Quero ser Ricardo Kotscho para andar pela rua e não me acomodar num computador. Quero ser Robert Fisk para guerrear pela paz tendo como arma um microfone. Quero ser Hélio Fernandes para me libertar pelas grades e não me prender a cifrões. Quero ser Gay Talese para cuidar de cada palavra e ser sensível ao sentimento das pessoas. Quero ser Zuenir Ventura para escrever as minhas histórias dos outros. Quero ser Alberto Dines para observar a mim mesma. Quero ser John Reed para narrar dias que abalaram o mundo. Quero ser muitos. Eu mesma. Sou um ser em construção.

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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Só o afago vence a faca

Hoje, 18 de Junho de 2015, foi um dos dias mais bem-dispostos que já tive. Saí de casa com vontade de ser feliz. De abraçar o mundo. Dar flores ao delegado. Passei por uma banca de jornal e vi O Sol. Ele voltou. E me veio aquele misto de alegria e preguiça. Comprei O Sol por três reais. Uma pechincha. Mas ainda não li. Se sob o sol dos anos 60 já ninguém lia tanta notícia, imagina agora. 

Com O Sol na bolsa, presencio a treva. A polícia trata um ambulante que rouba no varejo de uma forma que nunca trata quem rouba no atacado. Mais à frente, um adolescente. Um belo moreno de seus 16 anos. Maltratado pela vida, não quis me maltratar. Me pediu que eu lhe comprasse um pacote de balas (de mascar!) pra ele vender. Fui com ele até a loja de balas e os olhos dele brilhavam me agradecendo pelo simples fato de eu lhe dar atenção. 

Quando eu estava lhe dando o dinheiro pra ajudar nas balas, um segurança privado com coração cravado de ódio me diz, com as mãos na cintura e olhar ameaçador: "A senhora vai alimentar o vício dele?". Respiro fundo e digo: "Sou adulta, pago meus impostos, sei o que faço". O Segurança vai para um canto. Dou um tapinha no jovem e digo: "Sucesso na vida, amigo". 

Vou embora com a certeza, a absoluta certeza, que o amor transforma facas e afagos.

Ana Helena Tavares

domingo, 31 de maio de 2015

Quantos?

Quantas perguntas cabem em 1 minuto?

Quantas respostas fogem em 1 segundo?

Quantos amores nascem em um quarteirão?

Quantos pecados morrem sem ter nascido?

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Em busca de um raio de sol



Todo dia 13 de maio é a mesma coisa. Castro Alves me aparece, fazendo perguntas, dizendo que está triste e que quer conversar. Acaba me contaminando com sua melancolia. E o resultado é uma conversa de bêbado.
Castro: “Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam, Galopam, voam, mas não deixam traço.”
Eu: Venho de perto. Daqui mesmo. Aqui nasci. Roubaram-me o rumo. Tudo é cansaço. Mas naquele raio de sol, Me apego e me refaço.
Castro: ”Bem feliz quem ali pode nest’hora Sentir deste painel a majestade!”
Eu: Aquele raio é minha única vontade O quero tanto e tanto na mesma medida em que morro tanto e tanto Por isso o quero.
Castro: “Esperai! esperai! deixai que eu beba Esta selvagem, livre poesia”
Eu: Como esperar, nobre poeta? Donde venho é desse chão Onde vou? Beijá-lo, claro!
Castro: “Por que foges assim, barco ligeiro? Por que foges do pávido poeta? Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira Que semelha no mar — doudo cometa!”
Eu: Não fujo de ti, ilustre trovador! Nem sei bem de que fujo, talvez de mim. Como se eu pudesse enganar minha dor Como se desejo tivesse fim Sabes o que meu desejo quer, ilustríssimo? Desejar mais e mais!
Castro: “Sacode as penas, Leviathan do espaço, Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.”
Eu: Bem queria eu ser uma gaivota Dividiria, sim, as minhas asas e voaria contigo lado a lado. Que graça tem voar numa só nota? A mesma graça de um desejo saciado…
Castro: “Donde é filho, qual seu lar?”
Eu: Deves estar achando que não digo coisa com coisa, acertei? Afinal quero ou não a liberdade? Sabe, é que essa cachaça, esse luar… Abalam a pessoa que é uma loucura… Mas é que a liberdade, de tanto que se a procura Quando se acha ela se parece com o mar… Bela, vasta e de dar medo.

sábado, 9 de maio de 2015

De anjos e demônios


Um anjo
Mais protegido
Do que protege

Uma mulher
Conhece seu alvo
O persegue

Um demônio
Asas douradas
O disfarçam

Uma fênix
Se transforma em meta
De sua própria história.


Ana Helena Tavares

domingo, 26 de abril de 2015

Vá com calma com a alma, mergulhe com o corpo


Mergulhar com o corpo
É menos perigoso
Que mergulhar com a alma

O corpo precisa
Festejar seus desejos
A alma se fere
Com os falsos beijos

Mergulhar com a alma
É mais ambicioso
O corpo só tem a ambição
De em outros corpos mergulhar

A alma é paciente
O corpo só se cura
Quando outro o procura.

Ana Helena Tavares
26/04/2015

domingo, 1 de março de 2015

Interrogatório



Onde se faz a revolução?
Nas ruas, na cama, no chão.

De que nasce a revolução?
Da luta, de beijos, de um grão.

Como se faz a revolução?
Com sangue, com a boca, com a mão.

Por que se faz a revolução?
Por sonhos, por corpos, por pão.

Ana Helena Tavares - 01/03/2015 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Versos em safra


Que estafa!
De ver o que já foi visto
De não sentir um imprevisto
Ops, será que arrisco?
Então... Nem pisco!

Que safra!
De colher o que plantou
De sofrer o que calou
De viver o que sobrou
De não ser o que mudou

É garra...
De lutar por todo o grão
De mirar o gavião
De amar com paixão
De juntar mão com mão.

É farra...
Da cor que se mistura
Da dor que vence a surra
Da flor que se aventura

Do amor que é loucura.

Ana Helena Tavares

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Em algum lugar



No céu, rajadas de paz. 
Na terra, um gosto profundo. 

No radinho 
jogado ao pé de um tronco, 
promessas de amor e delírio. 

Ao som do balanço das árvores, 
a velha casota espia tudo. 

O banco é o mesmo, 
mas quem senta nele é o passado. 

O lago continua esplendoroso, 
sempre encantando o olhar do menino. 

Que corre sorridente, 
alheio à quentura do sol. 

Já é possível sentir o cheiro do almoço. 

Mas os pássaros, 
tal como os meninos, 
só querem saber de voar. 

Ana Helena Tavares

sábado, 21 de fevereiro de 2015

De chão e de céu



Ontem foi água
Hoje é fogo
Amanhã vento
Que espalha a terra

Ontem concreto
Hoje delírio
Amanhã uma soma
De chão e de céu

Ontem eu sabia de coisas
Que hoje desprezo
Sei hoje de coisas
Que ontem me salvariam

Sei nunca de nada
E me guio pro amanhã
Sei hoje de tudo
O que já não me salva.

Ana Helena Tavares - 21/02/2015

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Vênus e Marte


Vênus encontra Marte
No desencontro da noite

"Mate-me", diz Vênus
"Ame-me", diz Marte

Quero tudo o que for contrário!

Que me mate lentamente
E me ame do avesso.

Quero tudo o que não conheço!

Ana Helena Tavares - 20/02/2015

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Bailinho



O primeiro me chegou
No fervor da Lapa à noite
Ao meu lado se sentou
Pra vender revistas. E beijar

Me trouxe um livreto de poemas
Ao teatro me acompanhou
Lá ele nunca tinha pisado
Entramos num mundo inesperado

E por ser um mundo tão perigoso
Com drogas e grades antigas
Sem conversas, letras nem cifrões
A ilusão não se demorou

O segundo me chegou
No silêncio da Lagoa noturna
Ao meu lado caminhou
Até o cais. E vimos estrelas

Uma cidade refletida na água
Um guardinha sorridente
Um cenário hollywodesco
E o desejo caindo com a chuva

A mão no vidro molhado
Lembranças de viagem na bolsa
Mas o carro não podia ir longe
Amigos de infância, amores fugazes

O terceiro me chegou
Como quem me admira
Pediu pra ir se aproximando
Foi entrando em minha vida

Me trouxe um livro publicado
E lembranças da família
Com muita música. E alegria!
Entramos um dentro do outro.

Veio sem carro. Nem lenço
Jogou na cama um violão
"Eu te amo" gritou a tempo
E escreveu em mesa de bar

O primeiro foi um abre-alas
O segundo o carnaval
O terceiro um beija-flor
Morando no meu quintal

19/02/2015 - Ana Helena Tavares

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O mar chora dançando


Vi um homem chorar
Chorou. Em ombro atento
Senti um homem chorar
Chorou. Teve alento

Vi, senti. Também chorei
Corei... a lágrima
que dali foi pro mar
O mar que chora dançando

A dança das ondas
que choram na areia
Num ir chorando
que volta sorrindo

E o mar ficou pequeno.
Do tamanho de cada lágrima.

Ana Helena Tavares - 13/02/2015

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Entre cantos, choros e erros


Errei. Errei. Errei
Dos meus erros nasceu Eros
Dos meus erros mais sinceros.

Chorei. Chorei. Chorei
Do meu choro fizeram coro
Nem notaram quando cantei.

Cantei. Cantei. Cantei
E o meu canto, pelo cano
Ecoou sem muito engano.

Enganei. Enganei. Enganei
A mim mesma mais que tudo.

E entre cantos, choros e erros
Ficaram bobos meus segredos.


07/02/2015 - Ana Helena Tavares

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Amar Rodados


Ele dorme. De lado
Ela anda. Desanda
Ele sonha. E o sonho tem voz
Ela pensa. No sonho. No nós

Dormir sem domínio
Viver no imprevisto
Domar a si mesmo
E só assim ser flechado.

As pétalas no chão
Spa. Amadas.
As roupas no chão
Amar. Rodadas.

Rodemos, então, como dois?
Enquanto não chega o cheiro.
Do arroz.

05/02/2015 - Ana Helena Tavares

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Névoa



Névoa. Voa. Voa
Evoé! Mente à toa
Neve. Só lá longe
Deve? Pega o bonde

O bonde da vida
Mergulha no raso
Tudo que me aflige
O que não tem prazo

Os livros e suas páginas
Cansadas.
Os discos e suas notas
Travadas.

As flores secas
São ainda
Belas.

As bandeiras despotadas
São ainda
Do meu país.

04/02/2015 - Ana Helena Tavares

Sobre as rédeas (inalcançáveis?) da vida

A estrada era uma
Até que abriu em muitas
A vida sempre foi só uma
Duas nem em sonho terás

As expectativas eram muitas
Destruídas, esmagadas
E da destruição nasceu
A chance, a brisa

Agarrar é não ter
Ter vento é ter nada
Só do nada renasço

Dá-me as rédeas, peço
E a vida sorri debochada

Ana Helena Tavares, 04/02/2015

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Minha vida se descortina



No sofá, o alento
Calmo, pulsante
No quarto, o sereno
Da chuva, já caída
A queda, a virada
Com molho picante
A reta encurvada
É hoje. É instante
Minha vida se descortina
E grita. E pulsa.
Quer carnaval. Mas quer sempre
Impossível. Ela sabe.
Buscável. Ela diz.

31/01/2015 Por Ana Helena Tavares, para Adiron Marcos
"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

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