Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Traço de Mestre

Deolinda e os pequeninos

O que movia Deolinda de Jesus, sua epifania diária, era o engajamento na luta para mostrar que a injustiça que faz, cada vez mais, uns poucos terem muito e quase todos não terem nada, não tem fatalidade histórica alguma. Repetia com João XXIII que o "supérfluo se mede pela necessidade dos outros”.

O olhar era ao mesmo tempo severo e sereno. A firmeza de suas convicções não tinha filiação ideológica ou vínculos partidários. A pele enrugada - e tão bem marcada - mostrava o mapa de travessias que começaram no mar de Portugal, passaram pela Cuba de Fulgêncio Batista, antes de aportar no Brasil de Getúlio.

Deolinda de Jesus, corpo franzino, era uma fortaleza ética. Como poucos, conjugava, com inflexível concordância, princípio e prática, intenção e gesto. Sua ira santa se voltava para uma única causa: o abandono dos "pequeninos", princípio e fim de qualquer evangelho que cansou de ler com paixão.

Quando a conheci, em Nova Iguaçu, à época o maior município da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, já tinha passado dos 70 anos, mas vivia a plenitude de um catolicismo que se revigorava na Teologia da Libertação. Com fala rápida e um agudo senso de humor, replicava qualquer crítica que fosse feita a Dom Adriano Hipólito, o bispo que não teve medo de enfrentar a ditadura militar e o caciquismo político da Baixada. "Quem fala mal dele é porque não gosta dos pequeninos", sentenciava categórica. Estávamos em meados dos anos 1970.

Em sua casa modesta, no bairro da Nova Califórnia, havia lugar para pouca coisa. Um sofá, uma estante em que ficavam imagens de santos, o presépio que deixou para a neta mais velha, o rádio onde ouvia a “Hora da Ave Maria”, além do material impresso que trazia da Igreja. Ao lado, uma velha televisão que funcionava precariamente.

O que a movia, sua epifania diária, era o engajamento na luta para mostrar que a injustiça que faz, cada vez mais, uns poucos terem muito e quase todos não terem nada, não tem fatalidade histórica alguma. Repetia com João XXIII que o "supérfluo se mede pela necessidade dos outros”. Sabia, por trás dos óculos de grossas lentes, que quem vive em estado de necessidade absoluta, vive na servidão.

O que pregava era sua opção pelos pobres (principalmente os "pequeninos") e a luta contra o mais capital de todos os pecados:o da exclusão. "Não foi contra isso que o verbo se fez carne?" indagava a quem a via reproduzir os enunciados da "teologia menina". A mesma que, pelas palavras de Dom Pedro Casaldáliga, afirmava que "Deus só é Deus onde o homem é homem".

Assim Deolinda de Jesus viveu sua paixão. Em um município que estava entre os de pior situação econômica na região metropolitana do Grande Rio. O percentual da renda apropriada pelos 20% mais pobres era de 2, 64%. Em contrapartida, os 20% mais ricos, se apropriavam de 56,19% da riqueza produzida.

Uma conta que não fechava nos salmos que, em 1987, parou de ler. Mas deixou seu verbo como herança e sua indignação como norte para os que ficaram. Um exemplo seguido por sua bisneta, Mariana, hoje médica empenhada na promoção do bem público.

Passados 21 anos, a Nova Iguaçu que deixou mudou bastante, ainda que o esgoto a céu aberto ocupe metade da cidade. O atual prefeito, Lindberg Farias, afirma que "não há caminho que não passe por políticas públicas, especialmente voltadas para as crianças (os pequeninos de Deolinda) e os jovens".

Há uma rede educacional sendo criada para atender à população com educação de qualidade, acesso a programação cultural, bibliotecas, inclusão digital e saúde.

No próximo dia 5, a população do município decide qual marco de cidadania deseja. Se a ampliação dos sujeitos titulares de direitos ou os privilégios do velho caciquismo, hoje na oposição. Se viva fosse, Deolinda não hesitaria. Seu voto sempre foi dos pequeninos. Por que seria diferente agora?


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.


Texto originalmente publicado, em 01 de Outubro de 2008, no site da "Agência Carta Maior" http://www.cartamaior.com.br

Um comentário:

AnaLu Fernandes disse...

Difícil é decidir entre "os sujeitos titulares de direitos e o caciquismo agora na oposição", quando podemos ver que os anos passam, as promessas aumentam e as dificuldades do povo crescem ainda mais a cada dia. Será que quatro anos é pouco tempo para solucionar pelo menos parte de um esgoto que corre a céu aberto em tão grande município? O Que será mais importante: Inclusão digital ou curar verminoses causadas pela exposição do que o céu com o qual sonhou Deolinda não gostaria de ver?

"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

Este blog adota a