, personagem fictício, em Whisper vol. 2 no. 36, maio de 1990, autor: Steven Grant.

Dois artigos publicados há algum tempo pela Folha de S. Paulo, antagônicos e ambos falhos oferecem, em paralelo, bom ponto de partida para a discussão da ideologia do sionismo territorialista e suas implicações. O do jornalista inglês Daniel Finkelstein, reproduzido do The Times de Londres no suplemento Mais! de 11/01/2008, é uma defesa apaixonada do sionismo; o de Mateus Soares de Azevedo (em Tendências / Debates, de 14.01), uma condenação.

Azevedo falha duplamente. Primeiro, ao afirmar que o sionismo seria “uma ruptura com a tradição judaica”, o que não é de modo algum. Segundo, e mais importante, ao condená-lo por critérios morais, usando o termo “egoísmo coletivo”. Qualquer hobbesiano dirá, coberto de razão, tratar-se de uma tautologia, pois é o egoísmo o móvel fundamental das ações tanto de indivíduos quanto de grupos. O que Azevedo não percebe é que o sionismo só pode ser “condenado” a partir da análise de sua essência.

É essa “essência” que Finkelstein se propõe a defender. Após um longo “nariz de cera” (em que não se peja de apelar à figura emblemática de Anne Frank), passa a historiar o sionismo territorialista moderno, a partir de seu patrono, o jornalista húngaro Theodor Herzl, autor de Der Judenstaat (O Estado Judeu), de 1896.

A premissa de Herzl é que os judeus não podem se fiar na “opinião pública mundial” ou na “comunidade das nações”, que sempre assistiram impassíveis às incontáveis perseguições sofridas pelo povo judeu através dos séculos. Os judeus teriam que assegurar sua sobrevivência, como povo e como indivíduos, por seus próprios meios. O que só seria possível com o estabelecimento de seu Estado nacional soberano, para o que Herzl indica a Palestina (então sob domínio turco), local do último Reino de Israel.

Além do livro, considerado o marco inicial do moderno sionismo político, Herzl foi um ativo militante do ideal sionista, que pregou por toda a Europa, além de, como líder do movimento, conduzir negociações com a Turquia e o Egito.

A ideologia territoralista é excludente. Em momento algum Herzl advoga pública e explicitamente o extermínio ou a expulsão violenta dos palestinos não-judeus. Mas deixa claro, em seus diários, que eles deveriam ser “persuadidos a se retirarem”, por meios econômicos como o confisco de suas terras e outras propriedades e a recusa em lhes dar emprego. Ou seja, em instância final Israel deveria ser o lar exclusivamente dos judeus – e inclusiva e idealmente de todos os judeus do mundo, que só ali teriam assegurada sua sobrevivência.

Herzl tampouco define fronteiras específicas para o Estado judeu, referindo-se genericamente à “Palestina”. Mas da mesma forma antevê o caráter necessariamente expansionista de tal Estado, até mesmo para acomodar a desejada imigração em massa. É significativo que, nos documentos oficiais do governo Israelense, o território de Israel engloba hoje toda a Palestina, Gaza, Cisjordânia e Golan incluídas.

Embora Finkelstein compartilhe do equívoco de Azevedo ao afirmar que “a origem do Estado de Israel não está na religião”, é óbvio que as propostas de Herzl estão imbuídas da visão toráica de “povo escolhido” (à exclusão de todos os demais) e de “destino manifesto” – de resto não diferentes da professada pelos proponentes do PNAC, Plano para um Novo Século Americano, que norteou o “bushismo” nos Estados Unidos – a começar pela escolha da “Terra Prometida” para lar do Estado de Israel.

Mas o discurso herzliano é totalmente laico (o que foi desprezado pela “esquerda sionista”, que acedeu em criar Israel como um Estado confessional, vide a Estrela de David em sua bandeira). E seus objetivos, estritamente materiais: terra e poder.

Quer seu criador estivesse consciente delas ou não, as implicações da ideologia sionista territorialista são inescapáveis. E Finkelstein as explicita: “Assim, quando se pede a Israel que respeite a opinião mundial e confie na comunidade internacional, não se está compreendendo o ponto fundamental. A própria idéia de Israel é uma rejeição dessa opção. Israel só existe porque os judeus não se sentem seguros como tutelados da opinião mundial.”

Daí se depreende inevitavelmente que quaisquer “negociações” ou “acordos” não têm valor para Israel, que os usará se conveniente assim como os ignorará se e quando, a seu exclusivo juízo, for necessário para sua segurança. Finkelstein continua sua explanação sem se dar conta de que explicita o que a propaganda sionista tenta ocultar: “Israel entregará suas armas quando os judeus estiverem em segurança, mas não o fará enquanto não estiverem.” E só a Israel compete dizer se a “segurança” foi alcançada ou não, bem como até onde o Grande Israel terá que se estender até então.

Mas o sionismo não recorreu à comunidade internacional, representada pela ONU, para formalizar a partilha da Palestina e a criação do Estado de Israel? Sim, mas por mero oportunismo, valendo-se da “consciência culpada” dos gentios face ao Holocausto e explorando as tensões geopolíticas entre as antigas potências coloniais européias, Inglaterra (já detentora do “mandato palestino”) e França à frente, Estados Unidos e União Soviética, além da divisão entre os países árabes. E só o fez por constatar que o caminho da violência e do terrorismo não levaria à consecução de seus objetivos.

Portanto, por sua própria origem e seu cerne ideológico, o Estado de Israel se definiu como uma nação que despreza a opinião mundial, não reconhece a comunidade internacional e ignora quaisquer decisões colegiadas que não lhe pareçam convenientes.

É por isso que Israel jamais concordará com a criação de um Estado Palestino, que o obrigue a ceder parte de “sua” terra (como na canção-tema do filme Exodus, “Esta terra é minha / Deus deu esta terra para mim”). Certamente é esse o motivo pelo qual Israel nunca hesitou, e nunca hesitará, em promover “limpezas étnicas” e guerras de extermínio, pelas armas ou pelo boicote, assim como não hesita em atacar instalações e veículos da ONU e da Cruz Vermelha Internacional, “intruso” na “minha terra".

Um Estado que nunca acatou uma resolução da ONU, que viola sistematicamente o Direito Internacional, só pode ser convencido por uma política de contenção de força. Dado o poder de veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da Organização, essa é uma proposta impossível, mas o que é a história senão a concretização de impossibilidades? Um jogo vital que põe por terra as certezas positivistas

Em 2004, numa decisão histórica, a Corte Internacional das Nações Unidas, em Haia, decidiu que a parte da barreira de 685 quilômetros que Israel estava começando a construir nos territórios palestinos violava a lei internacional. O então ministro das Finanças, Benjamin Netanyahu, foi categórico: ”O que vai acontecer agora é o seguinte: o assunto vai para a Assembléia-Geral da ONU. Eles podem decidir qualquer coisa. Podem dizer que a Terra é chata. Isto não fará com que a decisão seja legal, verdadeira e justa".

Como se vê, na melhor das hipóteses, o que Israel aceitará como “solução palestina” será um gueto, um território sem soberania, definido pelas alegadas necessidades de segurança e seus imperativos nacionais. Como alternativa à desocupação de Gaza, um Estado virtual? É isso o que propõe o colossal aparato político-midiático sionista? Sujeitar a humanidade a seu planisfério?

Ainda está longe o dia da coexistência de dois Estados na Palestina. Atualmente há uma geração, em Gaza e na Cisjordânia, que conhece apenas a vida no gueto. Jovens que aprenderam, com a última ofensiva israelense, que a existência dos filhos de Ismael só é possível sob o refúgio incerto de uma barricada.


Carlos Eduardo Alcântara Martins é economista.e pesquisador.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.


Texto originalmente publicado em 21 de Janeiro de 2009 no site da "Agência Carta Maior"

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