Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Traço de mestre

O lapso de um jornalismo relapso

Em um texto postado em seu blog, no dia 14 de novembro, Ricardo Noblat chamou o presidente do STF de "Gilmar Dantas". É bom lembrar que para Freud, esses desvios eram sintomas de um compromisso entre o intuito consciente da pessoa e o reprimido.

Este artigo foi originalmente escrito para o Observatório da Imprensa. Publicá-lo, com versão ampliada em Carta Maior, é uma forma de aumentar os espaços de discussão para os que ainda acreditam que um outro jornalismo é possível. Aqueles profissionais que recusam, na medida do impossível, qualquer prática jornalística que solicite desvios éticos, distorcendo a realidade e caluniando quem considera adversário político. Uma aposta difícil, mas irrecusável.

Quando a imprensa abre mão de ser uma instância de afirmação republicana – e é preocupante a freqüência com que isso vem ocorrendo diariamente – não comete apenas um grande desvio: deixa mesmo de ser imprensa para se tornar departamento de negócios diversos.

É sempre bom recordar o que disse Washington Novaes: "jornalismo não é profissão a ser exercida em nome próprio", mas por delegação da sociedade, a quem legitimamente pertence a informação. Em tempos de enganos nem sempre involuntários, um legítimo, de safra recente, deve ser examinado com humor e atenção. Apresenta-se como subtexto absurdo de intenções inconfessas.

O texto postado por Ricardo Noblat, sexta-feira, 14 de novembro, em seu blog supostamente jornalístico, nada mais é do que um ato falho, um desejo do inconsciente realizado através de um equívoco. É bom lembrar que para Freud, esses desvios eram sintomas de um compromisso entre o intuito consciente da pessoa e o reprimido. Se tivesse acesso ao que escrevem alguns jornalistas da grande imprensa nativa, vários conceitos psicanalíticos seriam revistos à luz da razão cínica que predomina nas redações.

Em poucas linhas, Noblat afirma que “o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Felix, já identificou o araponga da Agência Brasileira de Inteligência que grampeou a conversa travada por telefone entre o ministro Gilmar Dantas, presidente do Supremo Tribunal Federal, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). Trata-se do mesmo araponga que entregou à revista VEJA a transcriação da conversa”.

Ao misturar o prenome do ministro com o sobrenome do banqueiro, o jornalista deu forma ao que os dicionários definem como simbiose: "associação entre dois seres vivos que vivem em comum". Um espécime que só existe no plano ideal da politização do Judiciário e da mídia partidarizada.

Importante destacar que, no mesmo dia, o jornalista postou um comentário com título sugestivo:” Uma nova vaia faria bem a Lula”, sugerindo hora e local: ”Seria bom para o excesso de auto-estima de Lula que ele fosse vaiado durante o jogo da próxima quarta-feira em Brasília entre a Seleção Brasileira e a Seleção de Portugal. A vaia que ele tomou no Maracanã na abertura dos Jogos Pan-Americanos já faz mais de um ano”.

É bom observar as angústias dos impolutos Catões da mídia e compreender as angústias que os afligem. Afinal, a crise econômica ainda não chegou com a intensidade por eles desejada. E o noticiário já dá mostras de qual será sua tônica nos próximos meses: a desconstrução simbólica de Lula, se possível com “argumentos” para torná-lo inelegível a partir de 2010. Relatos tão fidedignos quanto a “transcriação” de fatos e fitas. Insondáveis são os motivos que levam ao surgimento de neologismos tão expressivos.

Repito o que escrevi em artigo escrito recentemente publicado. O que permite tamanha desenvoltura na desfaçatez é a conjunção dos bem-intencionados que nada percebem com a esperteza dos bem selecionados peixinhos do "aquário".

É interessante a cadeia alimentar do campo jornalístico. Da labuta dos peixes de mercado, os ornados e pomposos extraem os nutrientes para os interesses dos peixões associados em empreendimentos políticos e econômicos. Qualquer advertência crítica à perfeição desse "ecossistema" soará como grito paranóico. Mas a leitura atenta não pode ceder aos reclamos do senso comum das redações.

Afinal, é lá que está sendo concebido o bloco de poder sonhado pela direita nativa: aquele tem no comando o “Gilmar Dantas” do blogueiro. É dura a disputa para saber quem ficaria como porta-voz da presidência. Mas pelas afinidades político-estilísticas, qualquer escolha será aplaudida pela “bancada dos analistas confiáveis”. Distintos senhores e distintas senhoras, espalhados nos mais diversos veículos, fazem desse sonho profissão de fé.

P.S: Quando esse artigo estava pronto, Ricardo Noblat, alertado por seus leitores, revisou o texto. Ou seria melhor falarmos em retificação de ato falho? Mas, como seguro morreu de velho, já havíamos feito um “screeenshot”

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.


Texto publicado, em 18 de Novembro de 2008, no site da "Agência Carta Maior"

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