Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Traço de mestre

A TV Globo, suas Floras, seus Josés

Se uma boa maneira para se analisar uma notícia é o ângulo sob o qual o fato que a gerou é abordado, a edição do Jornal Nacional que foi ao ar no dia 16 de janeiro é rica pelo que contém de tendenciosidade e sonegação informativa.

Gilson Caroni Filho

As solicitações da alta cúpula das Organizações Globo não precisam ser repetidas várias vezes. Editores, apresentadores e repórteres que lá trabalham já as têm como segunda natureza. São seus estatutos de verdade, dispositivos de criação de sentido e únicas formas aceitáveis de retratar a realidade e os atores que nela se destacam.

Se uma boa maneira para se analisar uma notícia é o ângulo sob o qual o fato que a gerou é abordado, a edição do Jornal Nacional que foi ao ar na sexta-feira, 16/01/2009, é rica pelo que contém de tendenciosidade e sonegação informativa. Revela como o jornalismo global adota ritos de exclusão para quem já condenou a priori. Não estamos descrevendo um mero desvio padrão, mas o quanto há de singular na construção do discurso noticioso.

Ao anunciar a decisão judicial que absolvia o ex-ministro chefe da Casa Civil da presidência da República de um processo movido por ação do Ministério Público Federal, a jornalista e apresentadora Fátima Bernardes se limitou a informar que "Justiça Federal de Brasília excluiu os ex-ministros José Dirceu e Anderson Adauto de uma ação de improbidade administrativa relacionada ao escândalo do mensalão. O juiz Alaôr Piacini alegou que os ex-ministros têm direito a foro privilegiado e não podem responder a processo por improbidade administrativa. Segundo o juiz, eles só podem ser julgados por crime de responsabilidade no Senado e não no Judiciário. Os ex-ministros ainda respondem a uma ação penal no Supremo Tribunal Federal e a outras quatro ações por improbidade também na Justiça Federal."

A "concisão" textual, no entanto, oculta um detalhe e, como todos sabem, é nele que mora o diabo. A sentença é clara ao dizer que não há indício de qualquer ato de improbidade administrativa cometido por José Dirceu. E mais, como noticiaram outros veículos, inclusive o diário das Organizações, Alaôr não poupou críticas aos procuradores que subscreveram a petição por "proporem cinco ações de improbidade versando sobre os mesmos fatos”.

Será que o trecho omitido mostra algo que cale fundo no fazer jornalístico da TV Globo? Descortinaria uma pactuação do Judiciário com o roteiro da grande imprensa? Se, como destacamos em artigo escrito para Carta Maior (“Sobre organizações e seus crimes” 31/08/2007) “a conduta do STF foi festejada pelo Partido Globo como absolvição política de sua cobertura jornalística”, qual seria a reação em caso de mudança de rumo? Deformar ainda mais a informação ou fazer mea- culpa? Ressalve-se aqui que nossa postura permanece a mesma. Não prejulgar, respeitando o princípio do contraditório e da ampla defesa assegurado pela Constituição Federal.

É bom lembrar que Piacini explicou que o teor das outras ações é idêntico ao do processo no qual o nome de Dirceu foi excluído. Pode ser o prenúncio de mudança de uma trama. Um ponto a partir do qual a justiça possa ser feita dentro do seu próprio campo, sem sobreposição de editoriais furiosos e recortes elaborados nos laboratórios do monopólio informativo.

Encerrada a novela das 21h, resta saber quem será a “ Flora” da vida política brasileira, seus crimes e canções prediletas. Afinal, Ali Kamel sabe o quão folhetinesco é o jornalismo da Rede Globo. Um reforço dramatúrgico teria alguma serventia.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.


Texto originalmente publicado em 18 de Janeiro de 2009 no site da "Agência Carta Maior"

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