"Quando vejo afirmações do tipo "Há lugar para todos nas redações", fico imaginando o jovem Lobato chegando hoje, 2009, à redação do Estadão, vindo lá do interior, sem ser conhecido ainda, trazendo na bagagem tão somente muito idealismo e um diploma de advogado. Sem, porém, nenhum preparo para trabalhar com imprensa, apenas a nobre disposição de aprender. Alguém tem dúvidas da recepção "calorosa"?"

(Ana Helena Tavares em
"Monteito Lobato precisava estar aqui".)

"Qual a bandeira de quem faz oposição a tudo? Podem dizer: jornalista não tem que ter bandeira. É lindo isso, mas ele tem, ainda que não deva hasteá-la no terraço do seu prédio."

(Ana Helena Tavares em "Para derrubar o presidente que eu nunca quis ser")


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Traço de mestre


Fernando Henrique Cardoso precisa de amigos

Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada.

Em seu texto “Luto e Melancolia", Freud diz que manifestações melancólicas assumem várias formas clínicas, se caracterizando, entre outros sintomas, "por uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, diminuição do sentimento de auto-estima e inibição de todas as atividades." A identificação com o objeto perdido é inevitável e, na medida em que não consegue incorporação simbólica, o que sobra ao sujeito é a identificação com o vazio de um pai ausente.

Se a psicanálise sofre hoje contestações de diferentes ordens, as palavras do seu criador sobre o comportamento melancólico se encaixam como uma luva para o amontoado de sandices que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu e disse no último domingo, 7/02, tentando deter e repudiar a impopularidade que o persegue desde o segundo mandato.

Há alguns anos, Carlos Heitor Cony, em artigo na Folha de São Paulo, não poupou palavras para melhor definir o “príncipe dos sociólogos: "Diziam seus admiradores que FHC era uma cabeça, um intelectual, um produtor de coisas inteligentes. Sua exposição no cargo mais alto do país rebaixou-o à dimensão de um demagogo banal, incapaz de articular um argumento alem do insulto aos que não acreditam nele e o acusam inclusive de improbidade."

Isso é FHC. A exigência egóica de ser admirado o torna, paradoxalmente, um líder sem liderados. Um prócer a ser evitado em anos eleitorais. Para quem acredita que fez um grande favor ao mundo nascendo, sua irritabilidade é permanente e justificada. Afinal, deve ser duro para quem esteve no poder durante oito anos, constatar que o resto do mundo político não reconhece sua importância. Pior, o que ganha realce são os erros grosseiros de um dirigente que governou de acordo com os humores do capital financeiro.

Seu governo passou para a história como um modelo que acentuava a exclusão social e penalizava as classes de menor renda. A estratégia de estabilização de preços baseada na captação de capital externo de curto prazo, através da sobrevalorização da moeda e da manutenção de elevadas taxas de juros, levou o país a níveis de desemprego sem precedentes, à desarticulação da estrutura produtiva e à deterioração do tecido social no campo e na cidade.

O mau desempenho do comércio brasileiro na época foi minuciosamente construído pela equipe de FHC que, realizando uma abertura irresponsável da economia, pôs em prática políticas monetárias e cambiais que minaram em grande parte nossa capacidade de competição internacional.

Mostrando a miopia fiscalista que o orienta até hoje, Cardoso escreveu em seu artigo (“Sem medo do passado”), publicado no Globo: "Esqueceu-se [Lula] dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal."

A entrega do patrimônio público ainda é apresentada como fórmula eficaz de fazer caixa. O que FHC faz questão de esquecer faz parte de sua história: grande parte do programa de privatização brasileiro foi financiada pelo BNDES. No cassino tucano, muitas empresas privatizadas não queriam fazer investimento aqui e se aproveitavam de polpudos créditos que também beneficiavam transnacionais já instaladas no país. O argumento utilizado era o de que a vinda desses setores permitiria agregar elementos de financiamento ao desenvolvimento nacional.

Quando se lê um artigo assim, descontextualizado, mal costurado em seus argumentos, é que nos damos contas da importância de olhar pelo retrovisor. É ele que sinaliza as perspectivas do futuro. Nesse ponto, o texto de Cardoso é didático, quase leitura obrigatória.

FHC sabe que a grande mídia corporativa exercerá o prestimoso papel de guiar suas mãos na hora de legitimar a irrelevância dos seus escritos. Somente os exércitos de colunistas destacados pelas famílias que controlam os meios de comunicação garantem sua vida política vegetativa.

Quando compara a ministra Dilma Rousseff a um boneco manipulado pelo presidente Lula não faz qualquer ponderação política, apenas evidencia que sua cabeça está longe de ser privilegiada. É uma mente que destila bile (que está na raiz da palavra melancolia) para desqualificar seus adversários. É o menestrel da política pequena buscando a facilidade da ribalta midiática.

Antes de dizer que “o PT “tenta desconstruir o seu mandato”, o ”príncipe” deveria dedicar mais tempo à leitura do que andaram falando sobre seu governo as principais lideranças do seu partido, em especial o governador de São Paulo. Uma boa sugestão seria o livro “Conversas com Economistas Brasileiros II", que a Editora 34 lançou em 1999. Lá ele encontraria o seguinte trecho:

“A política cambial do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso foi um desastre gratuito e total. Foi resultado de pouca reflexão analítica de seus condutores. Suas conseqüências foram devastadoras em muitas áreas da economia, inclusive comprometendo as metas fixadas no processo de privatização."

Essa crítica, das mais contundentes feitas por um economista que participou dos dois mandatos do governo FHC, é de José Serra em entrevista a dois professores da FGV, Guido Mantega e José Márcio Rego. E agora, quem é o boneco de quem? Nem mesmo um governador que submergiu com as enchentes em São Paulo, levando com ele a suposta capacidade gerencial do tucanato, pôde endossar a política arrasada do ex-presidente. O que esperar da oposição? A compaixão que deve ser concedida aos incapazes?

As palavras do ex-presidente devem ser vistas como movimentos de descompressão da realidade. Quando, a partir da melancolia e solidão de sua maturidade, um ator político faz a volta à infância, o ridículo se apodera do cenário. Fernando Henrique precisa de amigos.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e tem traço cativo neste blog.

A liberação do uso da charge é uma cortesia do cartunista Bira Dantas.

No "Traços de Estilo" - A Venezuela, os EUA e os Lobos sorridentes

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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lula: A história de um vencedor - Cap. 2 - Cadê o açude? Cadê a comida?

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Não leu o primeiro capítulo? Clique aqui.
Esta história em quadrinhos, que foi lançada em 2002, será publicada aqui em capítulos sempre aos domingos. A liberação dos direitos autorais é uma cortesia de seu autor, o cartunista Bira Dantas, para o blog "Quem tem medo do Lula?".

Carnaval do Rio: Ordem para quem?

Ilustração: Caio Monteiro
Por Luciana Cortes e Vanessa Sol, no "Olhar Virtual"

Desde que assumiu a Prefeitura do Rio de Janeiro, em 2009, Eduardo Paes adotou o chamado “Choque de ordem”. A política consiste na repressão do mercado informal e em ocupações urbanas em diversos pontos da cidade. Em 2010, o prefeito prometeu colocar ordem no carnaval de rua do Rio de Janeiro, coibindo o comércio ambulante durante o carnaval. Os trabalhadores protestam e denunciam abuso de poder. Apesar de incômoda para uma parcela da população, a iniciativa agrada a muitos.

Para instaurar a ordem na cidade durante os dias de carnaval, a Prefeitura promete, entre outras coisas, instalar banheiros químicos e promover medidas de conscientização sobre os malefícios da combinação de álcool com direção. De acordo com muitos especialistas e pesquisadores, entretanto, a solução para o problema da desordem urbana, caso ele realmente exista, reside no desenvolvimento de políticas públicas que beneficiem todas as regiões da cidade, e não apenas as zonas mais abastadas. A questão do choque de ordem vai além das ações em si; está ligada à forma como vem sendo aplicada e quem ela beneficia.

Para tentar compreender melhor como o choque de ordem interfere na dinâmica da cidade e como será o carnaval com a adoção das novas medidas, o Olhar Virtual conversou com os professores Marco Antonio da Silva Mello, coordenador do Laboratório de Etnografia Metropolitana do Ifcs, e Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, coordenador do Observatório de Metrópoles (Ippur/UFRJ).

Marco Antonio da Silva Mello
Antropólogo e coordenador do Laboratório de Etnografia Metropolitana (Ifcs/UFRJ)

“A política do choque de ordem é voltada para a fobia que as classes, com um estilo de vida aburguesado, têm em relação ao estilo de vida que não querem para elas.”

“A Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, ao colocar em prática a ideia do choque de ordem, seja no carnaval ou em outro momento qualquer, nada mais quer do que colocar em prática as leis que já existem e que não são cumpridas. A essa execução quer se dar um ar de novidade, que não é verídico. No entanto, a primeira pergunta que deve ser feita é: ordem para quem? Cabe levantar várias interrogações na tentativa de compreender o que está sendo colocado como ordem nas pretensões do legislador e do dirigente. No caso, o prefeito do Rio de Janeiro, e onde essas ações estão ocorrendo e de que maneira estão ocorrendo.

Nesse choque de ordem, como todo processo de organização, ordenamento ou reestruturação de alguma coisa, há personagens determinados a organizar e erradicar outros da cidade. Isto é, querem exorcizar alguns elementos da imagem de uma cidade que se quer instituir. Isso aconteceu também no passado com a reforma urbana do prefeito Pereira Passos (gestão entre 1902 e 1906).

O choque de ordem virou um grande artefato simbólico para a zona sul do Rio de Janeiro. Há quem diga que a administração municipal, em conjunto com a estadual, quer transformá-la em uma nova Mônaco, separada do restante da cidade. O problema é mais complexo que o beneficiamento de uma parcela da sociedade, pois a população não é passiva. Ela também manipula essas agendas e é óbvio que, como moradores da cidade, não podemos achar que se pode tudo.

Essa questão do ordenamento é subjetiva. Em Ipanema, por exemplo, há um hotel que construiu um deque na areia da praia, que todo mundo acha maravilhoso. Em compensação, todo mundo reclama do camelô que coloca a ‘banquinha’ dele em cima da calçada. A política do choque de ordem é voltada para a fobia que as classes, com um estilo de vida aburguesado, têm em relação ao estilo de vida que não querem para elas.

O desenvolvimento de políticas públicas de habitação, transporte, educação, saúde e saneamento básico minimizaria os problemas urbanos. Essas políticas, quando são desenvolvidas, estão sempre voltadas para a área central da cidade ou zona sul.”

Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro
Sociólogo e coordenador do Observatório de Metrópoles do Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano e Regional (Ippur/UFRJ)

“Ao contrário do que possa parecer a alguns, não somente a parcela mais conservadora da população se beneficia com as medidas adotadas pelas operações de ordenamento da Prefeitura.”

“Qualquer organização limita as expressões mais espontâneas, mas o carnaval tem que ser organizado. A questão é: qual o grau e como serão aplicadas as medidas de ordenamento? O carnaval de rua do Rio de Janeiro tem grande proporção e necessidade de organização. É necessário que existam banheiros públicos, por uma questão de conforto e principalmente de higiene. Outra medida importante é que as vias não sejam todas fechadas e haja planejamento especialmente voltado para o transporte público, permitindo a locomoção eficiente das pessoas.

Mais uma questão é a repressão aos ambulantes. Tais vendedores necessitam de regras que limitem sua atuação. Porém, uma operação desse porte, executada no período do carnaval, muito dificilmente conseguirá impedir que eles atuem. A fiscalização será difícil, não ocorre nem no dia a dia, quanto mais no carnaval.

Tentativas de fazer um carnaval de rua mais organizado também estão partindo dos próprios blocos, que, de uns anos para cá, resolveram colocar cordas para evitar a atuação de ambulantes e tentar um maior controle das pessoas. Isso prova que o fato de se estabelecer e fazer cumprir algumas regras à festa não necessariamente tira sua espontaneidade.

Esses projetos de ordenamento urbano precisam de planejamento em longo prazo para que efetivamente funcionem. Mas, mesmo que as ações postas em prática não sejam totalmente acertadas, é importante fazer algo que sinalize para o poder público. E a sociedade tem que participar.

Tal política podia ser legitimada pela sociedade se houvesse um fórum e se o governo promovesse debates para discutir quais medidas desagradam à população e quais ela quer que sejam implantadas, mesmo porque, ao contrário do que possa parecer a alguns, não somente a parcela mais conservadora da população se beneficia com as medidas adotadas pelas operações de ordenamento da Prefeitura, mas a sociedade toda ganha, pois numa cidade sem ordem os mais poderosos detêm o poder.”

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Lula: A história de um vencedor - Cap. 1 O nascimento



Esta história em quadrinhos, que foi lançada em 2002, será publicada aqui a partir de hoje em capítulos. A liberação dos direitos autorais é uma cortesia de seu autor, o cartunista Bira Dantas, para o blog "Quem tem medo do Lula?".

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Abílio Diniz: "Sou fã de carteirinha do Lula"

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Traço de mestre

O ódio da mídia e a primeira vitória de Lula

O rancor da mídia corporativa tem que ser contemplado como pano de fundo de uma grande derrota. Suas ameaças só não são trágicas porque, ao arreganhar os dentes, a grande imprensa introduz notas burlescas no discurso que se pretendia ameaçador.

Por Gilson Caroni Filho

Se a deontologia do jornalismo não contempla a divulgação de matérias partidarizadas como se fossem notícias apuradas em nome do leitor/telespectador, o telejornalismo brasileiro, principalmente o da Rede Globo, anda precisando redefinir qual é a natureza do seu verdadeiro ofício. Que fato objetivo deflagra tanta empulhação em horário nobre? Que registro simbólico almeja sua busca de sentidos? Qual a necessidade de construção permanente de imagens desfavoráveis ao governo e, em especial, ao presidente da República? Enganam-se os que pensam que as respostas a essas questões residem apenas nas próximas eleições. Lula, por seu significado histórico, representa uma fratura bem mais profunda do que pode parecer à primeira vista.

Ao obter mais de 30 milhões de votos em 1989, o ex-líder sindical apareceu como condensação das forças sociais que se voltavam para a demolição tardia do antigo regime. Contrariando prognósticos de conceituados analistas, sua candidatura teve gás suficiente para enfrentar as máquinas partidárias de velhos caciques. Mesmo derrotado por Collor, que representava a reprodução do passado no presente, o desempenho de Lula prenunciou, de forma categórica, o fim de uma “democracia” que só era possível mediante pacto de compromisso entre as velhas elites políticas, civis e militares. Essa foi sua primeira vitória. E a Globo disso se deu conta.

O embrião de um novo espaço histórico, capaz de conferir peso e voz aos de baixo na sociedade civil, na cultura e no arcabouço estatal, estava lançado. Com uma indiscutível capacidade de antecipação histórica, a família Marinho, que construiu seu colosso midiático como um Estado dentro do Estado- e muitas vezes acima dele- pressentiu o ocaso dos dias gloriosos. Como principal aparelho de legitimação da ditadura militar, as Organizações sempre vislumbraram a democracia como processo fatal à sua supremacia. E essa era uma avaliação correta. Deter o movimento profundo que vinha das urnas seria impossível.

A centralidade de Lula e do Partido dos Trabalhadores no cenário político era o avanço do cidadão negado, desde sempre, em sua cidadania. A construção da nova história objetivaria também o significado das eleições seguintes. Até a vitória em 2002, o acúmulo de forças trouxe à cena as esperanças políticas das classes excluídas. O rosto sofrido, que se contrapunha tanto à estética das modernizações conservadoras quanto à ética do neoliberalismo rentista, já não temia as bravatas e espertezas do adversário.

O rancor da mídia corporativa tem que ser contemplado como pano de fundo de uma grande derrota. Suas ameaças só não são trágicas porque, ao arreganhar os dentes, a grande imprensa introduz notas burlescas no discurso que se pretendia ameaçador. O diagnóstico que denuncia o fim da festa sai, ainda que codificado, dos débeis sustentáculos da credibilidade que lhe sobrou junto a setores protofascistas da classe média.

Ao criminalizar movimentos sociais, criticar a política externa tentando estabelecer paralelos entre Caracas e Tegucigalpa, e censurar premiações internacionais recebidas pelo presidente, o jornalismo produzido vai desenovelando a história da imprensa brasileira com impecável técnica televisiva.

Resta-lhe o apoio de uma direita sem projeto, voraz, cínica e debochada. Esse é o único troféu que ostenta em 2010, após ter sofrido o baque inaugural há 21 anos. Na década de 1980, ainda valia editar debates e fazer uso político de seqüestro de empresários. Afinal, não seria por apoio governamental que conferências debateriam monopólio e manipulação midiática.

Em outubro, a Globo não estará apostando apenas na candidatura de José Serra. Buscará, mediante retrocessos de toda ordem, garantir a sobrevida de uma ordem informativa excludente, incompatível com as regras mais elementares do Estado Democrático de Direito.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Quem resiste a uma brincadeira de roda? Salve Elis!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Os dois pedaços de um mesmo pão




Animados pela hipocrisia, esses humanistas de última hora se esquecem de que, tanto como no Haiti, é a miséria que faz as nossas tragédias. É a falta de trabalho, de escolas, de saúde, de planejamento urbano, de reforma agrária, enfim, da dignidade que vem sendo negada aos pobres, desde que aqui chegaram os fidalgos ibéricos.


Por Mauro Santayana, jornalista, no JB de hoje


Entre outras vozes que se levantaram, no Brasil, contra a nossa solidariedade para com o povo do Haiti, destacou-se a do senador Epitácio Cafeteira, do Maranhão. Sua excelência pertence às oligarquias daquele estado e, desde 1962, tem sido eleito pelo seu povo, um dos mais pobres do país. Homem rico, conforme a relação de seus bens divulgada pelo Senado – muitos deles imóveis valiosíssimos – Cafeteira dispõe de dois aviões e automóveis importados. No Senado, ao negar ao governo autorização para o envio de mais tropas brasileiras a Porto Príncipe, declarou comovente solidariedade com o povo brasileiro. Para ele, é necessário cuidar dos brasileiros, e não dos estrangeiros. E foi além: atribuiu à imprensa brasileira o destaque que se dá aos mortos do Haiti, em detrimento das vítimas nacionais das enchentes.


Nós poderíamos cobrar do senador solidariedade para com o seu povo mais próximo, o do Maranhão – como governador que foi do estado, e como parlamentar que o vem representando há quase cinco décadas. As mulheres quebradeiras de coco, os pescadores, os sertanejos e os caboclos maranhenses, castigados secularmente pela miséria, massacrados pelo latifúndio e, eventualmente, pelas cheias, estão esperando pela compaixão do senador. Cafeteira é um dos donos do Maranhão. Se houvesse nascido no Haiti, naturalmente pertenceria à elite mulata daquele pequeno país, e, morando na parte mais bem edificada de Porto Príncipe, não estaria necessitando da solidariedade dos outros. Estaria preocupado com seus aviões e seus automóveis e, provavelmente, com suas lanchas.


As seções de cartas dos jornais e alguns blogs da internet mostram que parcelas alienadas da classe média tornaram-se, repentinamente, também sensibilizadas com as enchentes e desabamentos em nosso país, e acusam o governo de se dedicar ao Haiti. Trata-se de um desvio singular da ação política. Animados pela hipocrisia, esses humanistas de última hora se esquecem de que, tanto como no Haiti, é a miséria que faz as nossas tragédias. É a falta de trabalho, de escolas, de saúde, de planejamento urbano, de reforma agrária, enfim, da dignidade que vem sendo negada aos pobres, desde que aqui chegaram os fidalgos ibéricos. Aqui – e na Ilha La Española, onde se encontra o Haiti. O subdesenvolvimento, causa de toda a miséria, não é maldição mas resultado de deliberado projeto de desigualdade. Quanto maior a miséria em torno, mais ricos se fazem alguns. Por isso impedem a reforma agrária e impedem a educação dos pobres. Sua filosofia é a de que só têm direito aos benefícios da civilização os que puderem pagar por eles.


Eles não sabem que uma das poucas alegrias das pessoas pobres é a do exercício da solidariedade. Não conhecem a felicidade dos trabalhadores que se organizam em mutirão a fim de reconstruir o barraco que desabou, ou de construir a moradia de dois cômodos para uma viúva e seus filhos. Os haitianos que perderam suas casas e seus familiares são seres humanos, exatamente iguais aos nossos pobres, que se veem nos olhos solidários dos soldados e dos voluntários civis brasileiros no Haiti.


O presidente Lula pode desagradar a muitas pessoas, por ter saltado etapas em sua realização pessoal. Ele deixou o chão da fábrica para liderar seus companheiros de classe e se tornou dirigente político e presidente da República. É um pecado imperdoável: não enfrentou o vestibular, não teve que cavar empregos seguros ou casamentos de conveniência para se tornar vitorioso: enfim, não serve de modelo para a formação de uma juventude alienada e consumista, instrumento para a segurança de parcelas das elites. É provável que, no caso do Haiti, o presidente reaja como o menino que enfrentou as cheias na periferia de São Paulo e conhece de perto a solidariedade dos pobres.


O Brasil, como um todo, não sendo ainda um país rico, age como seus pobres. Não há nenhum mérito em dar o que nos sobra. O mérito está em repartir o que temos e do que necessitamos. Poeta mais conhecido em Minas, Djalma Andrade resumiu este sentimento ao pedir a Deus que nunca o deixasse comer sozinho o pão que pudesse partir em dois pedaços.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Salvem a Terra!


Ache outros vídeos como este em Silvio Brito Site Oficial

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Traço de mestre

Foto: Jiro Ose

Haiti, a geologia do império

O envio de mais de 10 mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear, sem que a ONU fosse sequer consultada, revela uma estratégia por demais conhecida dos Estados Unidos.

Por Gilson Caroni Filho

Enquanto as placas tectônicas do Caribe e da América do Norte não se estabilizam, o povo haitiano vive, mais uma vez, o limite de suas possibilidades históricas. O envio de mais de 10 mil soldados e marines, e uma frota capitaneada por um porta-aviões nuclear, sem que a ONU fosse sequer consultada, revela uma estratégia por demais conhecida. Se a natureza, como a própria guerra, tem as suas próprias leis, os fatos desatados por sucessivos abalos sísmicos servem como exercício para que os Estados Unidos reafirmem a preeminência na América Caribenha, descartando qualquer possibilidade de países vizinhos interferirem em sua supremacia na região.

Quando a secretária de Estado americana Hillary Clinton, a bordo de um avião militar, pronuncia que “o socorro às vítimas do terremoto poderia chegar de forma mais rápida se o Parlamento haitiano aprovasse um decreto dando mais poderes ao presidente René Préval, alguns dos quais poderiam ser delegados aos Estados Unidos como a possibilidade de declarar toque de recolher", suas palavras não podem ser compreendidas fora da lógica dos poderes que comandam a titeragem internacional.

O que lhes interessa (aos poderes), em qualquer circunstância, é executar a estratégia de dominação da grande potência mundial de nossos dias, pouco se importando com a deterioração das condições de vida da população afetada, com os escombros de Porto Príncipe ou com os milhares de mortos que estão sendo enterrados em valas comuns. O que conta é experimentar novas formas de controle sobre países periféricos, organizando uma logística que privilegia a ação militar em detrimento de uma operação humanitária. Não foi à toa que a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), uma das principais organizações humanitárias da França, acusou os Estados Unidos de prejudicarem as operações de auxílio no Haiti, causando graves atrasos para os médicos que tentam levar ajuda às vítimas.

Convém lembrar que a ostentação da superioridade militar, embora em algumas ocasiões seja grotesca, é uma das características do imperialismo. Os repetidos atos de agressão contra o país mais pobre da América Latina são de conhecimento público. Da ocupação militar estadunidense de 1915 a 1934, seguida do apoio à ditadura dos Duvallier- que tinha por base o terror miliciano dos Tonton Macoutés-, até a participação direta no golpe que depôs, em 1991, o presidente eleito Jean-Bertrand Aristides, a política de terra arrasada sempre foi considerada o “argumento" mais eficaz para contenção geopolítica de ensaios de emancipação.

A despeito da mudança de linguagem em relação ao governo Bush, os adeptos ou intérpretes desse tipo de diplomacia, fundamentam-se, ainda, nos mesmos eixos: segurança hemisférica, defesa de supostos princípios civilizatórios, ameaças do terrorismo internacional e algumas outras variações semânticas. A ocupação do palácio presidencial por uma centena de paraquedistas da 82ª Divisão dos EUA vai bem além do campo simbólico: é a reiteração de uma estratégia de solução baseada no uso unilateral da força, fora dos marcos de legitimidade das Nações Unidas. Sem sutilezas, a intervenção preventiva dá lugar à “guerra justa” de Hillary Clinton.

Para o Departamento de Estado parece não haver dúvidas quanto ao futuro do Haiti. Em um universo regido pelo exercício do poder econômico e militar, a possibilidade de se tornar um novo Protetorado é o melhor destino para um povo que morre cedo e tem uma renda de US$ 560. Na pior das hipóteses, a produção de bolas de baseball terá um considerável incremento.

Se o objetivo é deter a emergência de estratégias de organização da economia e desenvolvimento político social e cultural que escapem às conveniências da hegemonia estadunidense no hemisfério, a geologia pode dar contribuições consideráveis. Placas tectônicas podem liberar uma energia destrutiva impensável.

A acomodação, no entanto, depende de uma generosidade que, para se efetivar, terá que ser encorpada como resistência política. Isso não é assunto exclusivo dos haitianos. Talvez, a associação entre os desiguais nunca tenha sido tão necessária.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Você faz isso?

Traço de mestre

Orkut: do lado direito da tela

Exacerbando as tendências comportamentais da sociedade contemporânea, o Orkut acabou por produzir o oposto do que prometia: a capacidade de resgatar e ampliar o círculo de amizades. Na verdade, o que se observa é uma compulsividade acumulativa.

Por Gilson Caroni Filho

"Navegar é preciso, conviver quase impossível. Em tempos de capital desterritorializado e novas mídias criando subjetividades requeridas pela acumulação contemporânea, é preciso atualizar o poeta. Mais que isso, é necessário revisitar o significado de termos como comunidade e amizade. A primeira, independentemente do prisma sociológico escolhido, sempre foi compreendida como um lócus territorial específico. Seja como unidade sócio-cultural ou agregado biológico, os elementos definidores sempre foram sua materialidade e participação efetiva dos membros constituintes. A segunda, a enaltecida palavra amizade, significava, até então, processo de afetividade recíproca. Algo construído com cumplicidade e reconhecimento do outro como sujeito dotado de direitos e desejos..

Mas os novos tempos não são alentadores. A ordem societária do neoliberalismo não comporta projetos coletivos e utopias que ameacem os seus axiomas. Solicita relações fragmentadas, atomizadas. Uma identidade de espelho partido. Em meio à circulação indiferente de códigos e à autonomia das coisas em relação às idéias, a inteligibilidade do mundo se evapora. Resgatá-la como totalidade, ocultando as fraturas permanentes da sociedade de classes, é, como destacou Guy Debord, função do espetáculo. Urge dar às pessoas o simulacro do que lhes falta na vida real. Quando a anomia se transmuta em regra, os dispositivos técnico-digitais agenciam uma sociabilidade tão precária quanto frenética. Nunca se buscou tão pouco, nunca foram tantos os sites de busca.

É nesse contexto, de vazio político-filosófico, que surgiu a febre do Orkut, ferramenta ligada ao império Google. Definido como site de relacionamentos, abriga uma contradição em termos: a expressão ‘comunidades virtuais’. O que seriam tais entidades? Não-lugares que primam pela ausência de interação? Espaços que independem da subjetividade dos seus membros? Falsas constelações sem imaginário e história? Agrupamentos que se definem por identidades líquidas?

Pergunta ao usuário: o que é pertencer a uma ‘comunidade do Orkut’? Seria acessar o hábitat do fetiche da mercadoria? E se houver algum imprevisto do tipo "bad, bad server. No donut for you"? Sem problemas, a reprodução social passa pela infantilização eterna. Criança não quer política. Contenta-se com docinho. Em seguida, vieram outros sites de relacionamento. Todos com a promessa de uma estruturação mínima, de conexões sem risco de aprofundamento e contato. O único risco é um "bug" indesejável. Algo que, paradoxalmente, possa restituir a magia primitiva da linguagem.

Exacerbando as tendências comportamentais da sociedade contemporânea, o Orkut acabou por produzir o oposto do que prometia: a capacidade de resgatar e ampliar o círculo de amizades. Na verdade, o que se observa é uma compulsividade acumulativa.

O que era um processo envolvendo concordância de sentimentos, apreço pelo outro, relação reinventada diariamente, torna-se, no universo do Google, uma mera operação de adição. Ostentação curricular de prestígio social. Competitividade deslavada. Com certificado de qualidade que vem sob a forma de "depoimento". Nunca a solidão agregou tanta euforia. E uma fantástica coleção de retratos. A impossibilidade constitutiva de se ter mais de uma centena de amigos é um detalhe a ser ignorado. Deveriam ter aprendido com o “Show de Truman” que o horizonte termina na parede.

Bons os tempos que os amigos eram raros e cultivados. Hoje, como simulacros, são adicionáveis e devem ser guardados do lado direito da tela. E pouco importa o que digam o tempo e a distância. A canção deve ser esquecida. Nunca fomos tão felizes.

Em tempo:o autor deste artigo tem perfil no Orkut. Para melhor vivenciar a dinâmica, aceitou pedidos de adição e escreveu testemunhos. Visitou algumas das ditas comunidades e selecionou algumas para compor o perfil do usuário. Jamais participou de nenhuma, posto que o significado mais exato da palavra participação e a proposta Google são incompatíveis.

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil.

Colaboração de Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

domingo, 17 de janeiro de 2010

No "Traços de Estilo": "Uma página infeliz de nossa história"

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sábado, 16 de janeiro de 2010

PALESTRA QUE ZILDA ARNS PREPAROU PARA APRESENTAR NO HAITI.

Reproduzido do blog da jornalista Vera Mattos

"Agradeço o honroso convite que me foi feito. Quero manifestar minha grande alegria por estar aqui com todos vocês em Porto Príncipe, Haiti, para participar da assembleia de religiosos.

Como irmã de dois franciscanos e de três irmãs da Congregação das Irmãs Escolares de Nossa Senhora, estou muito feliz entre todos vocês. Dou graças a Deus por este momento.

Na realidade, todos nós estamos aqui, neste encontro, porque sentimos dentro de nós um forte chamado para difundir ao mundo a boa notícia de Jesus. A boa notícia, transformada em ações concretas, é luz e esperança na conquista da Paz nas famílias e nas nações. A construção da paz começa no coração das pessoas e tem seu fundamento no amor, que tem suas raízes na gestação e na primeira infância, e se transforma em fraternidade e responsabilidade social.

A paz é uma conquista coletiva. Tem lugar quando encorajamos as pessoas, quando promovemos os valores culturais e éticos, as atitudes e práticas da busca do bem comum, que aprendemos com nosso mestre Jesus: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenha em abundância" (Jo 10.10).

Espera-se que os agentes sociais continuem, além das referências éticas e morais de nossa Igreja, ser como ela, mestres em orientar as famílias e comunidades, especialmente na área da saúde, educação e direitos humanos. Deste modo, podemos formar a massa crítica das comunidades cristãs e de outras religiões, em favor da proteção da criança desde a concepção, e mais excepcionalmente até os seis anos, e do adolescente. Devemos nos esforçar para que nossos legisladores elaborem leis e os governos executem políticas públicas que incentivem a qualidade da educação integral das crianças e saúde, como prioridade absoluta.

O povo seguiu Jesus porque ele tinha palavras de esperança. Assim, nós somos chamados para anunciar as experiências positivas e os caminhos que levam as comunidades, famílias e pais a serem mais justos e fraternos. Como discípulos e missionários, convidados a evangelizar, sabemos que força propulsora da transformação social está na prática do maior de todos os mandamentos da Lei de Deus: o amor, expressado na solidariedade fraterna, capaz de mover montanhas: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos" significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais necessitam. Somar esforços para alcançar os objetivos, servir com humildade e misericórdia, sem perder a própria identidade.

Todo esse caminho necessita de comunicação constante para iluminar, animar, fortalecer e democratizar nossa missão de fé e vida. Cremos que esta transformação social exige um investimento máximo de esforços para o desenvolvimento integral das crianças. Este desenvolvimento começa quanto a criança se encontra ainda no ventre sagrado da sua mãe. As crianças, quando estão bem cuidadas, são sementes de paz e esperança. Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças. Não é por nada que disse Jesus: "... se vocês não ficarem iguais a estas crianças, não entrará no Reino dos Céus" (MT 18,3). E "deixem que as crianças venham a mim, pois deles é o Reino dos Céus" (Lc 18, 16).

Hoje vou compartilhar com vocês uma verdadeira história de amor e inspiração divina, um sonho que se fez realidade. Como ocorreu com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35), "Jesus caminhava todo o tempo com eles. Ele foi reconhecido a partir do pão, símbolo da vida." Em outra passagem, quando o barco no Mar da Galileia estava prestes a afundar sob violentas ondas, ali estava Jesus com eles, para acalmar a tormenta. (Mc 4, 35-41).

Com alegria vou contar o que "eu vi e o que tenho testemunhado" a mais de 26 anos desde a fundação da Pastoral da Criança, em setembro de 1983.
Aquilo que era uma semente, que começou na cidade de Florestópolis, Estado do Paraná, no Brasil, se converteu no Organismo de Ação Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, presente em 42 mil comunidades pobres e nas 7.000 paróquias de todas as Dioceses da Brasil.

Por força da solidariedade fraterna, uma rede de 260 mil voluntários, dos quais 141 mil são líderes que vivem em comunidades pobres, 92% são mulheres, e participam permanentemente da construção de um mundo melhor, mais justo e mais fraterno, em serviço da vida e da esperança. Cada voluntário dedica em média 24 horas ao mês a esta missão transformadora de educar as mães e famílias pobres, compartilhar o pão da fraternidade e gerar conhecimentos para a transformação social.

O objetivo da Pastoral da Criança é reduzir as causas da desnutrição e a mortalidade infantil, promover o desenvolvimento integral das crianças, desde sua concepção até o seis anos de idade. A primeira infância é uma etapa decisiva para a saúde, a educação, a consolidação dos valores culturais, o cultivo da fé e da cidadania com profundas repercussões por toda a vida.

Um pouco de história:

Sou a 12ª de 13 irmãos, cinco deles são religiosos. Três irmãs religiosas e dois sacerdotes franciscanos. Um deles é D. Paulo Evaristo, o Cardeal Arns, Arcebispo emérito de São Paulo, conhecido por sua luta em favor dos direitos humanos, principalmente durante os vinte anos da ditadura militar do Brasil.

Em maio de 1982, ao voltar de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, D. Paulo me chamou pelo telefone a noite. Naquela reunião, James Grant, então diretor executivo da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), falou com insistência sobre o soro oral. Considerado como o maior avanço da medicina no século passado, esse soro era capaz de salvar da morte milhões de crianças que poderiam morrer por desidratação devido a diarreia, uma das principais causas da mortalidade infantil no Brasil e no mundo. James Grant conseguiu convencer a D. Paulo para que motivasse a Igreja Católica a ensinar as mães a preparar e administrar o soro oral. Isto podia salvar milhares de vidas.

Viúva fazia cinco anos, eu estava, naquela noite histórica, reunida com os cinco filhos, entre os nove e dezenove anos, quando recebi a chamada telefônica do meu irmão D. Paulo. Ele me contou o que havia passado e me pediu para refletir sobre ele. Como tornar realidade a proposta da Igreja de ajudar a reduzir a morte das crianças? Eu me senti feliz diante deste novo desafio. Era o que mais desejava: educar as mães e famílias para que soubessem cuidar melhor de seus filhos!

Creio que Deus, de certo modo, havia me preparado para esta missão. Baseada na minha experiência como médica pediatra e especialista em saúde pública e nos muitos anos de direção dos serviços públicos de saúde materna-infantil, compreendi que, além de melhorar a qualidade dos serviços públicos e facilitar às mães e crianças o acesso a eles, o que mais falta fazia às mães pobres era o conhecimento e a solidariedade fraterna, para que pudessem colocar em prática algumas medidas básicas simples e capazes de salvar seus filhos da desnutrição e da morte, como por exemplo a educação alimentar e nutricional para as grávidas e seus filhos, a amamentação materna, as vacinas, o soro caseiro, o controle nutricional, além dos conhecimentos sobre sinais e sintomas de algumas doenças respiratórias e como as prevenir.

Me vem à mente então a metodologia que utilizou Jesus para saciar a fome de 5.000 homens, sem contar as mulheres e as crianças. Era noite e tinham fome. Os discípulos disseram a Jesus que o melhor era que deixassem suas casa, mas Jesus ordenou: "Dai-lhes vós de comer". O apóstolo Felipe disse a Jesus que não tinham dinheiro para comprar comida para tanta gente. André, irmão de Simão, sinalou a uma criança que tinha dois peixes e cinco pães. E Jesus mandou que se sentassem em grupos de cinquenta a cem pessoas (em pequenas comunidades). Então pensei: Por que morrem milhões de crianças por motivos que podem facilmente ser prevenidos? O que faz com que eles se tornem criminosos e violentos na adolescência?

Recordei o inicio da minha carreira, quando me desafiei a querer diminuir a mortalidade infantil e a desnutrição. Vieram a minha mente milhares de mães que trocaram o leite materno pela mamadeira diluída em água suja. Outras mães que não vacinam seus filhos, quando não havia ainda cesta básica no Centro de Saúde. Outras mães que limpavam o nariz de todos os seus filhos com o mesmo pano, ou pegavam seus filhos e os humilhavam quando faziam xixi na cama. E ainda mais triste, quando o pai chegava em casa bêbado. Ao ouvir o grito de fome e carinho de seus filhos, os venciam mesmo quando eram muito pequenos. Sabe-se, segundo resultados de pesquisas da OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja publicação acompanhei em 1994, que as crianças maltratadas antes de um ano de idade têm uma tendência significativa para violência, e com frequência fazem crimes antes dos 25 anos.

A Igreja, que somos todos nós, que devíamos fazer?

Tive a seguridade de seguir a metodologia de Jesus: organizara as pessoas em pequenas comunidades; identificar líderes, famílias com grávidas e crianças menores de seis anos. Os líderes que se dispusessem a trabalhar voluntariamente nessa missão de salvar vidas, seriam capacitados, no espírito da fé e vida, e preparados técnica e cientificamente, em ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. Seriam acompanhados em seu trabalho para que não se desanimassem. Teriam a missão de compartilhar com as famílias a solidariedade fraterna, o amor, os conhecimentos sobre os cuidados com as grávidas e as crianças, para que estes sejam saudáveis e felizes. Assim como Jesus ordenou que considerassem se todos estavam saciados, tínhamos que implantar um sistema de informações, com alguns indicadores de fácil compressão, inclusive para líderes analfabetos ou de baixa escolaridade. E vi diante de mim muitos gestos de sabedoria e amor apreendidos com o povo.

Senti que ali estava a metodologia comunitária, pois podia se desenvolver em grande escala pelas dioceses, paróquias e comunidades. Não somente para salvar vidas de crianças, mas também para construir um mundo mais justo e fraterno. Seria a missão do "Bom Pastor", que estão atentos a todas as ovelhas, mas dando prioridade àquelas que mais necessitam. Os pobres e os excluídos. Naquela maravilhosa noite, desenhei no papel uma comunidade pobre, onde identifique famílias com grávidas e filhos menores de seis anos e lideres comunitários, tanto católicos como de outras confissões e culturas, para levar adiante ações de maneira ecumênica, pois Jesus veio par que "todos tenham Vida e Vida em abundância" (João 10,10). Isto é o que precisa ser feito aqui no Haiti: fazer um mapa das comunidades pobres, identificar as crianças menores de 6 anos e suas famílias e lideres comunitários que desejam trabalhar voluntariamente.

Desde a primeira experiência, a Pastoral da Criança cultivou a metodologia de Jesus, que é aplicada em grande escala. No Brasil, em mais de 40 mil comunidades, de 7.000 paróquias de todas as 272 diocese e preladias. Está se estendendo a 20 países. Estes são, na América Latina e no Caribe: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Uruguai, Peru, Venezuela, Guatemala, Panamá, República Dominicana, Haiti, Honduras, Costa Rica e México; na África: Angola, Guiné-Bissau, Guiné Conakry e Moçambique e na Ásia: Filipinas e Timor Leste.

Para organizar melhor e compartilhar as informações e a solidariedade fraterna entre as mães e famílias vizinhas, as ações se baseiam em três estratégias de educação e comunicação: individual, de grupo e de massas. A Pastoral da Criança utiliza simultaneamente as três formas de comunicação para reforçar a mensagem, motivar e promover mudanças de conduta, fortalecendo as famílias com informações sobre como cuidar dos filhos, promovendo a solidariedade fraterna.

A educação e comunicação individual se fazem através da 'Visita Domiciliar Mensal nas famílias' com grávidas e filhos. Os líderes acompanham as famílias vizinhas nas comunidades mais pobres, nas áreas urbanas e rurais, nas aldeias indígenas e nos quilombos, e nas áreas ribeirinhas do Amazonas. Atravessam rios e mares, sobem e descem montes de encostas íngremes, caminham léguas, para ouvir os clamores das mães e famílias, para educar e fortalecer a paz, a fé e os conhecimentos. Trocam ideias sobre saúde e educação das crianças e das grávidas; ensinam e aprendem. Com muita confiança e ternura, fortalecem o tecido social das comunidade, o que leva a inclusão social.

Motivados pela Campanha Mundial patrocinadas pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1999, com o tema "Uma vida sem violência é um direito nosso", a Pastoral da Criança incorporou uma ação permanente de prevenção da violência com o lema "A Paz começa em casa". Utilizou como uma das estratégias de comunicação a distribuição de seis milhões de folhetos com "10 Mandamentos para alcançar a paz na família", debatíamos nas comunidades e nas escolas, do norte ao sul do país.

As visitas, entre tantas outras ações, servem para promover a amamentação materna, uma escola de dialogo e compartilhar, principalmente quando se dá como alimento exclusivo até os seis meses e se continua dando como alimento preferencial além do um ano, inclusive além dos dois anos, complementarmente com outros alimentos saudáveis. A sucção adapta os músculos e ossos para uma boa dicção, uma melhor respiração e uma arcada dentária mais saudável.

O carinho da mãe acariciando a cabeça do bebe melhora a conexão dos neurônios. A psicomotricidade da criança que mama no peito é mais avançada. Tanto é assim que se senta, anda e fala mais rápido, aprende melhor na escola. É fator essencial para o desenvolvimento afetivo e proteção da saúde dos bebês, para toda a vida. A solidariedade desponta, promovida pelas horas de contato direto com a mãe. Durante a visita domiciliar, a educação das mulheres e de seus familiares eleva a autoestima, estimula os cuidados pessoais e os cuidados com as crianças. Com esta educação das famílias se promove a inclusão social.

A educação e a comunicação grupal têm lugar cada em cada mês em milhares de comunidades. Esse é o Dia da Celebração da Vida. Momento dedicado ao fortalecimento da fé e da amizade entre famílias. Além do controle nutricional, estão os brinquedos e as brincadeiras com as crianças e a orientação sobre a cidadania. Neste dia as mães compartilham práticas de aproveitamento adequado de alimentos da região de baixo custo e alto valor nutritivo. As frutas, folhas verdes, sementes e talos, que muitas vezes não são valorizados pelas famílias.

Outra oportunidade de formação de grupo é a Reunião Mensal de Reflexão e Evolução dos líderes da comunidade. O objetivo principal desta reunião é discutir e estabelecer soluções para os problemas encontrados. Essas ações integram o sistema de informação da Pastoral da Criança para poder acompanhar os esforços realizados e seus resultados através de Indicadores. A desnutrição foi controlada. De mais de 50% de desnutridos no começo, hoje está em 3,1%.

A mortalidade infantil foi drasticamente reduzida e hoje está em 13 mortos por mil nascidos vivos nas comunidades com Pastoral da Criança. O índice nacional é 2,33, mas se sabe que as mortes em comunidades pobres, onde estão a Pastoral da Criança, é maior que é na média geral. Em 1982, a mortalidade infantil no Brasil foi 82,8 mil nascidos vivos. Estes resultados têm servido de base para conquistar entidades, como o Ministério da Saúde, Unicef, Banco HSBC, e outras empresas. Elas nos apoiam nas capacitações e em todas as atividades básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. O custo criança/mês é de menos de US$ 1.

Em relação à educação e à comunicação de massas apresentará três experiências concretas de como a comunicação é um instrumento de defesa dos direitos da infância.

Materiais impressos
O material impresso foi concebido especificamente para ajudar a formação do líder da Pastoral da Criança. Os instrutores e os multiplicadores servem como ferramenta de trabalho na tarefa de guiar as famílias e comunidades sobre questões de saúde, nutrição, educação e cidadania. Além do Guia da Pastoral da Criança, se colocou em marcha publicações como o Manual do Facilitador, Brinquedos e Jogos, Comida e as Hortas Familiares, alfabetização de jovens e adultos e mobilização social.

O jornal da Pastoral da Criança, com tiragem mensal de cerca de 280 mil, ou seja 3 milhões e 300 mil exemplares por ano, chega a todos os líderes da Pastoral da Criança. É uma ferramenta para a formação continua. O Boletim Dicas abarca questões relacionadas com a saúde e a educação para cidadania. Este especialmente concebido para os coordenadores e capacitadores da Pastoral da Criança. Cada publicação chega a 7.000 coordenadores.

Para ajudar na vigilância das mulheres grávidas, a Pastoral da Criança criou os laços de amor, cartões com conselhos sobre a gravidez e um partos saudável. Outros materiais impressos de grande impacto social é o folheto com os 10 mandamentos para a Paz na Família, 12 milhões de folhetos foram distribuídos nos últimos anos.

Além desses materiais impressos, se envia para as comunidades da Pastoral da Criança material para o trabalho de pesagem das crianças, objetos como balanças e também colheres de medir para a reidratarão oral e sacos de brinquedos para as crianças brincarem no dia da celebração da vida.
Material de som e vídeo

Outra área em que a Pastoral da Criança produz materiais é de som e a produção de filmes educativos. O Show ao vivo da Rádio da Vida, produzido e gravado no estúdio da Pastoral da Criança, chega a milhões de ouvintes em todo Brasil. Com os temas de saúde, de educação na primeira infância e a transformação social, o programa de rádio Viva a Vida se transmite semanalmente 3.740 vezes. Estamos "no ar", de 2.310 horas semanais em todo Brasil. Além disso, o Programa Viva a Vida também se executa em vários tipos de sistemas de som de CD e aparados nas reuniões de grupo.
A Pastoral da Criança também produz filmes educativos para melhorar e dar conhecimento de seu trabalho nas bases. Atualmente há 12 títulos produzidos que sem ocupam na prevenção da violência contra as crianças, comida saudável, na gravidez, e na participação dos Conselhos Municipais de Saúde, na preservação da AIDS e outros.

Campanhas

A Pastoral da Infância realiza e colabora em várias campanhas para melhorar a qualidade de vida das mulheres grávidas, famílias e crianças. Estes são alguns exemplos:

a. Campanhas de sais de reidratação oral
b. Campanha de Certidão de Nascimento: a falta de informação, a distância dos cartórios e a burocracia fazem com que as pessoas fiquem sem certidões de nascimentos.
c. A mobilização nacional para o registro civil de nascimento, que une o Estado brasileiro e a sociedade, [busca] garantir a cada cidadão de pleno direito o nome e os direitos.
d. Campanha para promover o aleitamento materno: o leite materno é um alimento perfeito que Deus colocou à disposição nos primeiros anos de vida.
Permanentemente, a Pastoral da Criança promove o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, em seguida, continuar, com outros alimentos. Isso protege contra doenças, desenvolve melhor e fortalece a criança.
e. Campanha de prevenção da tuberculose, pneumonia e hanseníase: as três doenças continuam a afetar muitas crianças e adultos em nosso país. A Pastoral da Criança prepara materiais específicos de comunicação para educar o público sobre sintomas, tratamento e meios de prevenção destas doenças.
f. Campanha de Saneamento: o acesso à água potável e o tratamento de águas residuais contribuem para a redução da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança, em colaboração com outros organismos, mobiliza a comunidade para a demanda por tais serviços a governos locais e usa os meios ao seu dispor para divulgar informações relacionadas ao saneamento.
g. Campanha de HIV/Aids e Sífilis: o teste do HIV/Aids e sífilis durante o pré-natal permite a redução de 25% para 1% do risco de transmissão para o bebê. A Pastoral da Criança apoia a campanha nacional para o diagnóstico precoce destas doenças.
h. Campanha para a Prevenção da morte súbita de bebês "Dormir de barriga para cima é mais seguro": Com a finalidade de alertar sobre os riscos e evitar até 70% das mortes súbitas na infância, a Pastoral da Criança lançou esta grande campanha dirigida às famílias para que coloquem seus bebês para dormir de barriga para cima.
i. Campanha de Prevenção do Abuso Infantil: Com esta campanha, a Pastoral da Criança esclarece as famílias e a sociedade sobre a importância da prevenção da violência, espancamentos e abuso sexual. Esta campanha inclui a distribuição de folheto com os dez mandamentos para a paz na família, como um incentivo para manter as crianças em uma atmosfera de paz e harmonia.
j. Campanha - 20 de novembro, dia de oração e de ação para as crianças: A Pastoral da Criança participa dos esforços globais para a assistência integral e proteção a crianças e adolescentes, em colaboração com a Rede Mundial de Religiões para a Infância (GNRC).

Em dezembro de 2009, completei 50 anos como médica e, antes de 2002, confesso que nunca tinha ouvido falar em qualquer programa da Unicef ou da Organização Mundial de Saúde (OMS), ou de outra agência da Organização das Nações Unidas (ONU), que estimulasse a espiritualidade como um componente do desenvolvimento pessoal. Como um dos membros da delegação do Brasil na Assembleia das Nações Unidas em 2002, que reuniu 186 países, em favor da infância, tive a satisfação de ouvir a definição final sobre o desenvolvimento da criança, que inclui o seu "desenvolvimento físico, social, mental, espiritual e cognitivo". Este foi um avanço, e vem ao encontro do processo de formação e comunicação que fazemos na Pastoral da Criança. Neste processo, vê-se a pessoa de maneira completa e integrada em sua relação pessoal com o próximo, com o ambiente e com Deus.

Estou convencida de que a solução da maioria dos problemas sociais está relacionada com a redução urgente das desigualdades sociais, com a eliminação da corrupção, a promoção da justiça social, o acesso à saúde e à educação de qualidade, ajuda mútua financeira e técnica entre as nações, para a preservação e restauração do meio ambiente. Como destaca o recente documento do papa Bento 16, "Caritas in veritate" (Caridade na verdade), "a natureza é um dom de Deus, e precisa ser usada com responsabilidade." O mundo está despertando para os sinais do aquecimento global, que se manifesta nos desastres naturais, mais intensos e frequentes. A grande crise econômica demonstrou a inter-relação entre os países.
Para não sucumbir, exige-se uma solidariedade entre as nações. É a solidariedade e a fraternidade aquilo de que o mundo precisa mais para sobreviver e encontrar o caminho da paz.
Final
Desde a sua fundação, a Pastoral da Criança investe na formação dos voluntários e no acompanhamento de crianças e mulheres grávidas, na família e na comunidade.

Atualmente, existem 1.985.347 crianças, 108.342 mulheres grávidas de 1.553.717 famílias. Sua metodologia comunitária e seus resultados, assim como sua participação na promoção de políticas públicas com a presença em Conselhos de Saúde, Direitos da Criança e do Adolescente e em outros conselhos levaram a mudanças profundas no país, melhorando os indicadores sociais e econômicos. Os resultados do trabalho voluntário, com a mística do amor a Deus e ao próximo, em linha com nossa mãe terra, que a todos deve alimentar, nossos irmãos, os frutos e as flores, nossos rios, lagos, mares, florestas e animais. Tudo isso nos mostra como a sociedade organizada pode ser protagonista de sua transformação. Neste espírito, ao fortalecer os laços que ligam a comunidade, podemos encontrar as soluções para os graves problemas sociais que afetam as famílias pobres.

Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, deveríamos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los.

Muito Obrigada!
Que Deus esteja convosco!"

Dra. Zilda Arns Neumann
Médica pediatra e especialista em Saúde Pública
Fundadora e Coordenadora da Pastoral da Criança Internacional
Coordenadora Nacional da Pastoral da Pessoa Idosa

Nunca fume em Minas... rsrsrs

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Entrevista com Urariano Mota

Reproduzo abaixo entrevista feita pelo blog "Literário" com o meu amigo e companheiro de luta política, o jornalista pernambucano Urariano Mota, colaborador do blog que edito/administro, o "Quem tem medo do Lula?", e que bate um bolão na literatura. Deliciem-se.
Ana Helena Tavares
















“Sou, acima de tudo, amante de Literatura, para mim arte e atividade suprema”

Nosso personagem de hoje que, com justiça, inaugura esta nova seção do Literário, é, ao lado do editor deste espaço, um dos dois remanescentes do grupo original dos pioneiros que participaram da criação deste empreendimento. É, sem dúvida, um dos preferidos dos nossos leitores. Dotado de um estilo atrativo, com uma cultura (sobretudo literária) ímpar, este escritor e jornalista é colaborador de diversos importantes sites da internet, como é o caso dos prestigiosos Observatório da Imprensa e Portal do Luís Nassif.
É membro da redação de La Insígnia, da Espanha, tendo, portanto, caráter internacional. Certamente o leitor já identificou de quem estamos falando. Trata-se, claro, de Urariano Mota, que em meados do ano passado lançou o livro “Soledad no Recife”, obra que não reluto em recomendar aos apreciadores de boa literatura.
Antes, já havia publicado o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, sátira ao ensino em colégios brasileiros, do qual brindou nossos leitores com alguns episódios. Querem saber um pouco mais sobre Urariano Mota? Pois acompanhem a entrevista abaixo que o mestre nos concedeu em fins do ano passado. ..

Literário – Trace um perfil resumido seu, destacando onde e quando nasceu, o que faz (além de literatura) e destaque as obras que já publicou (se já o fez, claro).

Urariano: Sou escritor, jornalista, suburbano. Natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife, desde 1950. Publiquei contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e demais periódicos de oposição à ditadura.
Tenho contos, crônicas e artigos publicados em lugares que vão da Europa ao Brasil. Sou colunista do Direto da Redação, www.diretodaredacao.com, e colaborador do Observatório da Imprensa. Em revistas brasileiras, tenho publicado na Carta Capital, na Fórum e na Continente.
Meu primeiro livro, Os Corações Futuristas, um romance de formação, recebeu críticas entusiasmadas na Alemanha, Itália e Brasil. Tanto nos Corações Futuristas quanto em Soledad no Recife a paisagem humana é a ditadura Médici.
Mas reconheço que falar sobre a ditadura não é minha especialidade. Apenas ali como aqui, antes como agora, escrevi e escrevo sobre o mundo da repressão que vi, percebi e testemunhei.

L - Você tem algum livro novo com perspectivas de publicação? Se a resposta for afirmativa, qual? Há alguma previsão para seu lançamento? Se a resposta for negativa, explique a razão de ainda não ter produzido um livro.

U - Tenho pelo menos três – um, reunião de crônicas, outro, uma experiência com literatura policial, um terceiro sobre o amor na adolescência e na velhice. Para esses, nenhuma perspectiva de publicação, por enquanto.

L – Há quanto tempo você é colunista do Literário? Está satisfeito com este espaço? O que você entende que deva melhorar? Por que?

U - Estou no Literário desde o seu nascimento. Estou e não estou satisfeito até aqui. Estou, por sua radical defesa do texto literário. Não estou, por sentir nele falta de um chute nos culhões (grafia não aceita pelos dicionários) de nossa realidade. Parece que estamos muito comportados, como bons meninos. Mas nisso a culpa é de todos, editor, colunistas, leitores. Como sair dessa, não sei.

L – Trace um breve perfil das suas preferências, como, por exemplo, qual o gênero musical que gosta, que livros já leu, quais ainda pretende ler (dos que se lembra), qual seu filme preferido, enfim, do que você gosta (e do que detesta, claro) em termos de artes.

U - Sou melômano. Mas, acima de tudo, amante da literatura, para mim arte e atividade suprema. Depois, “depois”, se me entendem, vêm a filosofia, o cinema, a pintura, e amar as pessoas acima de todas as coisas. Já fui católico a ponto de querer virar frade (frade, jamais padre, porque os padres teriam uma vida muito “mundana”). Nessa fase pensava que tinha amor a Deus acima de todas as coisas. Quando nele deixei de crer, percebi que Deus há muito eram algumas pessoas, que generalizava como sendo todo o mundo.
Tantos livros lidos, muitos mal lidos, que exigem uma releitura. O maior deles é o Dom Quixote, e seu escritor, Cervantes, o maior para mim que já houve. Gosto que me enrosco de Cervantes. É um gozo para o espírito permanente. Sou tarado pela literatura clássica. Mas é uma tara pra lá de compreensível. Os clássicos reúnem a experiência humana acumulada, falam de nós mesmos hoje, agora, neste exato instante, ainda que tenham falado para outros há muito tempo. Como desperdiçar tal tesouro?
Sou leitor de poesia, leitor de poesia, de poesia. A gente, que é glutão, tem que se alimentar muito de poesia.
Filme preferido: “Hiroshima, mon amour”. “E momentos de Vertigo” (Kim Novak foi meu primeiro êxtase e semente), e momentos (muitos, por maior prazo e tempo) de Buñuel, e, creiam, não é paradoxo: os números musicais das comédias da Atlântida. É uma experiência quase mística algumas canções nesses filmes. Quando aparece Ângela Maria cantando “Fósforo queimado” (cito de memória), não me procurem na sala, porque estou longe e ausente – lá em Água Fria em 1959.

L – Você gosta de teatro? Por quê?

U - Gosto, e já quis ser autor de teatro. Fracassei (perdoem a redundância). Quis ser ator de teatro (não fracassei, porque não tentei pra valer, esperto). Desculpem a blasfêmia, mas não troco um espetáculo de Molière pro Shakespeare.

L – Você já esteve no exterior? Onde? Se não esteve, para onde gostaria de viajar e por que?

U - O lugar mais exterior em que estive foi São Paulo. Fora do Brasil, se não houvesse o avião, gostaria muito de conhecer o México, Portugal e Espanha.

L – Você tem predileção por algum gênero literário? Qual? Por que?

U - Pergunta muito difícil. É uma escolha de Sofia. Na força, vamos, prosa. Mas uma prosa de quem conhece muito e se nutre de poesia. Literatura sem poesia é relato jornalístico.

L – Qual dos seus amigos vive mais longe? Onde?

U - Manter amizades é algo muito difícil. Talvez mais difícil que começar uma. Continuo a ter amigos que vêm da infância e da adolescência, mas com alguns abalos e diferenças. Por isso o que vive mais longe é o Gordo, o cidadão e homem do mundo Antonio Luís, que faleceu há algum tempo. Só de sacanagem.

L – Qual é, no seu entender, o pior sentimento do mundo? Por que? E qual é o melhor? Por que?

U - É páreo difícil escolher o pior entre deslealdade, inveja, egoísmo, vingança, mesquinhez, arrogância, insensibilidade, grosseria... Mas escolho egoísmo, bem mencionado por Monsueto na frase de um samba: “o teu egoísmo me libertou”. Se for olhar bem, um indivíduo egoísta é um mal para toda a humanidade. Todo o resto de maldade vem daí, dessa incapacidade de sair da própria pele e interesse.
O melhor sentimento também é difícil escolher entre simplicidade, generosidade, vontade, alegria, paixão, felicidade, olhos de criança, admiração por Lima Barreto e Kant. Mas vou no lugar-comum mesmo: amor. E lembro Cartola: “semente de amor sei que sou desde nascença”. Esse é um sentimento que vai além da cama, transcende carnes e sexo. O amor que um homem tem por seu trabalho, por exemplo, como Leite Loes cujo laboratório de física, para ele, era uma praia, o amor de Van Gogh por sua pintura, o amor de Cervantes, escravo na Argélia, ou preso na Espanha, pela literatura, que coisa mais alta pode haver? O amor das mães que passeiam com seus filhos grandes, crescidos, marmanjões, elas já velhíssimas, empurrando a cadeira de rodas pelo calçadão na praia, que mais belo há? O amor de um casal de velhinhos que vi no avião, que se apertavam as mãos na subida e pouso no aeroporto... a lista é grande e nos mata de vergonha pelo pequeno que somos ante tais pessoas.

L. - Se pudesse eleger um único escritor estrangeiro como o melhor de todos os tempos, quem você escolheria? E o brasileiro?

U - Estrangeiro, fácil, Cervantes. Brasileiro, difícil, por que só um? Lima Barreto e Machado de Assis.

L. O que você está produzindo atualmente?

U - Estou jiboiando. E quando parar de digerir, não posso falar, porque vem um azar grande.

L - Qual livro, ou quais livros, está lendo no momento?

U - Relendo “O Som e a Fúria”, lendo “El amor en los tiempos de cólera”.

L – Fale de alguma pessoa que você considere exemplar. Por que?

U - Lima Barreto. Eu não tenho qualquer ou nenhum distanciamento pra falar desse herói brasileiro. Dele guardo uma frase: “pela literatura queimei meus navios”. E, claro, Soledad Barrett Viedma, guerreira de quatro povos, como a chamou Mario Benedetti.

L. Em quais localidades do País você já esteve e gostaria de voltar? Por que?

U - Estive em João Pessoa. Eu passeio ali e ando e reencontro a cidade da minha infância. É um povo hospitaleiro e pernambucano como antigamente. Alimento o sonho de ter uma casa em João Pessoa, de modo e maneira que não fique muito longe de Olinda e do Recife.

L – Qual a sua maior decepção literária? E a maior alegria?

U - A maior decepção foi um texto humorístico que escrevi para a professora de Artes do Colégio Alfredo Freyre. O nome dela era Rosa, e cometi todo tipo de trocadilho para maior comicidade. Quando acabei a leitura, houve o maior silêncio da turma: a professora Rosa estava chorando.
A maior alegria: o livro “Soledad no Recife”.

L. O que você acha que deveria ser feito para estimular a leitura no País?

U - Reeducar os professores da rede pública de ensino. Alfabetizar os professores.

L - Você tem algum apelido? Qual? Fica irritado quando o chamam assim?

U - Muitos. O mais razoável é Urá, que alguns mudam pra Ura. Não fico irritado, mas me deixa muito chateado. Do perigoso Urariano me transformo em ursinho de madame, Urá.

L - Fale um pouco dos seus planos imediatos. E quais são os de longo prazo?

U - Dá azar. Os planos vão aparecer quando realizados.

L. Há alguma pergunta que não foi feita e que você gostaria que houvesse sido? Qual?

U - Por que você se chama Urariano? De onde retiraram tamanho absurdo?

L - Por favor, faça suas considerações finais, enviando sua mensagem pessoal aos participantes do Literário.

U - Uma das melhores coisas do Literário é a pessoa de Pedro Bondaczuk. E uma das piores é o puxassaquismo de certo colunista.
Mas falando sério, desejo aos amigos e companheiros um 2010 fecundo, de muito trabalho. O mais virá depois: amores, saúde, dinheiro, glória, banquetes e fama. E se não vierem, que coisa melhor há do que trabalhar naquilo que a gente ama?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Traço de mestre




Comissão da Verdade: não é hora de transigir

É fundamental que o capuz que protegeu o arbítrio seja rasgado pela democracia. Há um espaço social que se abre. Deixar de ocupá-lo, sob qualquer pretexto, não é apenas um erro tático, mas uma injustificável apologia da inércia.

Por Gilson Caroni Filho

São conhecidos os setores da sociedade brasileira que reagiram negativamente às propostas contidas no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, divulgado há três semanas pelo governo. A gritaria engloba a grande imprensa corporativa, segmentos conservadores da Igreja Católica, além de ilustres representantes do latifúndio. Todas essas forças e personalidades compreenderam lucidamente, de acordo com seus interesses, que o objetivo do texto não era o alardeado revanchismo contra os militares, mas a fixação de diretrizes que consolidam avanços democráticos. E é contra isso que se debatem, através de suas entidades representativas e de uma imprensa que vê no jornalismo decente o anátema mais temido.

A criação da Comissão de Verdade e Reconciliação para investigar os crimes da ditadura militar no Brasil não pode ser entendida como precipitação de uma “esquerda radicalizada". Sem se intimidar com pressões estreladas, a proposta tem como principal mérito estabelecer, no papel, a diferença entre combate e covardia, entre a verdade e a mentira. Com uma transparência antes inalcançada a questão democrática revela-se inextricavelmente entrelaçada ao resgate da memória histórica.

Longe de representar uma rachadura no núcleo progressista do governo, a postura da secretaria dos Direitos Humanos configura uma linha de comportamento político-ideológico coerente, corajoso e responsável. Não há por que recuar por conta de uma possível contaminação eleitoral, pela associação da iniciativa com a candidatura da ministra Dilma Rousseff. Não há imagem arranhada quando os procedimentos são nítidos e cristalinos. Como depende de produção legislativa para ser efetivado, o Plano, em toda sua larga extensão, não é um pacote jogado sobre as instituições. Mas um rico apanhado sobre as demandas efetivas da sociedade civil. Mais democrático, impossível.

Publicamente a cidadania se confronta com um fato: não se constrói democracia com ”prestativas" notas de clubes militares. Não é possível a eterna conciliação em uma arquitetura engenhosa e heterogênea como a que foi montada no governo Lula. Chega a hora da apresentação da fatura e, em momentos decisivos, é preciso firmeza para ratificar o combate de uma esquerda que se caracterizou por sua luta no pantanoso terreno nos direitos cívicos plenos. Se a verdade não é bem-vinda para direita, não há que se sufocá-la por um perdão decretado como "amplo, geral e irrestrito" O realismo político não pode prescindir da arte de se reinventar.

No calor do enfrentamento, duas propostas voltam a moldar o debate. A primeira defende que o campo democrático-popular deve escamotear sua busca pela verdade, postergando-a para quando as “condições o permitirem". Essa é uma proposta capitulacionista. Não enfrenta o problema real de uma sociedade que se quer ver livre de um arcabouço legal arbitrário e anacrônico. Além disso, tem um viés marcadamente golpista, ao procurar manipular e instrumentalizar o movimento democrático, sugerindo que, passados mais de 26 anos, as questões centrais da democracia brasileira devem permanecer em uma obscura clandestinidade.

Como escreveu Mino Carta, “é da natureza da tortura, portanto, que o torturador e o Estado que acoberta a tortura sejam levados a mentir". Em janeiro de 2010, em face das situações concretas colocadas pelo processo político, é fundamental que o capuz que protegeu o arbítrio seja rasgado pela democracia. Há um espaço social que se abre. Deixar de ocupá-lo, sob qualquer pretexto, não é apenas um erro tático, mas uma injustificável apologia da inércia. Não se constroem instituições democráticas, pluralistas, livres e participativas cortejando quem pretende destruí-las.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior, colaborador do Jornal do Brasil e do blog "Traços do que Vejo".

Será esse o mundo que conseguiremos?


domingo, 10 de janeiro de 2010

Luiz Carlos Azenha, Leandro Fortes e Alípio Freire juntos debatendo a mídia. Absolutamente imperdível.



Clique aqui para ver todos os vídeos.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre Casoy e os "xerifes da nação"

Clique na imagem para ler este texto no Observatório da Imprensa. Comentários são sempre bem vindos. ;-)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Traço de mestre


A ópera-bufa da crise militar

É preciso dar um basta aos que, se dizendo ameaçados de revanche, a ela se antecipam vislumbrando nos defensores dos Direitos Humanos uma motivação “terrorista". Essa é a mesma linguagem que os jornais reproduzem docilmente desde os anos mais duros da ditadura.


Por Gilson Caroni Filho


A reação dos comandantes do Exército, general Enzo Martins Peri, e da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ameaçando pedir demissão caso o presidente da República não revogue alguns trechos do Plano Nacional de Direitos Humanos 3- que cria a Comissão de Verdade para apurar torturas e desaparecimentos durante o regime militar, revela a triste face de um estamento que ainda não se deu conta que a reconstituição da guerra dos porões é um desafio que não mais comporta tutelas.


O inferno foi aqui, faz parte do domínio da história. É necessário revolvê-la, vasculhá-la pela ótica dos carcereiros, para que a sociedade reencontre sua memória para a desejável consolidação da democracia profunda. É preciso dar um basta aos que, se dizendo ameaçados de revanche, a ela se antecipam vislumbrando nos defensores dos Direitos Humanos uma motivação “terrorista". Sintomático é que essa é a mesma linguagem que os jornais reproduzem docilmente desde os anos mais duros da ditadura.


As palavras do ministro da Justiça, Tarso Genro, em entrevista ao Jornal do Brasil (edição de 3/01/2009) não deixam margem para qualquer dúvida:


"Não se trata de uma prestação de contas das Forças Armadas. Os torturadores são indivíduos que montaram aparatos paralelos e a grande maioria deles era civil. É bom lembrar também para quem os defende que a primeira pessoa que desmontou um aparelho paralelo foi o general Ernesto Geisel ao extinguir a Operação Bandeirantes. Se o chefe de um regime autoritário teve a coragem de fazer, como é que os civis da democracia não têm coragem de prosseguir esse trabalho?"


A tarefa requer apenas vontade política para se resolver um dos vértices da questão da anistia. Por mais ampla e recíproca que ela tenha sido, como afirmam seus defensores, isso não elimina o direito das famílias de saber o que aconteceu com seus desaparecidos- e encaminhar os processos no sentido de identificar os autores dos crimes contra presos políticos, remetendo-os á Justiça. Caberá ao Supremo Tribunal Federal (STF) decidir se pune os responsáveis ou aplica o entendimento inicial da Lei, arquivando os casos - seja por considerar a anistia recíproca em seu sentido mais amplo, seja por classificar tortura e assassinatos cometidos no período como “crime político conexo".


Salvaguardar as Forças Armadas não é acobertar os crimes de uma camarilha fascista que nelas se alojou para saciar suas patologias e as do empresariado que a financiava. Pelo contrário, a forma mais radical de fortalecê-las é reforçar seu papel de guardiãs do Estado Democrático de Direito.


Os comandos militares não podem esquecer os princípios mais elementares de legalidade- ou iludir-se com velhos castelos de sofismas- porque não se suprime por decreto uma consciência histórica construída em tantas crises constitucionais, uma a uma duramente superadas. Do contrário a ordem institucional brasileira forjada pela ditadura não será plenamente substituída, mas readaptada com a conivência inclusive de quem se proclama democrata convicto.


Disso tudo deveria saber, entre outros, o ministro Nelson Jobim, antes de encenar sua última ópera-bufa no governo. Mais uma vez aqui se impõem as lições da história. A crise é o momento de emergência do novo. O que a ele se opõe é da ordem da teratologia política.


Colaboração enviada para o "Traços do que Vejo" por Gilson Caroni Filho, professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

No "Traços de Estilo": No bico de um companheiro (política e sociedade)

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Traço de mestre


A direita e o suplício de Papai Noel


Por Gilson Caroni Filho


O ano se encerra com interessantes contrapontos. As várias distinções honoríficas, prestadas ao presidente brasileiro pela imprensa internacional, fizeram desmoronar, como castelos de areia, a enxurrada de ritos sumários com que, a cada edição diária, a mídia nativa tentou desconstruir as realizações do governo petista e o capital simbólico acumulado pelo campo democrático-popular.


O título de "Homem do Ano em 2009", concedido a Lula pelo Le Monde, o mais conceituado jornal da terra de Lévi-Strauss, representou " O suplício de Papai Noel" (*) para um jornalismo que se esmerou, com textos de contornos cada vez mais nítidos, em servir como porta-voz das forças mais reacionárias da sociedade brasileira


Mas não nos iludamos. Entre a ingenuidade de alguns e a esperteza de outros, a orientação geral é descarregar cargas de fait divers sobre as premiações, ocultando seu real significado. Não se está enaltecendo a habilidade política de um homem, seu carisma ou simpatia. O que está sendo reconhecido é algo de magnitude bem mais ampla: a pedagogia de fatos que, por sua evidência, ensinou à Nação que só passando a limpo suas instituições econômicas, políticas e culturais não corremos o risco de perder a nossa hora e a nossa vez.


O que está sendo objeto de elogios é um governo que não está perdendo a oportunidade de fazer as mudanças sociais há muito reclamadas. Contrariando as transições por alto que tanto marcaram a nossa história, Lula personifica a ruptura com acumulação de farsas que chega, hoje, ao seu ponto de ruptura definitiva. O que conquistamos não foi o aplauso fácil de um país que se verga a antigas estruturas coloniais, mas o respeito de quem assume o papel de sujeito da própria história.


A opção pelo aprofundamento da democracia, pelo crescimento com distribuição de renda, pela economia baseada no consumo interno e na redução de renda per capita é o que marca a mudança de rumo desde as eleições de 2002. Some-se a isso a afirmação de uma política externa independente, com práticas assertivas na afirmação de alguns princípios de relações internacionais, apontando para a busca de uma ativa coordenação soberana com atores relevantes do cenário mundial, e veremos que as diferenças conceituais com o antigo bloco de poder neoliberal são expressivas demais para não contrariar interesses arraigados na subalternidade, na soberania rarefeita.


Encerrado um ano exitoso, o que cabe às lideranças partidárias e à militância? Não confundindo realidade com desejo, buscar uma política de alianças que assegure maioria para a vitória de Dilma Rousseff nas próximas eleições. Dessa vez, há partidos políticos e quadros suficientemente qualificados para manter um projeto que se distingue pela coerência e nitidez de sua vocação transformadora. Mas não será um embate fácil. A direita dispõe de considerável capilaridade e do apoio logístico da mídia corporativa.


Diante deste quadro, as esperanças não repousam apenas em arranjos regionais. Para além das máquinas partidárias- e de elaborações teórico-metodológicas que precisam ser desenvolvidas- a capacidade de mobilizar a juventude, fazer com que ela se alie ao mundo do trabalho e a todos os setores até então oprimidos é fundamental. Estão nas forças sadias, detentoras de mecanismos precisos de clivagem, as chances que temos de evitar a perda de uma oportunidade única que a história está oferecendo. É preciso dar continuidade ao “suplício do Papai Noel".


Um Feliz 2010 para o povo brasileiro.


* “O Suplício do Papai Noel” é um brilhante ensaio antropológico de Claude Lévi-Strauss, publicado no Brasil pela Editora Cosac Naify


Colaboração enviada para o "Traços do que Vejo" por Gilson Caroni Filho, professor titular de sociologia das Faculdades Integrada Hélio Alonso (FACHA), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O homem de Nazaré e os outros homens

Cristo foi o jovem que saiu de Nazaré, esteve em algum lugar que os evangelhos não registram, nem ele revelou a seus discípulos, até que, homem feito, foi buscar, nas águas do rio, o batismo de João Batista. O pregador precisava de seu concurso, e ele o substituiu quando uma princesa volúvel recebeu de presente a cabeça do profeta. Sua ação foi política: como João, recusava o sistema. Contra ele, pregava – no meio do povo – a revolução, imediata, da igualdade e da justiça.

Por Mauro Santayana, jornalista, no JB

As escavações de Nazaré, ao revelarem uma casa da época de Cristo – que pode ter sido a da família de Jesus – mostram a pobreza daquele tempo, em que os romanos afirmavam seu império sobre a Palestina, com seus soldados e Herodes. Somos tentados, ao examinar as circunstâncias históricas, a definir Jesus como um homem político, mas, para isso, temos que escoimar a expressão, tão maculada ela se encontra. A política, e essa reflexão nos serve nestas horas brasileiras, como servia em Jerusalém, é a mais importante das ações humanas, e todos nós devemos praticá-la, como Cristo a praticou contra o Império.

Vivendo em comunidade, tudo o que fazemos, e tudo o que deixamos de fazer, interfere no todo. Na política, como na física, podemos recorrer à famosa teoria do caos, de Edward Lorenz, e do efeito borboleta (dela intuído, embora de forma lateral). Assim como o bater de asas de uma borboleta, no Pacífico, pode determinar, pela ampliação das consequências físicas, o derretimento de uma geleira na Antártica, o ato de um cidadão qualquer pode desencadear processo político que venha a mudar o mundo. Seu gesto pode repetir-se, crescer ao ser emulado, mudar a História.

Cristo foi o jovem que saiu de Nazaré, esteve em algum lugar que os evangelhos não registram, nem ele revelou a seus discípulos, até que, homem feito, foi buscar, nas águas do rio, o batismo de João Batista. O pregador precisava de seu concurso, e ele o substituiu quando uma princesa volúvel recebeu de presente a cabeça do profeta. Sua ação foi política: como João, recusava o sistema. Contra ele, pregava – no meio do povo – a revolução, imediata, da igualdade e da justiça. Qualquer que seja a interpretação de sua presença e dimensão histórica, ele agiu, no plano da realidade de seu tempo, como político. Isso não lhe exclui, nem mesmo reduz, a transcendência. A transcendência se confirma na necessidade, naquele momento, e em toda a História, de sua presença no sentimento de todos os seres humanos. Todos os que o negam, o confirmam, em algum momento da vida. Confirmam-no quando se encontram em aflição e o confirmam quando são tocados por instantes de êxtase, de alegria e de indignação contra os opressores.


O Natal é a festa do nascimento de Jesus, porque é a festa do nascimento de todos nós. De acordo com alguns teólogos, nós nascemos com Cristo, porque só depois dele entendemos a vida como um compromisso com o amor. A mensagem de Cristo é mais poderosa do que as instituições que reivindicam o seu nome; é também mais poderosa do que a fé que as seitas recolhem e administram, nos negócios do mundo. Ela é a mensagem do Filho do Homem, para os homens; é a mensagem de um para o outro, para os outros. Nisso, os evangelhos podem ser traduzidos em uma frase: nós somos seres que só podemos nos entender como irmãos na igualdade: na face e nas mãos, nos olhos e nos lábios, na voz, no riso e nas lágrimas.

Nós somos o que somos, e seremos maiores no tempo e no mundo, quando formos iguais, uns diante dos outros. Para os humanistas e agnósticos que vivem a sua mensagem, embora possam duvidar da saga que lhe atribuem, Cristo é, do nascimento à morte; da gruta de Belém ao Calvário; da estrela radiosa e brilhante, que o saúda ao nascer, às trevas da agonia, uma resposta do homem à sua própria necessidade.

Como qualquer homem, na hora da morte, ele não tinha ângulo em que agarrar-se, estava agônico, de acordo com o léxico grego. Assim, como qualquer homem, recorreu a Deus, perguntando-lhe porque o abandonara. No reconhecimento de sua fragilidade humana, estava a grandeza de sua transcendência. Por isso, São Francisco de Assis, de inegável existência histórica, é o santo que dele mais se aproxima, ao despir-se e batizar-se com o vento, e reafirmar o amor, ao retomar, com a jovem Clara, o caminho de Cristo na encosta de Assis e na planície umbra, em cujo solo reabriu suas trilhas palestinas, e fundou, com os pobres, comunidade que incluía leprosos e miseráveis.

O Natal – para aqueles que não o celebramos como festa profana, festa do consumo – é uma reverência ao Mistério, que fez de um homem frágil, que não conseguia sozinho – e este é outro sinal da transcendência – carregar a cruz, e aceitou que um certo Simão, cirineu, o ajudasse a subir a escalada do Calvário. Um cirineu qualquer, que vinha do campo, com seus braços e seu ombro, conforme o belo Evangelho de Lucas.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Caso Estadão

Até onde vai a liberdade de imprensa?

Por Marina Lins, no "Olhar Virtual"

Fernando Sarney desistiu da ação contra o Estado de S. Paulo na última sexta, dia 18, uma semana após o Supremo Tribunal Federal (STF) rejeitar recurso do jornal. O empresário afirmou que não quis levar adiante a censura, que já durava 140 dias, por considerar que a “liberdade de imprensa é um patrimônio da democracia”. Por seis votos a três, o STF negou o pedido do Estadão, no dia 10, argumentando que a ação deveria ser extinta por partir da justificativa do fim da Lei de Imprensa.

Com o objetivo de impedir a divulgação de informações sobre Fernando Sarney obtidas na Operação Boi Barrica da Polícia Federal, o empresário, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), conseguiu uma liminar no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJ-DF) no dia 30 de julho. Esta foi concedida pelo desembargador Dácio Vieira, que mantém um relacionamento social com a família Sarney. Fernando foi indiciado pela PF por formação de quadrilha, gestão de instituição financeira irregular, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

O Estado de S. Paulo foi proibido de divulgar gravações envolvendo Fernando Sarney na época em que o Senado passava pela maior crise de sua história. A liminar previa multa de R$ 150 mil para cada reportagem do jornal que descumprisse a decisão. No STF, os ministros Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Eros Grau, Ellen Gracie, Ricardo Lewandowski e José Dias Toffoli votaram contra o pedido de recurso do Estadão. A favor do jornal, se posicionaram Carlos Ayres Britto, Celso de Mello e Cármen Lúcia.

De acordo com Joaquim Martins, professor da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), a liminar contra o jornal foi uma medida clara de censura prévia. “Foi um caso expresso, vivo e perigoso de censura prévia num país que está ainda adolescendo na sua redemocratização, tendo em vista que a matéria era sobre ilícitos administrativos envolvendo a coisa pública”, afirma. Para o professor, Fernando Sarney desistiu da ação por oportunismo. “Já houve tempo de ser feita uma carapaça de proteção para ele e todos os demais envolvidos, além de ter repercutido muito mal, principalmente para o José Sarney”, comenta.

Martins se preocupa com a posição tomada pelo STF de julgar o fato como invasão de privacidade. “Essa situação abre um precedente mais do que perigoso, pois caracteriza um corporativismo e proteção ilegal, para não dizer imoral, entre aqueles que detêm algum tipo de poder público ou influência pública”, analisa. O professor acredita que a liberdade de imprensa tem sido atacada e posta de lado de forma exponencial no governo do PT. “Isso acontece principalmente quando estão envolvidas pessoas do governo ou que têm grande poder financeiro, numa situação degradante quanto ao interesse público”, afirma.

STF: qual é o mérito da questão?

O recurso do Estadão tinha como principal argumento o fato de que o TJ-DF estaria descumprindo a decisão do STF de pôr fim à Lei de Imprensa. Os ministros que se posicionaram contra o jornal defendem que não foi votado o mérito da questão – se houve ou não censura prévia –, mas se o tribunal do Distrito Federal de fato contrariou a resolução do STF. Para Toffoli, "não se está julgando a constitucionalidade ou inconstitucionalidade da vedação prévia de matéria jornalística, mas se a autoridade reclamada descumpriu decisão desta Corte". Segundo o ministro, "a decisão reclamada não se fundou na extinta Lei de Imprensa".

O ministro Peluso defende que a imprensa precisa ter limites: "A liberdade de imprensa é plena dentro dos limites conceituais da Constituição." Já Eros Grau acredita que não houve censura. "Estamos falando da aplicação da lei pelo Poder Judiciário. Isso não é censura", interpreta.

Joaquim Martins discorda dos ministros e afirma que a situação é “totalmente ilegal”. “A decisão não contraria apenas o fim da Lei de Imprensa, mas também o que está garantido na própria Constituição e o interesse público em geral.” Para o professor, o STF se posicionou dessa forma para não se expor, já que o tribunal esteve muito em evidência este ano, e acredita que a sua tática de defesa será não falar mais no assunto. “O STF ficou com cara de tacho e de ‘calça na mão’ e, como sempre, não vai querer comentar o assunto, contando com que isso caia no esquecimento, devido à falta de memória e de vergonha na cara do povo brasileiro.”

Do outro lado do ringue, Celso Mello protestou contra o cerceamento à liberdade de imprensa. "A informação tem por destinatário o cidadão, que tem a prerrogativa de recebê-la sem interferência de qualquer órgão do Poder Público.” O ministro ainda acusou a decisão de ser discriminatória e fazer distinção entre os veículos. "A reclamada foi a única que sofreu a limitação de divulgação, os outros órgãos de comunicação social divulgaram e continuam a divulgar a informação, e não sofreram interdição."

Considerando que o Estado de S. Paulo investigou essa pauta mais do que os outros veículos, Martins acredita que a escolha do jornal como alvo da censura tenha sido apenas circunstancial. “Além disso, o matutino tem grande influência e repercussão na opinião pública”, acrescenta. Porém, o professor alega que “essa situação demonstra certa conivência dos outros veículos, que, mesmo tendo conhecimento do fato, optaram por não chamar muita atenção para ele”.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Traço de mestre


Foto: Luciana Sarmento
Avanços de Nuestra América em 2009

Estamos diante de um novo tipo de coordenação entre povos e Estados. Talvez fosse melhor falar em transição da transição. Um ponto de ruptura com a época em que o único sistema de coordenação possível era ditado pela Operação Condor.

Por Gilson Caroni Filho

A crônica do ano de 2009 constitui um rico terreno a ser explorado pela lupa de historiadores e cientistas políticos. Tanto no Brasil, como no restante da América Latina, o cotidiano político produziu um rosário de fatos relevantes capaz de revelar o que se passa nas engrenagens das sociedades da região.

No geral, as tendências democráticas acumularam forças, ampliaram o seu âmbito de influência em detrimento das velhas ordens carcomidas, consolidando e conquistando posições. Honduras foi a exceção, que de tão bizarra, confirmou a regra de uma América Latina que expressa, de maneira patente, sua vocação democrática.

O resultado das eleições bolivianas prova, com a própria dinâmica, que o movimento real, no sentido da democracia concreta, é sinuoso e se desenvolve desigualmente. A “velha toupeira" trabalha infatigável e a reafirmação da nova ordem política mostra um continente em que trabalhadores, camponeses e indígenas recuperam as forças perdidas em batalhas anteriores, demonstrando a robustez de movimentos sociais extremamente articulados.

Não foi outro o motivo que levou Evo Morales, falando do Palácio do Governo, na Praça Murillo, a afirmar que" essa vitória foi um aviso do povo a governos anti-imperialistas”, agradecendo aos bolivianos por lhe dar a oportunidade de continuar a trabalhar para a eqüidade e a unidade no país sul-americano.

O líder aymara sabe que a condição para o avanço da democracia em seu país reside justamente na unidade e na abrangência das forças que o apóiam. Ambas -unidade e abrangência- serão imprescindíveis para resistir à ofensiva das oligarquias derrotadas, permitindo a formulação de novas alternativas econômicas, sociais e políticas.

Na Argentina, com a aprovação da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, o governo de Cristina Kirchner confrontou a estrutura oligopolizada e a propriedade cruzada dos meios de comunicação. De acordo com o dispositivo legal, o setor privado poderá ter somente 33% das licenças do espectro radioelétrico, sendo o restante distribuído entre o Poder Público, as organizações sem fins lucrativos e as universidades. Tendo em conta a centralidade da grande imprensa no processo político, o ganho dos movimentos sociais com a medida é imenso.

Por aqui, a Conferência Nacional de Comunicação, convocada pelo presidente Lula, é, por si só, um avanço significativo. A mídia corporativa declara estar em curso um processo autoritário que, buscando “controlar a produção e distribuição de informação”, objetiva ameaçar a liberdade de imprensa e o direito do cidadão à livre informação.

O famoso "diga-me com quem andas" não deveria ser lembrado quando vemos que a grita contra o encontro une alguns notáveis jornalistas a entidades como a ANJ e a Abert? Não vemos apenas a reação de hegemonias ameaçadas pela ação de um governo que, ainda que excessivamente cauteloso, ousou afrontar a produção de pensamento único?

Uma grita que perde qualquer sentido quando observada a composição tripartite da Confecom, seu caráter democrático e plural. Em jogo, mais que o poder político e o novo marco regulatório exigido pelas novas tecnologias, está a possibilidade de efetivação de um processo comunicativo horizontalizado, premissa básica de qualquer democracia

Por fim, foi na política externa que o bloco liberal-conservador sofreu outra derrota. A aprovação do ingresso da Venezuela no Mercosul, após duro embate entre governo e oposição no Senado, foi a vitória dos que apostam no Mercado Comum como espaço de integração. Apesar de ainda não terem superado incompreensões que obstaculizam ações unitárias, fundamentais para o enfrentamento de assimetrias, as forças progressistas da América Latina reiteram a opção pelo caminho sem volta de uma união soberana.

Estamos diante de um novo tipo de coordenação entre povos e Estados. Talvez fosse melhor falar em transição da transição. Um ponto de ruptura com a época em que o único sistema de coordenação possível era ditado pela Operação Condor. Uma conjuntura sombria onde as oposições burguesas mostraram o caráter mesquinho de seus supostos projetos de redemocratização. Os reais objetivos, sabemos todos, nunca passaram de tentativas mal dissimuladas de negociação com a ditadura, de melhores posições no jogo político montado para oprimir o povo.

São esses mesmos setores, com ar de vestais de republiqueta, que hoje se opõem a Chávez, Lugo, Morales, Ortega, Kirchner, Lula e Correa. Continuam lutando por uma democracia depurada do elemento popular que a define. Não gostam apenas de paradoxos lógicos; amam retrocessos que levem a pactos intra-elites. Assim, a fragmentação das forças progressistas chilenas, que deu à direita uma vitória expressiva no primeiro turno das eleições presidenciais, deve servir como alerta ao campo democrático-popular brasileiro. Em 2010 não nos faltarão emoções fortes. Melhor evitar as desnecessárias.

Em tempo: Ao alterar o texto do julgamento do pedido de extradição de Cesare Battisti, o STF termina o ano aceitando chicanas de toda ordem, fato reconhecido até por ministros da Casa. É de Marco Aurélio Mello a constatação: “o que o governo da Itália pretende é uma virada de mesa”.

Colaboração enviada para o "Traços do que Vejo" por Gilson Caroni Filho, professor titular de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da "Carta Maior" e colaborador do "Jornal do Brasil".

Artigo publicado originalmente hoje, 17 de Dezembro de 2009, na Carta Maior.

Alô redação! 65 décadas de magistério nem os grandes mestres aguentam!!!!!!

Saiu no jornal "O Globo" de hoje, 17 de Dezembro de 2009.

Pessoal, para muito além da "confusão etária" do jornal, o que eu quero mesmo registrar aqui é a satisfação que tive ao ler esta notícia. Se é verdade que existe muita gente fazendo figuração na ABL, estes três merecem a cadeira em que sentam.
Com relação ao Alfredo Bosi, falo apenas por conhecer seus livros, o que já é muito. Trata-se de um competentíssimo estudioso da história de nossa literatura e da formação de nossa cultura.
Sobre os outros dois, tenho a honra de dizer que falo literalmente de cadeira.
A mais nova "imortal" é não só a maior especialista em literatura portuguesa em atividade no Brasil, como também uma das maiores - e eu diria mesmo que a maior - autoridade mundial no que diz respeito ao estudo da obra do gigante Fernando Pessoa. Sabe tudo e mais alguma coisa. Se não bastasse, é uma senhorinha que irradia simpatia. Isso eu constatei ao vivo e a cores durante algumas palestras que tive o prazer de assistir dela em meus tempos de estudante de letras.
E, falando nestes tempos, temos aí Antonio Carlos Secchin... Poeta de primeiríssima categoria, crítico literário consagrado (especialista na obra de Gullar), orador brilhante, maestro de inesquecíveis aulas de literatura brasileira... Simplesmente, foi através de conversas com ele, sempre atencioso,
que comecei a me dedicar à poesia.
O que dizer? Salve eles!
E que vivam ainda muitas décadas! Mas 65 nem Noé alcançou... Só mesmo Matusalém...

Ana Helena Tavares

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Você já parou pra pensar se essa história de "aquecimento global" é falsa ou verdadeira? O que há por trás dessa mobilização dos poderosos do mundo?


AQUECIMENTO GLOBAL : “FALSO OU VERDADEIRO ???”

Por Pettersen Filho, da Associação Brasileira de Defesa do Indíviduo e da Cidadania (Abdic)

Quando reunirem-se, essa semana, em Copenhague , na Dinamarca, o supra-sumo das principais potências econômicas mundiais, defendendo, com dialetos e idiomas próprios, cada um sob o seu ângulo de vista, e ambição particular, a manutenção do Clima no Planeta estará, definitivamente, formada, numa alusão bíblica, a Torre de Babel , construção mítica, jamais levada a cabo, devido ao desentendimento entre as nações, a versão moderna da grande Babel Mundial .

Planeta, Organismo - vivo , desde o seu advento, que teve como paisagem de fundo, e condição de ingresso da vida no Planeta, o calor, próprio dos Vulcões , onde a rocha magma se cristalizou, dando vida aos dinossauros , depois, sucumbidos pelo gelo, segundo os especialistas, decorrido do suposto choque de um grande meteoro com o Planeta , a Terra , desde o sempre é um Ente - vivo , em constante mutação, quem respira, transpira, soa e espirra...

... ameaçando, de vez, a remover-nos de sua epiderme !

Assim é que, munidos de proposital inocência , enquanto os cientistas, ao seu turno, alguns, afirmam em tom apocalíptico, que, “ estão contados os dias no Planeta” , porquanto, outros, cada um com sua planilha, e motivação política em punho, de outro lado, na verdade, informam que a Terra está, é, resfriando , as principais nações do Mundo reunir-se-ão para debater o Clima do Planeta , sob estrita observação dos movimentos ambientalistas mundiais, e por quê ? não dizer, sob a batuta dos principais grupos econômicos internacionais, de olho em possíveis restrições que aplaquem, ou diminuam-lhes, o livre arbítrio, e poder, de realizarem, em suas cadeias produtivas, verdadeira lambança.

Dessa forma, enquanto os ditos, “ entendidos ”, não se entendem, o homem comum , esse que pega o ônibus lotado em São Paulo , na periferia, enquanto se dirige ao trabalho, em capitais completamente engarrafadas e poluídas, Planeta a fora, sem a clemência de um misero ar condicionado, esse, ao passo que respira, cada vez mais, doses e mais doses de monóxido-de-carbono , misturado ao chumbo pesado , que faz a sanha das multinacionais do combustível fóssil, a Petrobrás dentre elas, esse, sequer precisa do endosso de um cientista qualquer, lá da Alemanha ou do Japão , para constatar que o seu saco, e ovos, já estão, há muito tempo, fritando...

Discursos enristes guardados no smoking, ávidos a figurarem bem na foto clássica do evento, em meio a muito “ bla-bla-blá oficial ”, desde Barack Obama , dos EUA, Poluidor Mor do Planeta , à custa de quem mantêm o conforto e a fanfarrice dos lares americanos, e seus carrões bebedores de gasolina, até a China, do Presidente Hu Jintao , novíssima candidata ao Clube dos Bacanas , bebedores de uísque e champagne francês, enquanto fomenta o seu processo de industrialização, ao preço da queima colossal de muito carvão, e da degradação ambiental, ademais, cada qual, comparece ao evento defendendo interesse próprio, geralmente, egoístico e não-confessável.

Então, posto na mesa o Tabuleiro da Convenção Climática , fadado a repetir o fiasco ecológico de Quioto , no Japão, há alguns anos atrás, a verdade é que existe na “ questão climática ” uma profunda, e histórica, cisão, a mesma e clássica, que vem desde a época das Grandes Navegações e do Colonialismo , em que, novamente, munidos do interesse de preservar a sua vanguarda econômica, e industrial, agora, discorrendo outro discurso, e não mais o da catequização dos povos bárbaros, como nas Cruzadas , mas, sim, atrás de novos e cativos mercados, objetivando não transferir de hemisfério as suas riquezas, as Nações Desenvolvidas da América do Norte e da Europa, aterrorizadas com o pseudo , mas real, discurso do Fim do Mundo , querem impedir que paises menos desenvolvidos, como Índia e Brasil ingressem, com suas economia e industria, nas barras do Século XXI, tudo, via quota de emissão, e outras armadilhas de apego ecológico.

Particularmente interessado em converter a sua quota de preservação ecológica, em Crédito de Carbono , traduzido por ajuda financeira internacional, em troca da conservação, por exemplo, da Floresta Amazônica , o Brasil , com muita lenha para queimar, parece que vai defender o Tratado , que torne tal regra obrigação.

Contudo, interessados em defender outros pontos de vista, EUA , China e Índia , outros grandes poluidores, parecem, definitivamente, não estarem dispostos a pagarem tal preço...

Enquanto isso, na “ Construção ” da Torre de Babel Climática, onde cada um fala idioma diferente, o Mestre da Obra , seja ele quem seja, encarregado de erigir a “ Construção ”, em nome da preservação da vida humana na Terra , contudo, sem ser muito bem compreendido pelos “ Operários ”, de diversas nacionalidades e credos políticos, ao solicitar que coloquem mais cimento na massa, proclama:

“ Stanas pana canas, sbrutchi canas, prush reich !!”...

O que não quer dizer, em idioma algum , coisa nenhuma , para ninguém !

Clique nos links abaixo e conheça alguns argumentos do cientista brasileiro Luiz Carlos Molion, representante da Organização Metereológica Mundial na América Latina, que não acredita em aquecimento global:

"Aquecimento é farsa"

Conheça dois sites dedicados à defesa da tese de que há, sim, aquecimento global:

http://www.aquecimentoglobal.com.br/


http://www.terrazul.m2014.net/spip.php?article231

Se há ou não aquecimento global, falta-me conhecimento técnico para avaliar. Mas isso não impede que eu faça a minha parte por um mundo mais habitável, de acordo com o que sinto. Sinta o mundo à sua volta e, depois, como sempre na história da humanidade, a escolha é de cada um.

É grave a crise na editora Abril...

Observem bem o título em letras garrafais em plena capa desta revista (edição do mês passado), que, segundo consta, é feita e voltada para professores... Resumo da ópera: além de insistirem em me mandar revistas de graça (incluindo a Caras, que, como vocês podem imaginar, eu adoro desde criancinha...), eles agora deram também pra comer crases...
"O discípulo não supera o mestre, o complementa" (Luciene Félix, profª de filosofia da Escola Superior de Direito Constitucional - SP)

"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."
(Platão)

"A amizade é mais importante do que a justiça, porque onde houver amizade, a justiça já está feita."(Aristóteles)

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