"Quando vejo afirmações do tipo "Há lugar para todos nas redações", fico imaginando o jovem Lobato chegando hoje, 2009, à redação do Estadão, vindo lá do interior, sem ser conhecido ainda, trazendo na bagagem tão somente muito idealismo e um diploma de advogado. Sem, porém, nenhum preparo para trabalhar com imprensa, apenas a nobre disposição de aprender. Alguém tem dúvidas da recepção "calorosa"?"

(Ana Helena Tavares
em "Monteito Lobato precisava estar aqui".)

"Qual a bandeira de quem faz oposição a tudo? Podem dizer: jornalista não tem que ter bandeira. É lindo isso, mas ele tem, ainda que não deva hasteá-la no terraço do seu prédio."


(Ana Helena Tavares em "Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser")


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Traço de mestre

Foto: Agência EFE

Foto: Luciana Sarmento
Nos limites de Obama

Os recentes posicionamentos do governo norte-americano em Honduras, apoiando eleições que legitimam o golpe, demonstram a força dinâmica interna da direita estadunidense e sua capacidade para recuperar e restabelecer a agenda hegemônica imperial.

Por Gilson Caroni Filho

No início de 2009, quando Barack Obama assumiu a Casa Branca, vários analistas afirmavam que estávamos começando um novo período histórico, que marcava o fim do unilateralismo do governo anterior, dando ensejo à efetivação de um sistema global multipolar. Os argumentos eram muito convincentes. O mais poderoso Império de todos os tempos deixava para trás a doutrina Bush, abandonando a roupagem absolutista usada para negar os mais antigos direitos fundamentais do homem: os direitos civis e políticos consagrados pelo Direito Internacional.

Na América Latina, Bolívia, Venezuela, Equador, Chile, Brasil e Uruguai, entre outros, deixaram de ser portos seguros para os desígnios do capital estadunidense, graças ao avanço das forças progressistas na região. Redefinia-se um velho roteiro onde a direção do impulso político no continente parava de ser orientada no sentido de consolidação dos regimes que colaboravam com as grandes corporações, dando lugar a governos que privilegiam os interesses de seus povos, redefinindo prioridades na elaboração de suas políticas externas.

No primeiro discurso após as eleições, Obama resumia o significado simbólico de sua chegada à presidência: "se pessoas ainda têm dúvidas de que a América é o lugar onde as coisas são possíveis, que ainda acreditam que os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questionam o poder da nossa democracia, esta noite é a sua resposta."

Os recentes posicionamentos do governo norte-americano em Honduras, apoiando eleições que legitimam o golpe, sob o pretexto de que "a maneira como a eleição será conduzida vai inevitavelmente afetar condições para superar divisões políticas do país", demonstram que juízos históricos sobre inflexões desejadas têm-se baseado em análises conjunturais que subestimam a força dinâmica interna da direita estadunidense e sua capacidade para recuperar e reestabelecer a agenda hegemônica imperial.

Há uma questão central que não pode ser relegada a segundo plano. Na ausência de qualquer forma de desafio organizado das classes trabalhadoras no interior dos Estados Unidos, a margem de manobra dos segmentos dominantes do imperialismo para recuperar-se de crises econômicas sem pagar nenhum dos custos políticos e sociais que todos os seus competidores têm que enfrentar é uma vantagem comparativa colossal.

Além disso, como nos lembra James Petras, o Império, devido ao seu alcance no exterior, continua numa posição que lhe permite aproveitar os principais benefícios de outros países, “através de seus contatos políticos-militares, mantendo assim, sua vantagem sobre a Europa e Ásia em escala crescente”. É preciso uma leitura muito apressada para falar em crise de hegemonia.

O recuo quanto ao prazo de fechamento da prisão militar na Baía de Guantánamo, a instalação de bases militares na Colômbia, a escalada bélica, com aumento de 10 a 15 mil soldados para ”terminar o trabalho" no Afeganistão, os discursos ambíguos sobre o Iraque, além da falta de propostas concretas para a Conferência do Clima, em Copenhague, não ferem apenas esperanças e ilusões. Soam como um sinal que não pode ser desconsiderado por quem deseja uma nova ordem internacional.

Não serão discursos protocolares, repletos de petições bem- intencionadas, que deterão o que os Estados Unidos julgam ser sua “missão civilizadora". Em uma América Latina que grita e se revolta, a vitória golpista em Honduras se apresenta como uma oportunidade histórica para a esquerda não sectária. Atualizando conceitos e categorias, é hora de elaborar um programa que se apresente como inconfundível estratégia contra-hegemônica.

Obama jamais desconsiderou a correlação de forças internas que limitam as possibilidades de uma reversão da política externa norte-americana. No mesmo discurso inaugural, o presidente foi bem enfático ao afirmar que “estamos preparados para liderar novamente". Interpretar essa afirmação como lapso ou arroubo de um líder inexperiente é perigoso demais para quem não quer que se confirme o velho axioma segundo o qual a América Latina roda e roda sem sair do lugar. É preciso muita atenção ao que dizem “os eleitos do mundo". Uma coisa é certa: o humor, por excessivo mau gosto, deve ser descartado de saída.

Colaboração enviada por Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Este artigo foi publicado originalmente no "Debate Aberto" do site da Carta Maior.

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Atenção blogueiros!

Justiça ordena penhora de bens de blogueiro por comentário de internauta

Da Redação do site Comunique-se

O Tribunal de Justiça do Ceará decidiu penhorar os bens do estudante de jornalismo Emílio Moreno da Silva Neto, para o pagamento da indenização de R$ 16 mil a diretora de uma escola por comentários de um internauta em seu blog. O estudante recebeu a notificação de penhora de bens neste final de semana, depois de ter perdido o prazo para recorrer da decisão, tomada em julho deste ano.

Em março de 2008, o blogueiro escreveu um post que tratava de uma briga no Colégio Santa Cecília, na capital cearense. Um internauta insultou e criticou a diretora da escola, a freira Eulália Maria Wanderley de Lima, por sua atuação na intermediação da briga entre os estudantes.

Com a repercussão do caso, no segundo semestre de 2008, a diretora abriu uma ação por danos morais contra o blogueiro. Nas primeiras quatro audiências o estudante compareceu ao Tribunal, mas Eulália não, alegando viagens e outros compromissos profissionais. Na quinta audiência a ausência foi do blogueiro, que não justificou a falta, o que levou o juiz a aceitar a ação e condenar o estudante ao pagamento de 40 salários mínimos, o equivalente a R$ 16,6 mil na época.

Blogueiro se diz injustiçado
Sem possibilidade de recorrer da decisão, o estudante diz que não possui bens para serem penhorados, e explica que tentou resolver o caso “amigavelmente”. "O que eu realmente lamento é que não tenha havido um diálogo mais tranquilo, sem que houvesse a necessidade de uma ação na Justiça. Ofereci direito de resposta, apaguei de imediato o comentário. Enfim, acho que tudo isso é fruto de um grande equívoco. Lamento realmente”.

O advogado da diretora, Helder Nascimento, disse que antes de entrar com a ação, pediu que o blogueiro retirasse o comentário e identificasse o autor da ofensa. "Pedimos para retirar e ele não retirou dizendo que era cerceamento da liberdade de expressão. Solicitamos que informasse quem era o titular do e-mail e ele se recusou. Não podemos deixar um cliente ser violentado."

Identificação do comentarista
Segundo o estudante, um escritório de advocacia entrou em contato com ele cerca de dois meses após o post, pedindo o e-mail do autor do comentário, o que o blogueiro não fez, após consultar a assessoria jurídica do Sindicato dos Jornalistas do Ceará.

Apesar de não passar a identificação do autor do comentário para o advogado, o estudante alega que retirou o comentário logo após o primeiro contato do escritório de advocacia. Segundo o blogueiro, o e-mail do internauta era falso.

Liberdade de expressão e mediação na web
Mesmo com os argumentos de defesa de Emílio, o advogado da diretora considera o estudante culpado pelo fato. "Ele é o responsável pelo blog e foram veiculadas matérias ofensivas à pessoa que é uma religiosa, uma freira. E isso foi interpretado como excesso na liberdade de expressão."

Para o advogado, houve falta de mediação. "O blog tem mediador que faz a filtragem. Se isso existe tem uma finalidade, não está ali à toa. Ele permitiu que fosse veiculada uma ofensa a outra pessoa. (...) Embora ele não se sinta responsável, tem uma responsabilidade que extrapola o querer dele."

Legislação e internet
O blogueiro se defende e acredita que a decisão foi injusta. "Me sinto tão vítima quanto a Irmã Eulália. Na minha inexperiência jurídica, fui usado por alguém que certamente e deliberadamente queria atacar a diretora da escola e usou meu blog e a minha boa fé pra isso. Acho importante ponderar isso. Me sinto usado por um anônimo e punido por algo que eu nunca queria que tivesse acontecido."

O blog de Emílio Neto, que existe desde 2006, trata da mídia local e dos acontecimentos de Fortaleza. Com a condenação, o estudante pretende levantar o debate para a criação de uma legislação clara na internet."Quero mobilizar e sensibilizar as pessoas que militam nas redes sociais da importância de discutirmos e pressionarmos nossas autoridades para uma legislação clara e que possa amparar quem produz conteúdo na rede. Toda vez que conto essa história para alguém as pessoas ficam impressionadas. Há muita desinformação sobre tudo isso."

As informações são do G1.

Confira também o artigo abaixo, mais um do excelente site "Olhar Virtual", da assessoria de comunicação da UFRJ.

Fazedores de vela

Por Taysa Coelho

No texto "A Petição dos Fazedores de Vela", do francês Fredéric Bastiat, datado de meados do século XIX, fabricantes de vela criam uma petição fictícia pedindo auxílio aos deputados franceses. No documento, os artesãos justificam o pedido pela necessidade de concorrer contra um competidor estrangeiro que oferecia luz a custo zero: o Sol. A solução dada pelos fazedores de velas seria obrigar as pessoas a vedar as janelas com tábuas, para fazer a indústria crescer e desenvolver o país.

Assim como no conto de Bastiat, os grandes proprietários de veículos de comunicação, no Brasil e no mundo, se uniram contra um poderoso difusor de informações em escala global: a internet. No dia 26 de junho, editoras associadas à Associação Mundial de Jornais (ANJ), ao Conselho Europeu de Editores e à Associação Mundial de Jornais e Editoras de Notícias (WAN, em inglês) assinaram a "Declaração de Hamburgo", em convenção realizada em Berlim, Alemanha. Juntaram-se a essas, outras seis assinaturas de empresas de comunicação de Hamburgo, feitas algumas semanas antes, totalizando cerca de 170 signatários. Alegou-se que, apesar de a internet ser uma grande oportunidade para o jornalismo profissional, são necessárias medidas urgentes para a proteção dos direitos autorais, tornando viável, de alguma forma, o equilíbrio econômico-financeiro para as empresas jornalísticas.

Livre acesso não significa acesso livre de custos

Segundo Joaquim Martins, professor da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), não há nada específico em relação ao direito autoral de textos jornalísticos. Entretanto, a legislação de direito autoral brasileira (Lei 9.610/98) protege qualquer criação literária, artística e científica que seja disponibilizada em um suporte material ou imaterial conhecido ou que se invente no futuro. “A internet é um bem imaterial. A partir do momento em que um texto nela é publicado, ele passa a ter a proteção autoral”, afirma.

A Declaração de Hamburgo também toca no ponto do conteúdo gratuito disponibilizado pelos sites, através do seguinte trecho: "Acesso livre à web não significa, necessariamente, acesso livre de custos". Martins argumenta que esta pode não ser a melhor forma de defender a propriedade dos textos. “Acredito que a cobrança pura e simples não protege a propriedade intelectual, além de não garantir que o conteúdo não se expandirá de forma exponencial e até de maneira aleatória à vontade das editoras e dos autores; assim como não assegura a possibilidade de prejuízo ou lucro. A questão é criar condições de controle, e a cobrança não se enquadra nisto”, opina.

Brasil adere à Declaração

A ação, que teve início em nível local, atingiu um cunho internacional ao atravessar as fronteiras alemãs e continuar arrecadando assinaturas ao redor do mundo. No último dia 7, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), juntamente com os jornais O Globo eFolha de S. Paulo, assinou o documento com outras entidades sul-americanas, durante 65ª edição da Assembleia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que ocorreu em Buenos Aires. Passados alguns dias, o Grupo Estado publicou nota anunciando também ter aderido. A ANJ - que representa 90% dos proprietários de jornais do país – prometeu que estimulará os 145 periódicos associados a se alinharem ao movimento.

As empresas de comunicação ameaçam reduzir o seu quadro funcional no caso de uma possível perda de receita advinda da distribuição de conteúdo gratuito. Segundo os proprietários de empresas de comunicação, isso poderia resultar em redações mais vulneráveis a usar conteúdos produzidos por empresas e governos sem a devida apuração. Deste modo, alegam, poriam-se em risco a liberdade e a independência da imprensa.

Joaquim Martins discorda. “Este é um argumento pífio das empresas de comunicação, porque sempre há necessidade de jornalistas. Esses profissionais são praticamente massacrados para trabalhar muito mais, já que as próprias empresas, para reduzir custos, em vez de procurarem outras formas de cortes, atacam no pessoal. A matéria escrita para os jornais impressos ou produzida para rádio ou televisão, muitas vezes, é disponibilizada na internet e a empresa não paga nada a mais para o funcionário, nenhuma mais-valia”, argumenta.

Google News: o grande vilão

Antes procurado para a divulgação de endereços eletrônicos, o site de buscas Google agora virou o vilão da história. A ferramenta de busca Google News – em que a pesquisa é feita entre matérias disponibilizadas na rede - é a mais atacada, com alegações de que a empresa norte-americana lucra com os acessos, sem investir na produção de conteúdo. Os empresários da mídia também afirmam que determinados conteúdos bloqueados para não-assinantes podem ser acessados por qualquer um quando se entra por um link da ferramenta.

Em resposta à Declaração de Hamburgo, o porta-voz do Google alega não ser necessário tanto barulho para a retirada de domínios do site. Segundo nota divulgada na imprensa, para isso, é necessário apenas escrever duas linhas de um código de domínio dos webmasters e os links das publicações serão excluídos de seu sistema de buscas.

“Ninguém está obrigado a publicar nada na internet. A partir do momento em que alguém cria algo em um computador e o envia a outrem, há a possibilidade de que aquilo que foi produzido vá parar na web. A publicação do conteúdo na rede é uma opção, não uma obrigação”, afirma o professor. “Uma das soluções para este problema seria a criação de sistemas de chaveamentos, em que o material disponibilizado na internet não possa ser acessado pelos agregadores, que o mostrariam, mas não dariam acesso a ele”, completa.

Assim como os fabricantes de vela da obra de Bastiat, segundo Martins, o real interesse por parte das editoras e empresas de comunicação é, na realidade, econômico. “O que ocorre neste momento é que estão percebendo que o direito autoral pode envolver um grande montante de dinheiro. É esta a questão – e nem tanto pela utilização em si. Por exemplo, se um livro ou revista é copiado em sua totalidade e colocado na rede, quantas pessoas não deixariam de comprá-lo? Então, a questão que estamos discutindo é eminentemente de direito de propriedade: o que você ganha ou o que você pode deixar de ganhar devido à disponibilização do conteúdo”, conclui.

Battisti entre o executivo e o judiciário

Por Aline Durães e Thor Weglinski, no Olhar Virtual

Na última quarta-feira, dia 18, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a extradição do escritor e ex-ativista político Cesare Battisti. Ex-integrante do grupo "Proletários Armados pelo Comunismo", na Itália da década de 1970, Battisti foi condenado à prisão perpétua pelo governo italiano em virtude do envolvimento em quatro assassinatos. Em 2007, foi preso no Rio de Janeiro e, no início deste ano, teve o refúgio político concedido pelo ministro da Justiça, Tarso Genro.

Ao tratar Battisti como refugiado, o governo brasileiro reconheceu oficialmente a perseguição política sofrida por ele na Itália. Além disso, transformou sua extradição em ato inconstitucional, já que, segundo o inciso LII do art. 5º da Constituição Federal, “não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião”.

Pressões do governo italiano, porém, levaram o Supremo a analisar o caso, mesmo após a decisão governamental. Os ministros do STF, ao contrário do Executivo, em sua maioria, não encaram os supostos delitos de Battisti como crimes políticos e defendem também que, ao ser extraditado, o ativista não seria alvo de perseguição na Itália.

Embora tenha deliberado, por 5 votos a 4, pela extradição, o Supremo Tribunal Federal determinou que a palavra final ficará a cargo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, por sua vez, já informou que só decidirá depois de ter acesso ao acórdão do STF.

Por Denise de Souza Soares, doutora em Direito Internacional e professora da Faculdade de Direito da UFRJ

“O presidente Lula não precisa de qualquer justificativa para manter Battisti no país. Ele está garantido pelo arcabouço jurídico brasileiro.”

“Battisti era considerado um terrorista na Itália. Essa definição de terrorista é uma conveniência do Estado. Ele chama assim quem ele bem entender. Você pode cometer uma chacina, matar 20 pessoas e não sofrer a mesma punição de alguém que assassinou uma pessoa e foi considerada terrorista. No caso de Battisti, há mais fatores envolvidos para além do aspecto penal. O terrorismo é essencialmente político e a legislação brasileira é clara quando determina que não pode ser extraditado aquele que for acusado de crime político. Por isso, minha opinião pessoal é a de que Cesare Battisti não deve ser extraditado.

O ativista foi julgado e condenado na Itália, enquanto estava em refúgio político na França. Embora o julgamento de um terrorista seja distinto do de um preso comum, eu não o considero válido. Para se ter noção, os antigos terroristas das Brigadas Vermelhas, na Itália, eram julgados dentro de jaulas. O julgamento de um terrorista não obedecia às regras do processo penal do preso comum nem às regras dos Direitos Humanos. Ele não possuía o direito à ampla defesa ou contato com os advogados — em alguns casos, as conversas com advogados eram, até mesmo, gravadas.

Até há algumas décadas, ser intitulado terrorista, nos meios de combate, era uma qualidade, as pessoas se orgulhavam disso. Agora, no nosso Estado, é que essa nomenclatura se constitui em uma pecha na vida de qualquer um. A retomada pelo governo da Itália, de extrema direita, da perseguição implacável a acusados de terrorismo é uma vingança e, ao mesmo tempo, uma colaboração com os Estados Unidos, é uma forma de agradar, principalmente após os eventos de setembro de 2001.

Ao decidir pela extradição de Cesare Battisti, no entanto, o Supremo Tribunal Federal atropelou o processo. Já havia sido concedido o status de refugiado ao ex-ativista e, a ele não cabe qualquer pedido de extradição. Sendo assim, o presidente Lula não precisa de qualquer justificativa ou alternativa jurídica para manter o italiano no país. Ele está garantido pelo arcabouço jurídico brasileiro. Foi o STF que entrou em confronto com o Executivo ao julgar o pedido de extradição. Isso não deveria ter sido feito. Esse julgamento fugiu de todas as regras. Atos como esse, de passar ao Executivo a decisão, é demonstrar uma extrema fragilidade, mostra basicamente que ‘eu decido, mas não mando’.

De qualquer forma, esse episódio não afeta, em hipótese nenhuma, as relações, acordos e tratados entre Brasil e Itália. É um incidente de pouca importância para abalar as relações bilaterais entre os dois países; afinal, o Estado possui interesses que vão além de meros interesses individuais. Aliás, em termos de agenda brasileira, esse caso poderia passar despercebido. Refúgio concedido é refúgio concedido e acabou.”

Por Antonio Celso Pereira, professor de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Ifcs)

“É preciso ficar claro que terrorismo não pode ser tipificado como crime político.”

“Sou a favor da extradição de Cesare Battisti, já que o Supremo Tribunal Federal (STF) analisou o caso em todos os seus detalhes e concluiu que os crimes cometidos por Battisti são de natureza comum. Os episódios estão desvinculados de qualquer caráter político. Sendo assim, a extradição é totalmente cabível.

A decisão da extradição deve partir do presidente, já que a questão é do campo da política externa, e quem faz a política externa é o Poder Executivo. A iniciativa, a execução e a implementação da política externa estão garantidas ao presidente pela Constituição Federal.

Não posso avaliar antecipadamente quais serão as consequências resultantes da permanência ou da extradição política de Battisti para Brasil e Itália. Mas não creio em nada de grande repercussão, apenas alguns protestos.

Caso Battisti permaneça no Brasil, não acredito em grandes instabilidades nas relações diplomáticas entre o país e a Itália. Num primeiro momento, alguns problemas podem acontecer, mas as relações históricas entre os dois países são muito estreitas e existem acordos que estão muito acima da questão de Battisti. Por isso, não creio em estremecimentos na relação entre os dois países.

Acho correto que os crimes políticos sejam desvinculados dos outros crimes quando se fala de extradição. No caso, Battisti pode não ser extraditado caso seus crimes sejam considerados políticos, e não comuns. Esta desvinculação é uma posição consolidada no âmbito doutrinário do Direito Internacional. Não há discussão sobre o caráter dos crimes políticos. Sobre isso, é preciso ficar claro que terrorismo não pode ser tipificado como crime político.”

Uma reunião para dinamarquês ver

Por Diogo Cunha, no Olhar Virtual

A 15ª Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COP15), que acontece entre os dias 7 e 18 de dezembro, em Copenhague (Dinamarca), corre o risco de não apresentar nenhum resultado prático. Isto porque alguns dos maiores países industrializados do mundo estão decididos a não assinar o acordo que garantiria a redução de emissão de CO2 no planeta.

Recentemente, durante reunião do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), Estados Unidos e China, junto a outros membros da Apec, deixaram clara a intenção. Diante da postura dos dois maiores poluidores da atmosfera, o primeiro-ministro dinamarquês já fala na possibilidade de um “acordo em dois passos”, sendo apenas o primeiro dado na capital dinamarquesa. Se o acordo não for firmado em Copenhague, a próxima oportunidade se dará em Bonn, na Alemanha, em abril e maio de 2010.

Mas há quem se esforce para que o encontro de dezembro não fracasse. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem utilizado sua popularidade numa campanha para salvar o encontro. A proposta de redução de emissão de CO2 entre 36% e 39% em relação ao estimado para 2020 é apresentada por Lula como estímulo para outros países também mostrarem as suas. Durante encontro com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, ambos propuseram que os países desenvolvidos, até 2050, reduzam em 80% suas emissões em relação aos níveis de 1990. Essa proposta vai ao encontro do estabelecido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês ), no documento publicado em 2007. Para os pesquisadores, os países desenvolvidos devem reduzir, até 2020, suas emissões em 40% para evitar que a temperatura da Terra aumente mais de 2ºC.

Sendo ou não assinado em Copenhague, um novo acordo global que estipula metas de redução da emissão de gases causadores do efeito estufa deve ser assumido em breve, em substituição ao Protocolo de Kyoto, que estabeleceu as metas de redução para o período de 2008 a 2012. A partir de 2013, espera-se o cumprimento de metas muito mais drásticas do que a redução de 5% a 10% para os países ricos, estabelecida em Kyoto.

Para esclarecer os aspectos em cena nesse contexto, o Olhar Virtual entrevistou Roberto Schaeffer, membro do IPCC e professor-associado do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Coppe. Roberto falou, entre outras coisas, do interesse do governo brasileiro ao apresentar a proposta de redução, da necessidade de se estabelecer metas condizentes com o estudo do IPCC e de como um financiamento para a redução das emissões dos países em desenvolvimento pode interessar aos países do primeiro mundo.

Olhar Virtual: Qual a principal atividade geradora de gases provocadores do efeito estufa no Brasil?

Roberto Schaeffer: O inventário oficial mais recente é de 94. Atualmente, estima-se que 60% da emissão de gases vêm do desmatamento. A segunda maior fonte é agropecuária, estimada em torno de 25%. A área de energia, leia-se geração de energia elétrica, setor de transportes e indústria, é responsável por mais ou menos 15% das emissões. No mundo, entre 80 e 85% das emissões vêm da área de energia.

Olhar Virtual: Como o senhor avalia a proposta do governo brasileiro de reduzir entre 36% e 39% as emissões previstas para 2020?

Roberto Schaeffer: É um grande avanço o Brasil começar a discutir a possibilidade de estabelecer metas de redução de emissões. O que se deve criticar é a maneira como esse número está sendo apresentado. Está sendo feita uma estimativa de redução de emissão em relação a um cenário futuro que não se sabe qual vai ser. Em cima desse cenário futuro é que se está propondo reduzir entre 36% e 39%. O último inventário é de 1994, ninguém sabe os números de 2007. Como se vai querer estimar a emissão em 2020 para, aí sim, se estabelecer metas de redução?

Olhar Virtual: Caso o projeto vire lei, o que se poderia fazer para alcançar essa meta?

Roberto Schaeffer: Na geração elétrica brasileira, no setor de transportes e na indústria, há um grande potencial de redução de emissões. Principalmente, há grande potencial de redução a partir da diminuição dos desmatamentos. O Brasil é um dos poucos países do mundo que podem reduzir suas emissões sem impacto na economia. Não há por que não fazer isso.

Olhar Virtual: Diante do alerta contido no documento do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), as metas estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto, de redução de 5% a 10% em relação às emissões de 1990, se mostram pouco efetivas no combate ao aquecimento global?

Roberto Schaeffer: O Protocolo de Kyoto cobre o período de 2008 a 2012, ou seja, a meta de redução de 5% a 10% para os países desenvolvidos passou a valer a partir do ano passado. Portanto, não temos ainda como saber os efeitos das reduções geradas por Kyoto. Aparentemente, Kyoto foi o acordo possível no momento. Foi um primeiro experimento, mas é preciso muito mais. O estudo do IPCC mostrou que um novo acordo terá de ser muito mais ambicioso do que Kyoto tentou ser. Este, que, se espera, se estruturará a partir de Copenhague, valerá a partir de 2013.

Olhar Virtual: Você acredita que um novo acordo a partir de Copenhague cumpriria as exigências do documento do IPCC?

Roberto Schaeffer: Espera-se que sim. Aparentemente todos os governos começam a olhar com outros olhos o problema. A mudança de postura brasileira é relevante. É uma novidade que um país em desenvolvimento tenha colocado a cara a tapa. O que se esperava para Copenhague era que os países desenvolvidos tivessem metas muito mais duras que Kyoto, e algum envolvimento dos países em desenvolvimento. Seguramente todo mundo ficou surpreendido de o Brasil propor alguma coisa que dificilmente alguém iria cobrar dele. Essa postura brasileira vai eventualmente levar a um movimento. Aparentemente, a Coreia do Sul já propôs alguma coisa e a Indonésia também. O Brasil já está gerando um efeito positivo nessa história. Agora, se de fato se vai fechar um acordo nos termos que o IPCC prevê, ainda é difícil antecipar.

Olhar Virtual: Como você avalia a possibilidade de financiamento para que os países pobres e em desenvolvimento reduzam suas emissões de CO2. É viável?

Roberto Schaeffer: Não é obrigatoriamente verdade que os países em desenvolvimento precisam de financiamento. No caso do Brasil, absolutamente. Mas eles jogam com isso. O Brasil, com sua proposta de redução de emissão, aumenta a exigência de um financiamento. Este provavelmente virá. Os países que voluntariamente têm meta só aceitariam um acordo se houvesse um financiamento internacional. O Brasil tem jogado essa ideia e, de maneira geral, a aceitação é positiva. Não há falta de dinheiro para isso, o que falta é vontade política. Esse financiamento interessa ao próprio país desenvolvido. O financiamento contribuiria para reduzir as emissões dos países em desenvolvimento, o que diminuiria as metas dos próprios países desenvolvidos. Os gastos com o financiamento seriam então compensados por gastos menores com a redução no próprio país. Quanto aos países pobres, ninguém espera redução de emissão. Talvez 80% ou 90% das emissões do mundo não venham de menos do que 20 países. Esses é que interessam. Você pode ter os países mais pobres se desenvolvendo como acham que têm de se desenvolver, porque suas emissões são muito pequenas, e de fato se concentrar naqueles que fazem a diferença, que são os países desenvolvidos e em desenvolvimento.

sábado, 21 de novembro de 2009

Lula, filho do Brasil, responde às críticas de FHC e Caetano

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Traço de mestre



Foto: Luciana Sarmento
Israel: qual a arquitetura do muro?

Enquanto não for destruído o muro erguido na Cisjordânia para anexar ilegalmente terras, e não forem garantidos aos palestinos os direitos de propriedade, de ir e vir, e de buscar saúde, educação e emprego, qualquer enunciado sobre a paz será apenas uma ironia semântica.

Por Gilson Caroni Filho, na Carta Maior

Em encontro com o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, o presidente Lula foi econômico nas palavras e preciso na análise. Quanto mais tempo o governo de Israel persistir com as violações da lei humanitária internacional, mais distante fica a possibilidade de uma solução negociada para o conflito no Oriente Médio. Enquanto não for destruído o muro erguido na Cisjordânia para anexar ilegalmente terras, e não forem garantidos aos palestinos os direitos de propriedade, de ir e vir, e de buscar saúde, educação e emprego, qualquer enunciado sobre a paz será apenas uma ironia semântica. Um discurso que admite a realidade do que é virtual, mas que não pode ser colocado no plano lógico daquilo que já tenha adquirido existência concreta.

É necessário, mais uma vez, reconhecer que, respaldado pelo imperialismo norte-americano na região, a construção incessante de assentamentos em território ocupado obedece a uma lógica clara. O governo israelense joga todo o seu peso em uma solução definitiva para o “problema palestino”: uma solução que vem contemplando o massacre e o apartheid.

Como declarou, há cinco anos, a jornalista judia Amira Hass, "Israel se considera forte o bastante, até para desrespeitar decisões internacionais, porque tem um poderoso apoio dos americanos que, na prática, não demonstram o mínimo interesse quanto ao destino de um povo que vive isolado atrás de barricadas."

Apesar de ter participado de todas as negociações de paz nos últimos 30 anos, envolvendo-se em articulações secretas que levaram a acordos como o de Oslo, sabotado pela extrema-direita de Israel, o presidente Shimon Peres, tem um ponto em comum com as forças mais reacionárias de seu país: a não aceitação de qualquer saída que preserve um mínimo de organização do movimento palestino, que mantenha intactas as possibilidades de unificação com o vigoroso movimento anti-imperialista que ainda existe nas vielas de Gaza e da Cisjordânia. Peres sabe que desestruturação organizativa das forças de resistência resulta em tratativas diplomáticas destinadas a ganhar tempo. Uma manobra que se repete sem apresentar qualquer sinal de inteligência.

Apesar da mudança de tom de Obama, o governo estadunidense adota a abordagem preconizada por Israel. Trabalha com a possibilidade de uma reforma política que assegure a proteção das colônias e dos interesses sionistas na Palestina Ocupada. Para tanto, exclui atores legítimos como o Hamas, e as bases sociais que representa, estabelecendo, por conseqüência, um simulacro de negociação diplomática.

Em “A Paz ou Apartheid”, o escritor Marwan Bihara, assinala que "a melhora desesperadamente necessária das condições de vida dos palestinos se tornou impossível com o plano de bantustões de Sharon. Enquanto, continuarem taxando de terroristas todos os partidos políticos palestinos, a formação de um processo político democrático continuará sendo uma farsa. A maioria das lideranças foram assassinados ou presos. Muitos estão foragidos, escondendo-se para a sua própria segurança."

Lula foi preciso. ”Se continuar construindo na capital palestina, Israel está complicando a paz, quer que nos distanciemos da paz. Pedimos não apenas a retirada das 900 casas, mas de todas as atividades de construção nos territórios ocupados. Essas palavras não são nossas. Foram ditas pelo presidente Obama."

A única ressalva a ser feita na fala presidencial solicita um acréscimo. É preciso ir bem além das “palavras de Obama". É fundamental reafirmar nosso discurso. O que deve ser dito é que a coalizão de colonos, fundamentalistas e generais reacionários que domina o plano político israelense não tem o menor interesse em implementar acordos que possam prejudicar a expansão de assentamentos ilegais. Enquanto a comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, não fizer a inflexão necessária, a muralha, que tem 80% de extensão em território cisjordaniano, continuará edificada como uma solução final da barbárie. A arquitetura perfeita da destruição.

Colaboração enviada por Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Este artigo foi publicado originalmente no "Debate Aberto" do site da Agência Carta Maior.

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

20 anos depois, outros muros precisam ser derrubados

Para o Prof. José Paulo Neto, o socialismo ainda é uma alternativa viável ao capitalismo

Por Aline Durães, no "Olhar Virtual"

Cento e cinquenta e cinco quilômetros de tijolos, cimento e blocos de concreto. Assim era o muro que, por 28 anos, separou a cidade de Berlim entre a socialista República Democrática da Alemanha e a capitalista República Federal da Alemanha. O muro, construído em 1961, foi derrubado em novembro de 1989, devido à queda do regime soviético, promovendo, assim, a reunificação da Alemanha.

Para José Paulo Netto, um dos mais influentes marxistas brasileiros e professor da Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ, a derrubada do muro assinalou o fim de um ciclo histórico. O intelectual, que esteve reunido com outros pesquisadores, no último dia 12, para discutir os 20 anos da derrubada do muro de Berlim, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs), enfatizou, entretanto, que o ato não simbolizou o fim do socialismo. Na opinião do docente, a teoria marxista continua viva e o mundo ainda pode experimentar um modelo de produção mais justo e igualitário que fuja à lógica do lucro. Confira adiante as opiniões do professor na íntegra.

Por José Paulo Netto
Professor da Escola de Serviço Social

“Eu assisti ao erguimento do muro em 1961 e acompanhei a saga até 1989, quando ele foi derrubado. O muro caiu sobre mim. Ele era o emblema de uma ordem social que precisava desse horroroso sinal para se reerguer.


Não basta justificar o muro, mas devemos entendê-lo. Ele é o resultado de um processo. Em 1945, com o fim da Segunda Guerra, os exércitos soviéticos avançaram rumo à Alemanha vindos do Leste. O país ficou ocupado por quatro exércitos distintos (União Soviética, Estados Unidos, Inglaterra e França). Em 1949, os soviéticos tomam uma decisão que quase gera uma terceira guerra mundial: fecham a região sob o seu controle aos demais ocupantes. No mesmo ano, é criada a República Federal da Alemanha e começa a se articular a República Democrática da Alemanha.

A hostilidade entre o setor oriental e os demais setores era evidente. Existia o projeto de tornar Berlim Ocidental a vitrine do capitalismo. Em Berlim Oriental, porção que sofreu mais com a guerra, explode a rebeldia operária, sempre normalizada com extrema violência.

Na entrada dos anos 60, a economia da República Democrática da Alemanha se reerguia, mas na área oriental do país o que se verificava era um barril de pólvora prestes a explodir. A maneira que o governo do Leste encontrou para deter isso foi através da concessão de subsídios de alimentação e de bens de consumo não-duráveis aos cidadãos. Acontece que os habitantes da porção Oeste do país iam para a Berlim Leste fazer compras, se alimentar. A solução encontrada para resolver esse trânsito indesejado foi a construção do muro. Ele não foi um simples ato de arbítrio ditatorial.

A queda assinala o esgotamento de um ciclo histórico chamado socialismo. Em 1917, ano da Revolução Russa, abriu-se a possibilidade de transição da ordem do capital para a ordem do trabalho. Sabemos que Marx acreditava que a revolução proletária se daria com um proletariado com significativa liberdade partidária, de imprensa e sindical. A Revolução Russa foi um momento inicial de um processo mundial que só se manteria se avançasse no Ocidente. A partir de 1923, isso se mostra menos factível, porque, no Oriente, a Revolução passa a não avançar e, no Ocidente, ela aborta.

Para que a transição ocorresse, deveria haver a socialização da economia e do poder político, que se dá através de instâncias em que se manifeste a opinião de todos. E não existiu. Desta forma, podemos dizer que a crise do socialismo não foi resultado de pressões externas. Foi, na verdade, uma implosão que aconteceu porque o modelo foi incapaz de promover novos valores sociais cooperativos, foi incapaz de generalizar tolerância política e liberdades civis.

As experiências do socialismo real devem ser estudadas a fundo, para que possamos compreender por que, como e em que condições se realizaram. Elas nos deixam três lições principais: 1ª) Foram positivas para a humanidade. As conquistas sociais do pós-guerra ocorreram também por causa do pavor que o comunismo provocava nos governos capitalistas. 2ª) Não podemos tratar a política sob o viés do fanatismo e da religiosidade. 3ª) A crise do socialismo não tem nada a ver com uma crise da Teoria Marxista. O mundo de 2009 confirma a teoria de Marx, pois prova que o capitalismo é composto de crises, que ele é um sistema produtor de riqueza exponencial, mas reprodutor de pauperismo, e que ele consiste em concentração e centralização de poder político e econômico — prova disso é que nunca 6 bilhões de habitantes foram controlados por tão poucas mãos.

A derrota do muro é provisória. O fim do muro não foi o fim do mundo e muito menos o fim do socialismo. A única alternativa teórica ainda é o arsenal crítico da teoria do pensamento marxista.

Eu gostaria de estar aqui discutindo a queda do muro invisível do conjunto de barreiras formais para trabalhadores ingressarem na Europa, o fim do muro que separa a Zona Sul do Rio de Janeiro dos morros da cidade. A queda do muro de Berlim foi visível, mas há outros muros a serem derrubados.”

20 anos depois, autor explica a criação do jingle "Lu-lá"

1º bloco de entrevista recente de Lula à Rede TV - É emocionante, vale a pena conferir!



Para assistir à entrevista completa, clique aqui.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Traço de mestre

Foto: Luciana Sarmento
São Bartolomeu, a longa noite tucana

Reacender o Clube da Lanterna, fundado por Carlos Lacerda, em 1953, para combater o governo Vargas só amplia o blecaute em que vive a direita após duas derrotas em eleições presidenciais. De antemão é uma aposta perdida. Uma comemoração tão grotesca quanto fugidia.

Por Gilson Caroni Filho

Ao querer transformar a queda de energia, causada por uma falha tripla nas linhas de transmissão de Furnas, no “apagão do governo Lula”, a oposição, com apoio da grande imprensa corporativa, mostra a estreita margem de ação que restou ao antigo bloco de poder do governo tucano. Reacender o Clube da Lanterna, fundado por Carlos Lacerda, em 1953, para combater o governo Vargas só amplia o blecaute em que vive a direita após duas derrotas em eleições presidenciais. De antemão é uma aposta perdida. Uma comemoração tão grotesca quanto fugidia.

Quando lideranças do PSDB, DEM e PPS se unem no Congresso para dizer que o episódio serviu para demonstrar o fracasso da política energética do governo petista, o discurso político cede lugar à farsa burlesca, ao lançamento inoportuno de afirmações que, por grotescas, surtem efeito contrário ao pretendido por seus autores. Rememoram um passado recente, estabelecendo padrões de comparação que lhes são extremamente desfavoráveis. Mais uma vez, a direita, ignorando a posição em que se encontra, mira no horizonte e atira no próprio pé. Um embuste que ignora a massa crítica acumulada por diversos debates sobre crise energética no governo anterior. Em todos há um denominador comum: a responsabilidade pela ineficiência de energia elétrica se devia a erros de gestão da então administração federal.

Em 2001, o BNDES publicou “O Cenário Macroeconômico e a Oferta de Energia Elétrica no Brasil". O documento, um alentado estudo dos economistas Joana Gostkorzewicz e Fábio Giambiagi, alertava que as dificuldades para a oferta de energia elétrica eram conseqüência direta da política de transição de um modelo gerenciado até então pelo Estado para a iniciativa privada. O açodamento entreguista deixava explícitas as “insuficiências do novo marco regulatório, bem como a ausência de articulação entre os vários órgãos governamentais, responsáveis pelo setor de energia."

Concluindo a análise, o estudo reconhecia que "nos últimos anos, os recursos das empresas estatais, ainda amplamente dominantes na geração e transmissão, foram prioritariamente destinados para o saneamento financeiro das empresas e, portanto, para a preparação das privatizações. Tendo as empresas estatais deixado de investir pelas razões apontadas acima e o setor privado não encontrado ambiente seguro para substituir as estatais, devido às debilidades dos novos marcos, pavimentou-se o caminho para o desastre."

O estudo, feito por órgão do Governo Federal, era categórico no diagnóstico: “O setor elétrico brasileiro possui um desenho próprio que o torna inadequado à operação por empresas privadas". Se em 2001, os reservatórios estavam quase secos e a inexistência de linhas de transmissão impedia o manejo de geração, a causa determinante para o racionamento de energia foi a implementação de uma política privatista que aprofundou a queda da produção, reduziu a arrecadação tributária e alimentou o processo inflacionário, mantendo a fragilidade do Brasil em relação à economia internacional.

Quando Lula destaca os investimentos feitos pelo governo nos últimos sete anos, dizendo que “nesse período, foram construídas 30% das linhas de transmissão feitas em 123 anos no país", não fala apenas de números relativos a um setor. O passo é maior. O que é anunciado é a retomada de decisões fundamentais para o desenvolvimento, deixadas em segundo plano, nos oito anos de gestão neoliberal. O que norteia a ação governamental é a criação de mecanismos que possibilitem ao Estado retomar seu papel de indutor do desenvolvimento nacional.

Comparar o blecaute de 10 de novembro de 2009 ao longo tempo das trevas que vigorou no país entre junho de 2001 e fevereiro de 2002 é um apagão histórico bem típico de uma elite que não soube atualizar as linhas de transmissão do seu ideário. Uma autêntica confissão pública de fé no modelo monetarista-liberal que impossibilitou o crescimento econômico, aumentou as desigualdades e enfraqueceu as instituições políticas. A noite de São Bartolomeu deseja revisitar os huguenotes que ousaram sobreviver.

Colaboração enviada por Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O legado de Lévi-Strauss


Por Taysa Coelho, do "Olhar Virtual"

No último dia 31 de outubro, o mundo perdeu um de seus maiores e mais importantes pensadores contemporâneos, o antropólogo e filósofo Claude Lévi-Strauss. Às vésperas de completar 101 anos, o pensador belga, de ascendência francesa, deixa um legado fundamental para o estudo das sociedades contemporâneas.

Formado inicialmente em Filosofia, o pensador aceitou, em 1934, o convite para lecionar na recém-criada Universidade de São Paulo (USP) motivado pela proximidade de tribos indígenas. Durante a estadia, Lévi-Strauss realizou algumas expedições pela parte central do país e por outras áreas da América do Sul, onde analisou e estudou o comportamento dos chamados “primitivos” e descobriu sua paixão pela Antropologia.

Alguns anos mais tarde, radicado nos Estados Unidos, escreveu um livro-relato sobre as viagens realizadas abaixo da Linha do Equador, “Tristes Trópicos”, em que conta suas experiências com os índios, juntamente com o livre exercício de narração dos fatos que estavam guardados em sua memória.

Ainda na América do Norte, o antropólogo desenvolve uma tese que incorpora elementos da Linguística de Saussure – que passa a estudar a língua como um sistema em que todos os elementos estão interligados – e acaba por desenvolver um de seus trabalhos mais importantes: a antropologia estrutural. Utilizando-se de princípios das ciências, desenvolveu um pensamento objetivo capaz de desvendar elementos universais e atemporais do espírito humano.

Entretanto, o trabalho de Claude Lévi-Strauss não se resume apenas ao Estruturalismo, abrangendo uma linha de pesquisa bastante vasta e de suma importância para os estudos e pesquisas, não apenas da Antropologia, mas das Ciências Humanas.

Para conhecer melhor os feitos desse pensador, o Olhar Virtual conversou com o professor Gilberto Velho, titular do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da UFRJ.

Olhar Virtual: Como o Estruturalismo de Lévi-Strauss afetou as demais ciências?

Gilberto Velho: O Estruturalismo é um método, uma visão de trabalho antropológico que tem repercussão em outras áreas, e a obra de Lévi-Strauss tem significado por si mesma. Antes de tudo, devemos ressaltar que ele é um autor que possui sua origem em Filosofia e se interessa por outras áreas. Quando vem ao Brasil, leciona e realiza um trabalho de campo - inicial e básico em sua vida - na área central do país, em que, evidentemente, estuda sobre índios e desenvolve seu gosto pela Antropologia.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o pensador ruma aos Estados Unidos. Por lá, entra em contato com a Antropologia anglo-saxã e com a Linguística, sendo muito influenciado pela obra de Roman Jakobson, linguista de origem russa fixado na América do Norte. Esta é uma interferência importante para o desenvolvimento de seu Estruturalismo.

Sua tese chama-se “Estruturas Elementares do Parentesco” - o livro básico sobre a discussão do que é o Estruturalismo -, que desenvolve através de pesquisas bibliográficas e de seu contato com as sociedades indígenas brasileiras. É um método de análise do parentesco em geral (há a discussão muito importante sobre aliança e descendência, as relações entre natureza e cultura e a questão-chave do incesto). Ele busca organizar certas estruturas universais do pensamento humano. Portanto, a partir desse ponto e das publicações que escreve, sua obra influencia muitas áreas de conhecimento, e não apenas a Antropologia - que estuda os grupos indígenas -, tendo implicações para todas as áreas das Ciências Humanas, além de estabelecer um diálogo com outras disciplinas, como a Matemática.

Olhar Virtual: Como a sociedade da época (meados do século XX) reagiu quando o antropólogo sugeriu que a mente dos chamados “primitivos” (por ele chamados de “não-letrados”) devia funcionar da mesma forma que a dos membros de sociedades tidas como mais evoluídas?

Gilberto Velho: A sociedade como um todo não ficou ciente desta tese, apenas um setor muito restrito tomou conhecimento. No mundo intelectual, foi recebida como uma contribuição importante. Entretanto, a originalidade de Lévi-Strauss não se encontra apenas aí. Ele está, na realidade, sendo um antropólogo que retoma toda uma linha de reflexão. A Antropologia, desde Franz Boas - antropólogo alemão radicado nos Estados Unidos –, tocava no ponto do relativismo cultural, da necessidade de compreender cada sociedade sob seus próprios instintos, que todas eram, em termos humanos, legítimas, básicas e importantes, negando qualquer ideia de inferioridade e superioridade raciais. Portanto, na realidade, Lévi-Strauss seguiu esse caminho, mas mudou de patamar: combateu o Evolucionismo ortodoxo linear, inclusive as teorias racistas - que foram muito combatidas pelo próprio Franz Boas e seus alunos -, com a ideia de que os seres humanos podem ser diferentes ao se organizarem socialmente, mas são formas de vida igualmente significativas. Ele estava muito preocupado em agir contra a homogeneização, contra a imposição de padrões.

Olhar Virtual: Após seu falecimento, diversas publicações apresentaram os trabalhos “A Teoria das Estruturas Elementares do Parentesco”, “Os Processos Mentais do Conhecimento Humano” e “A Estrutura dos Mitos” como seus principais. O senhor concorda com a escolha?

Gilberto Velho: A obra dele deve ser julgada como um todo. O livro “Tristes Trópicos” é importantíssimo, uma viagem filosófica; a tese “Estruturas Elementares do Parentesco” é fundamental; a publicação “Antropologia Estrutural” e sua continuação tiveram grande repercussão; “Pensamento Selvagem”, “Totemismo Hoje”, a série “Mitológicas” e diversos outros trabalhos são igualmente importantes. Enfim, é uma série, é impossível destacar seus trabalhos por ordem de importância.

Olhar Virtual: Há algum livro que o senhor considere como leitura fundamental para profissionais e estudantes de qualquer área?

Gilberto Velho: “Tristes Trópicos” é o mais acessível, apresentando uma dimensão literária muito grande. Lévi-Strauss escreve muito bem. Este é o livro básico e para os brasileiros é especial, por grande parte ter a ver com o nosso país.

Entretanto, vale ressaltar que “As Estruturas Elementares do Parentesco” é um livro-chave para poder entender a reflexão desse pensador.

Olhar Virtual: Claude Lévi-Strauss apresentava uma relação muito forte com a natureza. O senhor pode fazer um breve resumo sobre ela?

Gilberto Velho: Ele realizou uma distinção entre Natureza e Cultura para entender propriamente como a sociedade humana se desenvolve, se organiza, se reproduz. Porém, há outro lado da visão de mundo do pensador que se dá através da preocupação - que hoje nós chamamos de ecológica - com a destruição, com todos esses efeitos da sociedade industrial, globalizada e homogeneizante, que destrói a variedade da natureza e das culturas.

Ele possuía essa preocupação e a manifestava de diversas maneiras, citando eventos históricos de destruição de natureza, sociedades e culturas, fosse diretamente pelo conflito violento, fosse pelas doenças trazidas por ele. Ele comentava, por exemplo, a viagem do navegador espanhol Francisco Orellana, que possui relatos sobre verdadeiras cidades que teria visto e que eram considerados imaginosos, fantasiosos. Entretanto, a Arqueologia contemporânea, associada à Antropologia, descobriu que, de fato, existiam essas grandes aldeias com milhares de habitantes, com estradas, praças, e que foram destruídas devido à expansão europeia na América.

Olhar Virtual: Por fim, o que seria da Antropologia sem os trabalhos de Lévi-Strauss?

Gilberto Velho: Os estudos de Lévi-Strauss foram revolucionários, permitindo um salto muito importante que atinge não apenas o campo da Antropologia, mas das Ciências Humanas em geral. O impacto de seu projeto é principalmente sobre o sistema de estudos etnológicos, os estudos das sociedades tribais e indígenas. Porém, temos conhecimento de que a ciência não se constitui apenas com indivíduos isolados, e este não é o caso: faz parte de uma tradição, de uma linhagem, fazendo resumos, coletas, lendo obras de outras pessoas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

No sol de quase Dezembro - Uma crônica para Caê

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nos traços da história: 45 anos sem Cecília Meireles




domingo, 8 de novembro de 2009

Topografia de um desnudo - o filme



Rio de Janeiro, anos 60. A cidade se prepara para receber a visita da rainha Elizabeth. Um clima de tensão social e política antecede o golpe militar. Uma jornalista investiga a morte de moradores de rua e se envolve num perigoso jogo de interesses. Governo e polícia empreendem a “Operação mata-mendigos”, com o objetivo de “limpar” a cidade para a visita da rainha. Os mendigos são torturados e jogados no rio Guandu. Policiais e funcionários do Governo da Guanabara são indiciados. Com o Golpe de 64, os inquéritos são arquivados e o episódio apagado da história do Brasil. Adaptação da obra teatral do chileno Jorge Diaz, baseada em notícias publicadas na imprensa internacional.






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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Traço de mestre




Foto: Luciana Sarmento

Rigoberta e Darcy Ribeiro: um encontro em Tegucigalpa

Como flashes suspensos que iluminam de forma intermitente a cena latina, as palavras de Darcy Ribeiro, 38 anos depois de escritas, o levam a Bolívar e José Marti, dando relevância explanatória à luta de Rigoberta Menchú e seus aliados.

Por Gilson Caroni Filho, hoje na "Carta Maior"

Quando esteve em Honduras, à frente de uma delegação composta por membros de organizações de direitos humanos da Guatemala, Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz, se somou à rejeição internacional ao golpe perpetrado contra Manuel Zelaya. Foi categórica ao declarar que "a paz não foi firme e duradoura porque não havia um consentimento de legitimar as instituições democráticas. Havia boa vontade e muitos dos dirigentes tinham a pressão dos tempos - sentiam novos tempos. Esse período serviu, lamentavelmente, para que os setores oligárquicos se reacomodassem e o resultado é o que vemos hoje".

Mais que uma constatação, suas palavras descrevem uma viagem no tempo. Zelaya, abrigado na embaixada brasileira, não era apenas a visão do retrocesso institucional, mas um transe que não obedece a estruturas lineares, ordenadas e lógicas. Para apreender a realidade centro-americana não bastam as categorias e conceitos da Ciência Política. Eles são de pouca serventia se não se inserem na tessitura cruel do realismo mágico. Naquilo que emoldura o golpismo eterno dos oligarcas.

Michelleti reavivou, na memória da líder indígena, o governo presidido pelo general Efraín Rios Montt, acusado de genocídio, crimes contra a humanidade, delitos de guerra e discriminação racial pelo Tribunal Permanente dos Povos, que reconheceu o direito à insurreição armada do povo guatemalteco nos anos 1980. Em poucos casos foi tão clara a violação permanente e sistemática de todos os direitos individuais. Da guerra civil que durou 35 anos, o governo de Montt foi o que mais se esmerou no terrorismo de Estado.

Zelaya reacendeu lembranças igualmente dolorosas. Em 31 de janeiro de 1980, trinta e sete indígenas ocuparam pacificamente a embaixada da Espanha para protestar contra os desmandos do exército. A polícia incendiou a sede diplomática com fósforo branco, queimando vivos todos os seus ocupantes. Entre as vítimas do massacre estava o catequista indígena Vicente Menchú, pai de Rigoberta. Dois anos depois seria ela, movida por sua militância católica, dirigente de uma organização política de esquerda, a líder de uma nova ocupação: a da embaixada brasileira. Dessa vez, os oposicionistas não puderam ser desalojados pela força, pois tinham tomado medidas de segurança e obtido avanços em seus métodos organizativos.

Com a redemocratização, concorreu à presidência da República em 2007. Tal como Evo Morales, um aymara que desafiou a institucionalidade da elite boliviana, a candidatura de Menchú representou os setores alijados da sociedade guatemalteca: os maias, que totalizam 40% da população, em uma política monopolizada pelos descendentes dos colonizadores, responsáveis históricos por uma sociedade fracionada. A derrota nas urnas não desautorizou o diagnóstico que atemoriza as oligarquias reacionárias: por toda a América Latina, surgem novos sujeitos de direito dispostos a interpelar o cenário político e as várias democracias pactuais existentes.

Para Rigoberta, forjada na luta pela Teologia da Libertação, pouco importa a extração social de Zelaya, Correa, Ortega ou Lugo. O que a norteia, como intelectual orgânica, é o chamamento aos movimentos sociais para se unirem na luta. Depois de quatrocentos anos de exploração, as diferenças no campo progressista são secundárias quando o fósforo branco ameaça a todos

A subversão do tempo cronológico, só possível nos labirintos de Macondo, promove o encontro da índia guatemalteca com o pensamento rico de um antropólogo brasileiro.

Em um livro escrito em 1971, O Dilema da América Latina, o vigor do pensamento de Darcy Ribeiro anunciava que “a oposição entre a América Rica e a América Pobre vai adquirindo, como se vê, uma nova dimensão, ao obrigá-las a viver dramaticamente seus papéis no âmbito de um processo civilizatório que ativa em todo o mundo tanto os povos subdesenvolvidos quanto as minorias oprimidas das nações prósperas (...)”. No bojo deste novo processo civilizatório, a América Latina volta a tempos bolivarianos.

Novamente são chamadas à cena as tensões estruturais antioligárquicas e anticoloniais que espocaram tantas vezes em guerras de emancipação e em sublevações milenaristas de escravos, de índios e de camponeses. Agora, porém, não para serem desencadeadas e logo coactadas por ação de seus próprios aliciadores (...) porque a tarefa das forças revolucionária foi afinal definida: é a da conquista do poder político por vanguardas socialistas capazes de reestruturar toda a ordem social ( pp 246/247).

Como flashes suspensos que iluminam de forma intermitente a cena latina, as palavras de Darcy Ribeiro, 38 anos depois de escritas, o levam a Bolívar e José Marti, dando relevância explanatória à luta de Rigoberta e seus aliados. O descortinar de um visionário é uma aula de dialética imperdível.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Morre aos 100 anos um dos maiores antropólogos que este mundo já conheceu

"Os cientistas não são aqueles que oferecem as verdadeiras respostas, mas aqueles que formulam as verdadeiras perguntas".
(Claude Lévi-Strauss, 1908/2009)



segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Traço de mestre

FHC

Foto: Luciana Sarmento
Um réquiem para FHC

O texto do ex-presidente tucano, publicado em vários jornais no domingo, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre as políticas de seu governo e as do governo Lula: a única polarização que a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves.

Por Gilson Caroni Filho

As palavras são as armas. E foi acreditando em sua capacidade de manejá-las com destreza que Fernando Henrique Cardoso tentou atacar o presidente Lula em seu artigo publicado no jornal O Globo, do último domingo. Em sua vaidade desmedida, imaginava-se escrevendo um texto inaugural, um manifesto histórico capaz de desvendar a cena política, retirando a oposição do estado letárgico em que se encontra. O efeito foi exatamente o contrário.O texto mal escrito, sem sentido em muitos parágrafos, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre a política econômica do governo e a da gestão petista: a única polarização que a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves. Triste para o prestigiado sociólogo, deplorável para o experiente político.

Comparações são ociosas, mesmo porque cada polemista tem o seu tempo na história. Mas não é de hoje que o sonho do“"príncipe dos sociólogos" é ser um Carlos Lacerda redivivo. Vê a si próprio como um panfletário versátil e demolidor, capaz de usar as palavras como metralhadoras giratórias nas mãos de um guerrilheiro. O problema é que seu estilo é tosco e seus escritos ininteligíveis. Não é capaz de açular os medos da classe média, mesmo usando os velhos ingredientes que vão da ameaça de uma república sindicalista a um quadro incontrolável de corrupção. Não aprendeu que, sem o apoio das bases sociais que o acompanham, seu suposto prestígio pessoal conta pouco.

Para criar condições de instabilidade superestrutural não bastam editoriais, artigos e noticiários de jornalistas de direita. É preciso que as classes dominantes se encontrem excepcionalmente reunidas em torno de um só objetivo. Para isso, do outro lado, tem que haver um governo fragilizado, com escassa base de apoio, incapaz de promover crescimento econômico com redistribuição de renda. Reeditar uma“"Marcha da Família com Deus, pela liberdade" não é o troféu fácil que o voluntarismo pedante imagina.

Quando escreve que "é possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública", seu objetivo é tão claro como raso.

É uma volta ao passado como farsa. Aos tempos em que os nacionalistas lutavam por uma solução independente para extração e refino do petróleo, de importância estratégica para o desenvolvimento do país, enquanto os entreguistas definiam-se abertamente pela exploração do produto pelo capital estrangeiro. Claro que estamos tratando de realidades distintas no tempo e no espaço, mas a motivação da direita é idêntica. E é a ela que a inspiração de FHC se dirige, inebriado como se cavalgasse uma fulgurante carreira política. O desespero e o patético andam sempre de mãos juntas. Ainda mais se lembramos "quem cevou os facilitadores de negócios na máquina pública" no período que vai de 1994 a 2002.

Criticando o que chama de "autoritarismo popular", o candidato a polemista prossegue: "Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam."

A recorrência aos riscos de uma república sindicalista mostra a linhagem golpista do artigo de FHC, mas a falta de prudência, indispensável para quem pensa estar escrevendo um novo Manifesto dos Coronéis, leva a indagações. O autoritarismo de mercado, marca do seu mandato, é exemplo de democracia? A era da ligeireza econômica, da irresponsabilidade estatal ante a economia fortalecia as instituições do Estado Democrático de Direito? Ou não seria exatamente o oposto? Um bloco de poder composto pelo agronegócio, grandes corporações midiáticas e uma burguesia desde sempre associada, que privilegiava a ampliação crescente das margens de lucro, ignorando os custos sociais que isso implicava. Qual a autoridade política do ex-presidente para interpelar o atual?

O que foi seu governo senão uma tentativa desastrosa de adaptar o aparelho de Estado às exigências criadas pelo neoliberalismo, contendo, a todo custo, as reivindicações dos trabalhadores do campo e da cidade? No final, com uma impopularidade recorde, a superestrutura política entrou em crise e os aliados contemplaram a rota de afastamento. É a isso que FHC nos convida a voltar?

Outra observação interessante pode ser extraída desse trecho: "Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas?". Aqui, o lacerdista frustrado ultrapassou qualquer limite da sensatez. Abriu o flanco, ao permitir a inversão da pergunta que faz.

Como destacaram, em 1997, Cid Benjamim e Ricardo Bueno, no "Dossiê da Vale do Rio Doce", "o Brasil levou 54 anos para construir e amadurecer esse gigantesco complexo produtivo. O governo FHC pretende vendê-lo, recebendo no leilão uma quantia que corresponderá, mais ou menos a um mês de juros da dívida interna". Em maio daquele ano, a Vale foi vendida pelo governo federal por R$ 3,3 bilhões. Em 2007, seu valor de mercado estava em torno de R$103 bilhões. Em nenhum outro período a máquina estatal foi usada para transferir recursos públicos para o capital privado como nos dois governos do tucanato. Foi a esse continuísmo que a população deu um basta em outubro de 2002.

O que se pode depreender das linhas escritas pelo tucano que queria ser corvo? FHC se especializou na arte do embarque em canoas onde o lugar do náufrago está antecipadamente destinado ao canoeiro de ocasião. Julgava estar redigindo um artigo que funcionaria como divisor de águas. Mas afundou junto com ele. Escreveu o seu próprio réquiem, levando junto velhos próceres do PSDB. Um trabalho e tanto. Extremamente apropriado para leitura no dia 2 de novembro.

Colaboração enviada por Gilson Caroni Filho, sociólogo e professor titular de sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente hoje, 02 de Novembro de 2009, na "Agência Carta Maior".

domingo, 1 de novembro de 2009

O que é ser louco?, por Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se.Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso.Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata.Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvir falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software.Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda.Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele.Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:
A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou… Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, “saúde mental” até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.

A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.

Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…

Rubem Alves, escritor, no livro "Sobre o tempo e a eternaidade". Campinas: Speculum/Papirus. 164p.

Eu indico

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Volks:Trabalhador não consegue se desligar nem no tempo livre, diz estudo

Charge reproduzida do "Jornal do Direito"
Matéria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo

Pesquisa da cientista social Ana Cláudia Moreira Cardoso, feita com os companheiros na Volks, em São Bernardo, concluiu que as novas formas de organização da produção fazem com que o trabalhador não consiga relaxar nem fora do emprego.

"Quando o trabalhador sai da fábrica ele continua a pensar no trabalho por medo de perder o emprego. Fica pensando o que pode fazer para melhorar o desempenho dele", afirma ela.



Leia abaixo a entrevista de Ana Cláudia para a Tribuna

Quais suas motivações para fazer a pesquisa?


Desde a criação do banco de horas, o Dieese retomou a discussão sobre o tempo e a jornada de trabalho. Outra motivação foi pessoal, pois o tempo é algo que a gente vivencia tanto, mas reflete muito pouco sobre ele.



A reorganização produtiva não beneficiou o trabalhador?


O discurso da inovação tecnológica e organizacional era o de liberar o trabalhador do tempo do trabalho. Não foi isso o que aconteceu. A inovação intensificou o trabalho e, por outro lado, aumentou o desemprego.



Como os trabalhadores reagem a isso?


Os trabalhadores da linha reclamam da polivalência ou multitarefa, em que ele é sempre colocado numa função em alto ritmo de produção. Mesmo quando a produção baixa, ele não tem período de calmaria, já que as empresas têm sempre menos trabalhadores que o necessário. Com o just in time, houve uma redução da porosidade do tempo. O trabalhador não precisa esperar nada, está tudo ali, e ele não tem tempo para respirar. Isso numa empresa em que o Sindicato está presente e é super atento. Imagine nas empresas que não têm um sindicato presente!



E para o trabalhador fora da linha?


Acontece o mesmo. Os trabalhadores na ferramentaria, por exemplo, reclamam que têm de fazer todas as funções do setor.



E as mulheres?


As mulheres, na produção ou não, perderam o tempo de ir ao banheiro e começaram a criar o hábito de fazer o mesmo nos finais de semana. Com isso, passaram a ter problemas de saúde. O capital quer que o trabalhador seja produtivo nas 40 horas semanais, na jornada inteira.

Os aposentados não sabem o que fazer com o tempo livre, pois passaram a vida toda sem isso.



Quais as consequências da intensificação do trabalho?


Um processo de adoecimento, com gastrite, insônia, pressão alta, depressão. E quando o trabalhador sai da fábrica ele continua a pensar no trabalho por medo de perder o emprego. Fica pensando o que pode fazer para melhorar o desempenho dele. Por isso mesmo, no seu tempo livre, ele vai se qualificar.



E nas férias?


A maioria não consegue tirar férias no tempo em que querem. Cada vez mais o trabalhador tem dificuldade de tirar o tempo livre para ficar com a família.



Como é a jornada brasileira?


Temos uma das maiores jornadas do mundo, e é aqui que se pode fazer o maior número de horas extras. Além disso, o trabalhador gasta um tempo absurdo no transporte e ainda precisa estudar.



E quando o trabalhador se aposenta?


Os aposentados não sabem o que fazer com o tempo livre, pois passaram a vida toda sem isso. Eles ficam perdidos.

A maioria dos que trabalham diz que seu projeto é se aposentar, mas para daqui a 10, 15 anos. Na verdade, eles não têm projeto de futuro. O tempo de trabalho, quando é muito grande, toma o tempo todo que o trabalhador não consegue pensar coisa diferente. Ele não tem a perspectiva de fazer algo diferente. Não sabe o que fazer.



E a redução da jornada para 40 horas?


A campanha pela redução da jornada será eterna.. As inovações tecnológicas e organizacionais vão continuar e cada vez mais vamos precisar de menos trabalhadores para produzir mais com menos tempo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Traço de mestre

Imagem manipulada por Ana Helena Tavares

sobre foto original feita por Helio Campos Melo
Claudio Abramo por Helio Campos Melo


Foto: Luciana Sarmento
Uma lição perdida na Folha



Por Gilson Caroni Filho



Em 14 de agosto de 1987, o jornalismo brasileiro perdeu um de seus profissionais mais íntegros e combativos. Vítima de um infarto fulminante, morreu na manhã de uma sexta-feira o jornalista Cláudio Abramo. Onze dias depois, em editorial na revista Senhor, Mino Carta lhe dedicaria um artigo de rara beleza. Convém destacar um trecho:

"Em patrão, diria Claudio, não convém confiar em demasia. Talvez não pensasse o mesmo dos jornalistas, aos quais tentou ensinar, além do verdadeiro jornalismo, dignidade profissional e consciência de classe. Mas os jornalistas brasileiros não estão atentos às melhores lições. Quase sempre preferem inclinar-se à vontade do dono, diretor por direito divino, em lugar de acompanhar alguns raros colegas dispostos a professar sua fé em um tipo de imprensa que transcende os interesses de uma família e de uma casta."

Abramo esteve no comando do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo. No jornal da família Frias foi chefe de reportagem, secretário e diretor de Redação. Sempre se bateu pelo rigor da apuração, pela edição correta, ignorando angulações demarcadas pelos proprietários dos veículos. Seus critérios de escolha nunca colocaram interesses empresarias acima da ética. Não fez concessões ao jornalismo declaratório. Nunca obedeceu aos cânones que estabelecem a primazia da opinião sobre a informação. Foi, sem dúvida, um professor com poucos discípulos. Um iconoclasta que aceitou viver o sacrifício dos que não se alinham incondicionalmente. Um sacerdote a agir como mediador entre o noticiário e o leitor. A expressão exata de uma deontologia que não separa o profissional do cidadão. Pelo contrário, reforça, por ação recíproca, as duas dimensões de quem age a descoberto.

Procedimento curioso

São homens desse porte que fazem a diferença e mostram, pela ausência, uma imprensa que se perdeu de si mesma. Que ignora a relevante função social que deveria desempenhar, vinculando-se ao princípio das responsabilidades mútuas em uma estrutura democrática para melhor revitalizar o espaço público.

A Folha de S.Paulo é exemplo de como ensinamentos decisivos podem ser apagados por interesses conjunturais, ódios de classe e jornalismo de campanha. O mergulho na mediocridade parece não ter fim e, a julgar pelas últimas edições, o patético parece dar o tom de uma Redação onde patrões e jornalistas partilham o mesmo imaginário, não se dando conta que jamais deixarão suas condições de origem. Nem os patrões virarão jornalistas, nem os escribas, por mais que se esforcem, participarão como membros efetivos das famílias para as quais trabalham com afinco.

Mas se a tarefa é desconstruir governos, candidaturas, não há problemas. As folhas do aquário se vergam ao menor sopro, apostando na cumplicidade ou estultice do leitor. Vejamos as façanhas mais recentes dos aguerridos funcionários do diário paulista. Nada resulta de incompetência, mas de cumprir com afinco o papel de oposição terceirizada que lhe foi imposto pelas forças políticas conservadoras.

Na edição de quarta-feira (21/10), tivemos na dobra superior da primeira página a seguinte manchete: "Bolsa de SP prevê queda de negócios pós-taxação". No mesmo dia, o índice Bovespa voltou a subir, e o dólar voltou a se desvalorizar frente ao real. O que esperar de uma Redação comprometida com um mínimo de decência? O mesmo destaque na edição seguinte. Não deu sequer chamada na primeira página de quinta (22/10), apenas uma nota na página B3 (mas sem informar o volume negociado na véspera).

O que mereceu chamada de capa nesse dia? "Beluzzo critica medidas do BC para segurar o câmbio no país". Na verdade, como o texto esclarece, Luiz Gonzaga Beluzzo elogiou a taxação dos capitais especulativos estrangeiros (apenas opinou que as medidas foram tardias e ainda tímidas); mas quem só ler o título terá a impressão diametralmente oposta. Textualmente:

"O ministro Guido Mantega [Fazenda] usou corretamente o único instrumento do qual dispunha para lidar com o problema, que é o IOF. Medidas adicionais deveriam ter sido tomadas pelo Banco Central."

Isso, voltamos a insistir, não revela despreparo, mas um projeto editorial que requer de todos os envolvidos o exercício de canhestros "editores de opinião".

Desnecessário revelar que a manchete principal dessa quinta-feira (22) foi para a frase de Lula, cuidadosamente pinçada em sua longa entrevista ao jornal como a mais "polêmica", matéria-prima para a enxurrada de cartas indignadas de cristãos, cristãos novos e agnósticos. Do ponto de vista ecumênico um procedimento curioso. Como técnica jornalística, uma opção rasteira, lamentável e autofágica.

Vegetação rasteira

Na verdade, a Folha não chegou ao fundo do poço somente na semana passada. Na anterior, havia requentado uma farsa: o suposto encontro que Lina Vieira teve com a ministra Dilma, em que a petista teria pedido para acelerar a investigação contra as empresas da família Sarney.

Há cerca de dois meses, Lina tinha "lembrado" (mas sem apresentar provas) que a alegada reunião a sós com Dilma Rousseff teria ocorrido em 19 de dezembro de 2008 (quando a ex-secretária estava em Natal e ministra, no Rio). Agora, a tal agenda teria sido encontrada (mas não mostrada), indicando data bem diversa: 9 de outubro de 2008, dia em que o próprio Planalto já havia confirmado a presença de Lina em suas dependências.

Uma discrepância de mais de dois meses tira do "relato" original de Lina Vieira, e de suas posteriores alegações, qualquer credibilidade. É inverossímil que, em agosto último, alguém em pleno gozo, supõe-se, das faculdades mentais confundisse dezembro e outubro anteriores. E desmascara mais ainda a leviandade da nova musa da oposição, ao aventar (estimulada pela reportagem?) que a suposta interferência da ministra estaria ligada à eleição de José Sarney para a presidência do Senado – assunto que, um ano atrás, sequer estava em cogitação.

Mas nada disso açula o animus investigandi jornalistas da Folha, clara e entusiasticamente empenhada em "fazer escada" para ex-secretária da Receita Federal. Resta saber o que fará esse jornal se o Planalto provar documentalmente que, em 9 de outubro de 2008, Lina Vieira esteve na presença da ministra Dilma Rousseff juntamente com outras pessoas – e que, portanto, o tal encontro a sós não ocorreu. Dará primeira página? Noticiará o que seja?

O "delenda Dilma" da casa está a cada dia mais pelúcido. Mas não somos tão tolos como pode parecer. Começamos a ler a Folha nos tempos de Cláudio Abramo. Aquele que ensinava o bom jornalismo. Bem diferente da vegetação rasteira que prevalece nas páginas do jornal atualmente.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro.

Texto publicado originalmente hoje, 27 de Outubro de 2009, no "Observatório da Imprensa".

Uma linda maneira de se pedir atenção para o câncer da mama


Encontrem uma cura antes que me cresçam os seios.

domingo, 25 de outubro de 2009

No "Traços de Estilo" em 25 de Outubro de 2009

Os “traficantes”, os “cobradores” e a banalização da amizade

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sábado, 24 de outubro de 2009

Traço de mestre



Foto: Luciana Sarmento
A fria lâmina de uma CPI anunciada

A CPI do MST é a resposta dos setores mais reacionários da sociedade brasileira a uma conjuntura política que, ao contrário das anteriores, facilita o processo de emancipação dos trabalhadores rurais da tutela do proprietário da terra, permitindo-se pensar em projetos de democracia moderna no Brasil.

Gilson Caroni Filho

O campo ideológico das entidades que representam os proprietários de terra está unido em torno de um ponto: barrar a revisão dos índices de produtividade rural, mantendo os dados defasados do IBGE, que datam de 1975, como parâmetro para as desapropriações. A iniciativa é tão clara que só uma cobertura midiática enviesada pode ocultar sua real intenção: bloquear qualquer possibilidade de reforma agrária.

A CPI do MST no Congresso é a resposta dos setores mais reacionários da sociedade brasileira a uma conjuntura política que, ao contrário das anteriores, facilita o processo de emancipação dos trabalhadores rurais da tutela do proprietário da terra, permitindo-se pensar em projetos de democracia moderna no Brasil.

É importante lembrar que apesar de a repressão no campo não ter recuado - em alguns casos até houve agravamento - o aumento do espaço do debate político favorece o atendimento de demandas legítimas de movimentos sociais que, desde os anos 1980, se organizam pelas bases, assumindo um protagonismo salutar. Assim, como força reativa, o esforço de criminalização do MST obedece a um antigo procedimento ideológico, precisamente diagnosticado pelo sociólogo José de Souza Martins:
"demonstrar que a causa eficiente dos conflitos e lutas pela terra está na ação dos grupos e partidos comprometidos com a tese da reforma agrária", ocultando a violência do próprio capital, dos grileiros que, tal como a Cutrale, recebem incentivos financeiros e econômicos.

Caiado e Kátia Abreu, entre outros representantes do atraso, sentem saudades de antigos pactos políticos, pelos quais a burguesia (nacional e estrangeira), através de ampla aliança com diversificados setores civis e militares, atualizava seu modelo de desenvolvimento, mantendo as classes subalternas em seu lugar. Convém lembrar que não só os trabalhadores rurais foram atingidos pela política de extermínio desse bloco de poder. Também os povos indígenas se defrontaram com essa frente capitalista de destruição humana que teve (e tem) amplitude nacional.

Não devemos esquecer que a UDR de Ronaldo Caiado fez sucesso junto aos grandes e pequenos proprietários defendendo a propriedade da terra em si. Seus métodos políticos sempre primaram pela clareza e truculência. Em 1987, realizou um leilão de dez mil cabeças de gado de corte e reprodutores, e cavalos da raça manga-larga com o objetivo de mostrar aos constituintes a força do latifúndio, evitando que a Reforma Agrária fosse aprovada pelo plenário. Entre os que não concordaram com seus métodos, comentou-se, à época, que Caiado desestabilizou lideranças de cooperativas em todo o país para eleger pessoas ligadas à UDR.

Há quem acredite que os protagonistas da decantada "modernidade rural" teriam trocado o radicalismo da União Democrática Ruralista pelo diálogo em busca de resultados. Em artigo publicado aqui mesmo, em 8 de março de 2006, Maurício Hashizume apresentou os resultados da “dialogicidade” dos donos da terra:

"Nos últimos 20 anos, 1,5 mil lideranças de trabalhadores rurais foram mortas em conflitos no campo, de acordo com números da Contag. Desse total somente 76 casos foram julgados e apenas em 16 deles houve condenação."

No plano institucional o cenário não é alentador. Os planos do governo para controlar a CPI do MST devem esbarrar na capilaridade dos interesses rurais em diversas bancadas. Hoje, "para neutralizar os avanços da esquerda", ruralistas e industriais estão unidos em diversas partidos, alguns da base aliada. O braço parlamentar do extermínio deve mostrar sua força nas críticas aos sem-terra e ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Aos que acenavam com voluntarismo sobre a política de alianças, esses dados devem levar a uma inflexão.

É hora da parcela progressista da sociedade civil reabrir as portas da história para que esse processo não tenha continuidade. De um lado estão trabalhadores assalariados, posseiros e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) como vítimas de toda sorte de violência. De outro, os mandantes, atores vinculados à produção em grandes propriedades, representando os interesses de sua classe. E é na fria lâmina dessa dialética que devemos intervir com firmeza e precisão.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Texto publicado originalmente hoje, 24 de Outubro de 2009, no "Debate Aberto" do site da "Agência Carta Maior".

Debata você também lá!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

No "Traços de Estilo" em 22/10/2009

Fordosofando - as raízes de uma mentalidade (ensaio)

Clique na imagem para ler

No "Traços de Estilo" em 21/10/2009

http://ahrt84.blog.terra.com.br/2009/10/21/mente-minha/

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"Se o homem perder a esperança é melhor destruir o arco-íris" (Mário Lago)



Talvez porque eu não pretenda perder a esperança, alguns arco-íris insistem em aparecer na minha varanda.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"O planeta não vai ser salvo por quem tira notas altas nas provas, mas por aqueles que se importam com ele"

Saiu na revista "Nova Escola" de Outubro. Clique nas imagens e confira.
















30 anos depois da anistia, volta para o Brasil aquele que seria "o último exilado" da ditadura

Clique nas imagens para ampliá-las e conferir a entrevista que o ex-marinheiro, Antônio Geraldo da Costa, o Neguinho, concedeu à revista "Aventuras na História" de Outubro.


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Traço de mestre

Foto: Luciana Sarmento
Os desejos ocultos dos donos da terra

Uma estrutura social equânime é o inferno de Caiado e Kátia Abreu. Para eles, o paraíso é o Estado Patrimonial que, como no tempo do Império, funcione como repassador de terras e do dinheiro do setor público para o privado. É com essa restauração que sonham diariamente.

Gilson Caroni Filho

A nova operação da direita para viabilizar a instalação de uma CPI para investigar supostos repasses de recursos públicos a entidades vinculadas ao Movimento dos Sem Terra (MST) nada mais é que um embuste com objetivos nítidos: a criminalização dos movimentos sociais e, com um claro viés eleitoreiro, o desgaste do governo visando ao processo eleitoral de 2010.

O eixo central da ação da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), ex-presidente da UDR, é retroceder o processo democrático a níveis anteriores ao do governo petista. Com apoio da grande imprensa, o que se pretende é o estabelecimento de uma agenda que aceite a imposição dos que gritam mais forte e que por mais de 500 anos mandaram no país.

Um projeto de poder que abandone o país moderno, dos segmentos novos da cidade, do operariado urbano e rural, dos pequenos e médios proprietários das classes médias, dos empresários modernos e progressistas para abraçar uma opção pelo passado. No que ele tem de mais retrógado, no que ele garante a preservação de práticas clientelistas e oligárquicas.

A pesquisa do Ibope, encomendada pela CNA, “que constata a favelização dos assentamentos rurais do INCRA" não vai de encontro apenas aos dados do Censo Agropecuário de 2006 que demonstram que a agricultura familiar é mais produtiva do que a tradicional e em grande escala. Vai além. Vai contra todas as classes e frações que sabem que sua sobrevivência depende de um país igualitário, solidário, a ser construído por uma intervenção decidida na questão da terra. Uma estrutura social equânime é o inferno de Caiado e Kátia Abreu. Para eles, o paraíso é o Estado Patrimonial que, como no tempo do Império, funcione como repassador de terras e do dinheiro do setor público para o privado. É com essa restauração que sonham diariamente.

Sob os holofotes da CPI o que se quer manter é a luta contra a Reforma Agrária por parte de pecuaristas e dos que ganham com monoculturas extensas. Nos casos de desapropriações já decididas, apela-se, como sempre, para os amigos cartoriais, transferindo gado de uma fazenda para outra enquanto se pede revisão dos processos.

O "aggiornamento" da imprensa é peça fundamental dessa estratégia. Há mais de duas décadas, durante a eleição de Caiado para a presidência da UDR, o então vice-presidente da entidade, Altair Veloso, garantia que “os jornalistas da imprensa escrita são todos vermelhos. Os da televisão são todos homossexuais".

Hoje prevalece a afinidade de classe, e os "vermelhos" carregam nas tintas contra movimentos organizados, enquanto os "homossexuais" divulgam, no horário nobre de uma emissora paulista, "editoriais" contra Lula e o MST. O amadurecimento de pessoas e instituições é surpreendente. Revela pulsões que nunca ousaram dizer o nome.

Em entrevista para a Agência Ibase, o líder sindical José Francisco da Silva, ex-presidente da Contag, disse que “houve avanços com o governo Lula, justiça seja feita. Fernando Henrique investiu R$ 2,3 bilhões no Pronaf. Lula já alcançou R$ 13 bilhões no decorrer de seis anos. Foi um bom investimento, mas é bom que se diga que o agronegócio recebe quase R$ 70 bilhões do governo e é a agricultura familiar que abastece o país, que gera empregos." É uma distorção a ser corrigida.

Para Kátia e Caiado a correção aponta para outra direção: a da redução dramática da população rural, da formação de um contingente de semicidadãos entregues à própria sorte. Para eles, essa é a democracia possível. O padrão estético é coerente com a história dos antigos donos do poder.

Eldorado de Carajás é uma imagem a ser esquecida. Pés de laranja arrancados, um crime imperdoável.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Texto publicado originalmente ontem, 14 de Outubro de 2009, no "Debate Aberto" do site da "Agência Carta Maior".

Debata você também lá!
"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)